A Prisão da Bastilha e sua tomada, fatos e mentiras (Série Rev. Francesa) – Prof. Plinio

14-07-1990 SD. Dr. Plinio foi um advogado, catedrático de história na PUC-SP e autor de inúmeros livros, traduzido para diversas línguas. Mais conhecido por ter presidido a TFP, associação de inspiração católica que inspirou outras similares em inúmeros países.

00:00 Prisão da bastilha: em que consistia
05:45 Tomada da Bastilha

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O rei — e com isso eu chego à Bastilha —, dizia um velho provérbio jurídico do reino da França; “O pai é rei dos filhos, e rei é pai dos país”. Quer dizer, tocava ao rei proteger os pais e tocava aos pais educar os filhos para respeitarem o rei. É sempre o sentido de cooperação.

Bom, e por causa disso, quando um filho andava em más companhias, quando o filho começava a pôr fora o dinheiro do pai, quando o filho fazia ações que dava ao pai medo que ele, de repente, fica-se criminoso. Quando a mulher andava namoriscando e o marido tinha medo que ela prevarica-se, quando o marido começava a gastar os bens da família. Enfim, qualquer coisa que perturbasse a vida da família, as pessoas que tinham queixa a fazer, podiam reclamar ao rei. E se estabelecia um processo secreto para não ser divulgado, para não ficar mal para ninguém, que subia até ao rei, de tal família que se queixava que tal filho tinha feito isso e que tal outro fazia aquilo, etc., etc. E pedia ao rei um tempo de prisão para aquele que anda mal.

Mas a prisão não era o Carandiru de hoje, era uma coisa inteiramente diferente, era uma reclusão até que aquele ou aquela sossegasse e tomasse juízo, sabendo que se continua-se, depois voltava para a prisão de novo.

Então, a parte contra a qual havia queixa, tinha o direito de se defender, o rei ouvia também. Mas se o rei entendia que o filho estava andando mal mesmo, e que o pai tinha razão, atendia o pedido do pai e mandava prender na Bastilha, um ano, dois anos, cinco anos, conforme fosse a coisa. E às vezes era mais, porque eram sujeitos tarados e perdidos que só ficando presos não faziam toda a espécie de loucuras.

Bem, o rei mandava prender essas pessoas na Bastilha, com uma carta escrita por ele ao diretor da Bastilha. Mas com fórmula já impressa, só preenchia os nomes: “O senhor tal, diretor da minha prisão da Bastilha, eu lhe ordeno que mande prender pelo prazo de tanto tempo na minha prisão da Bastilha, o senhor Fulano de Tal”. Para não difamar o homem, acrescentava: “Porque tal é meu belo prazer”. Quer dizer é para poupar, é para não dizer qual é o crime, para não ficar difundido.

A prisão da Bastilha era uma prisão muito singular porque conforme as posses do prisioneiro, ele podia levar os móveis dele, podia ter numa sala dele com cortinas, com tapete, com tudo. Podia mandar vir comida dos melhores restaurantes de Paris, se ele tivesse dinheiro. Ele, a única coisa que tinha era que ele estava proibido de sair, está proibido de fazer besteira.

Quer dizer, a Bastilha tinha o sentido de uma reclusão para o sujeito não fazer loucura, era uma espécie de corrimão numa escada, não era uma jaula para prender uma fera. E por causa disso, nas horas de lazer, eles podiam se encontrar no pátio da Bastilha, passear lá dentro, podiam subir às torres e às muralhas da Bastilha que era uma velha fortaleza medieval, e de lá ver gente que eles conheciam. Saudavam de longe, etc. Só que, grade é grade! E quando dava a hora do sino, voltava para a cela.

Na cela eles tinham biblioteca, podiam escrever cartas, podiam receber visitas nos dias de visita. Aí não é infamante ter estado na Bastilha, como por exemplo infamante ir parar a um Carandiru. Era como um menino que passa um tempo no internato. Quer dizer ficar lá não é gostoso, mas é tão pouco ruim quanto possível. É uma prisão de pai, porque o rei é pai dos pais, e protege os pais contra os filhos.

Bem, a fortaleza era enorme, no tempo da Idade Média ainda tinha servido para manter a defesa de Paris, era um dos elementos da defesa de Paris. Quando entrou o perigo das armas de fogo, as velhas fortalezas medievais perderam muito a sua utilidade militar e então passou a deixar de ser fortaleza e passou a guardar o tesouro real: a coroa, as jóias d a coroa, o ouro que o rei tinha, etc, etc., estavam guardadas na Bastilha. Com o tempo isto deixou de ser assim e passou a haver ali essa prisão de Estado.

* Os enciclopedistas murmuravam contra a realeza; Bastilha um antro de tirania

Mas o povinho conhecia pouco isso, e espalharam máfias tremendas contra a Bastilha, dizendo que havia gente lá presa a tanto tempo que ninguém mais sabia, estavam apodrecendo lá em prisões terríveis, que havia castigos horrorosos, que havia um homem usando uma máscara de ferro o tempo inteiro, porque o rei não queria que soubessem quem ele era, mas que, de fato, era um irmão gêmeo do rei que era muito parecido com o rei que não queriam que aparecesse porque não sabia, não sabendo o gêmeo quem é que era o verdadeiro rei.

Então, para evitar uma guerra civil esse homem era obrigado a ficar de máscara e quando entrasse alguém no quarto para falar com ele, tinha que bater antes para dar tempo a ele para afivelar a máscara no rosto. E ele só podia falar através dessa máscara.

Mas com uma série de coisas dessas, cada uma mais maluca do que a outra. E como a corrente dos enciclopedistas, esses ateus que eu falei aos senhores, era republicana, murmurava muito contra a realeza, contra a nobreza, eles começaram a espalhar o boato de que a Bastilha era um antro da tirania, e que para quebrar o poder absoluto do rei, era preciso invadir a Bastilha e libertar todos os presos da Bastilha.

* No dia 13 de julho, começa uma efervescência

Então, já desde o dia 13 de julho, começa uma efervescência de desordeiros — pagos naturalmente — para pedir para a Bastilha se entregar porque do contrário eles atacariam, etc. E a Bastilha tinha canhões, que poderião dispersar esses desordeiros facilmente, eles sabiam, mas eles sabiam tão bém que o rei Luís XVI era benigno, quase até à burrice. Que eles não temiam os canhões, e, depois de entendimentos com o governador da Bastilha, um tal Monsieur de Launais, eles conseguiram afinal que baixasse a ponte elevadiça e que entrassem representantes do povo para falar com Monsieur de Launnais. Quando baixou, entrou o povo inteiro. Então espandongaram, quebraram, etc., etc. E tiraram os presos, colocaram os presos em espécie de pranchas de madeira grandes, para fazer passear por Paris os presos, para verem as pobres vítimas da Bastilha, pobres vítimas do terror real. Como era uma coisa horrorosa, etc., etc.

Um era um velho com uma barba branca enorme, então esse pobre velho contava que tinha entrado mocinho, que ele mesmo não sabia porque era, e que estava abandonado lá, etc., etc.

Hoje está provado que esse velho nunca tinha estado na Bastilha, que era alugado para isso. Era um velho barbado que tinham encontrado lá e que estava alugado para isso, comodamente deitado sobre um colchão, carregado pelos outros e que ganhava dinheiro para isso. É uma profissão agradável! Estar deitado num colchão e passear pela rua e depois chega à noitinha, deixam em casa e está com o bolso cheio para mandar vir um bom jantar!, vive-se bem assim.

Bom, e eles pegaram, mataram vários da guarnição da Bastilha e levaram preso monsieur de Launnais, para ir dar explicações às autoridades populares sobre como era a Bastilha. Mas no caminho, eles mataram monsieur de Launnais, de maus tratos, etc., etc. Sem razão nenhuma porque ele cedeu o tempo inteiro. Com isso a Bastilha ficou vazia.

E pouco depois, eles empreenderam a demolição da Bastilha, e das pedras da Bastilha faziam assim Bastilhinhas pequenas que reproduziam a velha fortaleza, e que eram vendidas por esses artesãos, etc., a preço muito bom. E todos os revolucionários queriam ter uma Bastilha na sua própria sala para enfeitar.

Bem, estes acontecimentos em Paris simbolizaram a queda do poder absoluto. Quebrada a Bastilha estava quebrada a monarquia. E o resto foi apenas uma história de derrotas, uma depois da outra até chegar à proclamação da República, a decapitação do rei e da rainha. Era a Revolução Francesa que estava consumada.

Há dois fatos que mostram bem o rei que era apresentado como uma fera, que espécie de rei era esse? Ele tinha um diário em que ele registrava os fatos passados no dia. No dia 14 de julho, o registro era: “Nada”. No dia 15 de manhã, essas notícias todas chegaram a Versailles — só no dia 15 —, e um dos camareiros do rei, o duque de La Rochefoucauld, quando chegou a hora do rei levantar de manhã, foi comunicar a ele o que se tinha passado. E ele comunicou e o rei disse:

“Mas é uma revolta?”

O La Rochefoucauld, que era quinta coluna e era do lado revolucionário, disse a ele: “Não majestade, não é uma revolta, é uma revolução.” De fato, não era uma revolução, era a Revolução Francesa.

Como a maçonaria preparou a Revolução Francesa – Dr. Plinio Corrêa de Oliveira

11-06-1989 Palavrinha.

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Como eu teria evitado a Revolução Francesa se eu fosse rei – Plinio Corrêa de Oliveira

11-06-1989, Palavrinha.

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Alguns efeitos da Revolução Francesa (Série Rev. Francesa) – Plinio Corrêa de Oliveira

14-07-1990 SD

Dr. Plinio foi um advogado, catedrático de história na PUC-SP e autor de inúmeros livros, traduzido para diversas línguas. Mais conhecido por ter presidido a TFP, associação de inspiração católica que inspirou outras similares em inúmeros países.

00:00 14 de Julho, a tomada da Bastilha como festa mundial
08:57 Como fazer uma análise completa de um acontecimento. Efeitos da Rev.Francesa na França
13:41 Efeitos da Rev.Francesa na Inglaterra
15:48 Efeitos dos efeitos da Rev.Francesa
17:00 A IV Revolução nascida em Sorbonne, neta da Rev.Francesa

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Meus caros, hoje é dia 14 de Julho de 1990, e a data tem significação no mundo inteiro: 14 de Julho. A tal ponto que há uns 30 anos atrás, mais ou menos, se eu não me engano. Há uns trinta anos atrás era feriado em vários países do mundo, e creio eu sem ter muita certeza, que no meu tempo de menino, era feriado em todos os países civilizados.

Apresenta isso uma circunstância, que nós não encontramos em outras datas. Quer dizer, os senhores tomem, por exemplo, uma festa qualquer, 7 de setembro de 1822, o Brasil se declarou independente. Mas, não é para ser festa em outros países do mundo. No Brasil sim porque é data da independência do Brasil. Em 15 de Novembro 1889, proclamou-se a república do Brasil. Para quem gostou da coisa é festa no Brasil. Mas não há razão para ser festa internacional, é um acontecimento interno no Brasil.

Agora, como explicar que um acontecimento histórico da França, uma história que tem tantos acontecimentos gloriosos e bonitos, e o 14 de Julho seja uma festa internacional?

Por exemplo, a data que eu não me lembro qual é, em que o Beato Urbano II, proclamou a cruzada, e da qual decorreu a série de cruzadas que acabaram, não só tomando o reino de Jerusalém, instituindo ali o reino católico de Jerusalém, mas desbravando todo o Oriente, contendo a investida dos maometanos pela Europa a dentro, etc, etc.

A queda de Granada, uma data magnífica, que significava o fim do poderio maometano na Espanha, depois de 800 anos de luta. Isso não é uma festa internacional! Por que que é que só a tomada da Bastilha tem que ser uma festa internacional?

Evidentemente, porque a idéia que estava atrás disso é que, esta festa marcava uma revolução com significado para o mundo inteiro. E que era o ponto de partida para revoluções análogas no mundo inteiro. Era o começo de uma revolução universal. E como revolução universal é natural que seja celebrada em todo o universo. Desde então a universalidade da festa da tomada da Bastilha (…)

Porque a Ira Santa é uma virtude. A cólera é uma das paixões do Homem que Deus pôs na alma do Homem, e que deve ser exercida contra o mal. E, portanto, encolarizar-se contra o mal é obrigação. Não é uma coisa que se permite não, é obrigação a gente se encolarizar-se contra o mal.

E, portanto, assim como a gente deve celebrar as festas belas, a gente deve se encolarizar e detestar as datas que lembram fatos coletivos, de pecados coletivos. Deve oferecer uma reparação a Deus, por meio de Nossa Senhora, por causa daquela festa e avivar no nosso espírito a indignação do que aquela festa significa.

Pela aclamação dos senhores, eu vejo que é uma coisa que os senhores sentem, talvez, sem se terem lembrado propriamente da ocasião, se correspondia ou não a um desses desejos inadvertidos mas profundos dentro da alma humana. De maneira que a gente acena com a idéia e isso como que se tem a impressão que liberta alguma coisa em nós, abafada; que liberta alguma coisa em nós.

Podemos festejar. Comemorar, não festejar. Comemorar: memorar, memória; comemorar é lembrar. Lembrar todos juntos; Comemorar. Isso é que é.

Vamos então, fazer uma comemoração do 14 de Julho instituindo, declarando instituída, que esta festa das contra comemorações, ou seja da comemoração do contra, fica resolvido (…) de me apresentar uma festa, uma data, uma lista de datas, para a gente escolher isto.

Às vezes, às vezes, pode fazer parte dessa comemoração, não um dia em que foi feito um grande mal, mas um dia em que um grito de Deus, atingiu, fulminou, com sua Cólera um grande mal. Por exemplo, o dia em que o heresiarca — o heresiarca quer dizer o chefe de uma heresia —, heresiarca Ario, tomou posse do Arcebispado de Alexandria, no Egito. Uma festa muito pomposa, a posse de um arcebispo, ainda mais numa cidade célebre naquele tempo, como era Alexandria. Ele vinha montado num cavalo, com pessoas que o cortejavam, etc, etc. De repente, ele sentiu-se mal, e… — ele era um herege horrível —, ele sentiu-se mal, e teve um incômodo tão terrível que se retirou para uma instalação qualquer, onde seu abdômen rachou. E ele morreu e não pode tomar conta da arquidiocese de Alexandria. É uma bela data para lembrar a justiça de Deus.

Eu acho que isto fica, então, a nossa comemoração do 14 de julho. Nós poderíamos dizer aqui, dar uma vista de conjunto daquilo que os senhores já conhecem, mas é uma comemoração. Na comemoração a gente se lembra em conjunto de coisas que todos sabem. Então, alguma coisa sobre, a Revolução Francesa e o papel que a queda da Bastilha representou dentro da Revolução Francesa.

* Por que a Revolução Francesa representou o golpe de morte no Ancien Regime?

Então a começar pela Revolução Francesa.

Por que é que, em traços muito rápidos para ter uma visão global do que foi a Revolução Francesa, nós podemos dizer que essa Revolução representou o golpe de morte dado numa sociedade, numa organização política, social e econômica, que tinha alguma coisa de muito ruim, e muita coisa de muito bom? O que não quer dizer nem nenhum pouco que por causa disso essa organização poderia validamente continuar a existir como era.

Em primeiro lugar, porque onde existe algo de ruim, não pára o ruim até que seja expulso. E, portanto, continuar impunemente com que era sem expulsar o mal, é trazer consigo o gérmen da morte. A morte acaba devorando o sujeito. E é mais ou menos como o homem que tem um câncer, mas que não cuida de extirpar o câncer, o câncer o devora, está acabado. Não tem conversa.

— “Não, mas ele está com uma cara saudável!”.

Pode estar como for, em determinado momento o câncer o põe na sepultura. De maneira que, ou ele põe fora o câncer ou o resto é a morte para ele. Assim também para uma organização política, social ou econômica, quando tem um erro grave que seja, um defeito grave que seja, está dado o sinal de morte para aquela organização mais cedo ou mais tarde. Pode durar mais, se for só um fator de morte, se forem vários a morte vem mais depressa, mas a morte vem.

* A luta dos fatores positivos e negativos do Ancien Regime gerou a revolução

E nessa organização do Ancien Régime — é o nome que se à organização política, social e econômica que tinha a França, e que tinham todos os Estados da Europa, com exceção da Rússia, e dos Balcãs, tinham todos esse tipo de organização — e nesse tipo de organização havia muita coisa de bom que foi deixado pela Idade Média, havia alguma coisa de ruim que era produto da Revolução. E essa coisa, esse fator, negativo destruiu os fatores positivos. A luta desses fatores, um contra o outro, foi o que gerou a revolução. Essa luta chegou ao auge, em que os fatores do mal foram tão enérgicos, tão violentos, tão categóricos, que venceram os fatores do bem. E então foi a degringolada.

Como isso é a Revolução Francesa considerada, então, muito sumariamente, pela simples enunciação de suas causas. Naturalmente, eu entrarei, daqui a pouco, em pormenores depois do que ela foi, mas não nos seus efeitos.

Para fazer um esquema completo de qualquer acontecimento histórico, a gente tem que enunciar o acontecimento qual é, depois estudar as causas, estudar o acontecimento em si mesmo, estudar os efeitos. Aí o acontecimento é estudado por inteiro.

* Quais são os efeitos da Revolução Francesa?

Aplicando esse método à análise da Revolução Francesa, nós devemos então, muito rapidamente, nos perguntar, quais são os efeitos da Revolução Francesa.

* Primeiro: a introdução do virus igualitário e laico

Os efeitos na Revolução na França, foram, em primeiro lugar, uma transformação profunda da França, pela qual o vírus igualitário e laico se introduziu dentro dela, e ela passou a sofrer um processo de degenerescência que não a largou até agora. Apesar de períodos de reação, de períodos de melhoras, etc, etc., esse vírus trancou-se nela e a vem matando, e nesse processo ainda está agora.

* Ela produziu efeitos no mundo inteiro

Mas a Revolução não produziu apenas efeitos na França. Ela produziu, como acabo de dizer, efeitos no mundo inteiro. Ela produziu efeitos na Europa, mas através da Europa, ela produziu efeitos em toda a América Latina. E com isso toda a América do Sul foi atingida pela Revolução Francesa.

* A revolução inglesa

Os senhores me dirão: “Mas a Revolução Inglesa? A situação norte-americana?”

A situação norte-americana é muito parecida com os frutos da Revolução Francesa. Mas ela não é só fruto da Revolução Francesa. Seria simplificar afirmar isso, porque, no século XVII, houve na Inglaterra uma Revolução do tipo da Revolução Francesa, que foi a Revolução de Cromwel, que proclamou a República na Inglaterra, decapitou o rei Carlos I e durante a vida de Cromwel a Inglaterra viveu nesse regime republicano.

Essa revolução tinha idéias muito semelhantes às da Revolução Francesa, eram nascidas da implantação do protestantismo na Inglaterra.

Na França o protestantismo foi esmagado. Na Inglaterra, pelo contrário, o protestantismo venceu. E de ai veio uma série de revoluções e de transformações que levaram os Estados Unidos, antiga colônia da Inglaterra, a tomar toda a mentalidade, toda a configuração psicológica, política, social e econômica da Inglaterra.

* Luis XVI envia tropas para ajudar a revolução norte-americana

Na hora dos Estados Unidos se proclamarem independentes da Inglaterra, o rei Luís XVI — cujo programa do governo era um completo elenco de tudo quanto não deveria fazer: esse era o programa de governo dele —, mandou tropas para ajudar a revolução norte-americana contra os ingleses, porque ele tinha recriminações mais ou menos justas — que me parece que em boa parte eram bem justas — da França contra a Inglaterra. Então para atacar a Inglaterra, ele mandou tropas para os Estados Unidos. Essas tropas, quando voltaram vitoriosas dos Estados Unidos, que ajudaram a derrubar o poder Inglaterra, as tropas chegando à França, vieram com as idéias dos Estados Unidos, que eram as idéias da revolução de Cromwel, e a revolução de Cromwel ajudou a derrubar, a facilitar a vitória da Revolução Francesa. Mas com isso todo o continente americano caiu debaixo do domínio da Revolução.

Revolução vinda da França, através de Espanha e Portugal, para a América Latina.

Revolução vinda pela Inglaterra e coadjuvada por tropas francesas, para os Estados Unidos e para o Canadá. Mas toda a América, todo o continente americano caiu no atoleiro da revolução também.

* A implantação da república no mundo inteiro

Então, revolução na Europa, revolução na América, mas revolução que depois se estendeu ao mundo inteiro. O mundo inteiro que depois se foi transformando em monarquias constitucionais, depois em repúblicas e o último fruto é que a tendência a proclamar a República no Mundo Inteiro. E nas poucas monarquias que restassem, o rei e o imperador, ficasse sob uma forma de figura de aparato. É como a rainha Elisabeth, veste-se muito bem, tem um bonito castelo, tem aqueles soldados com chapéu, muito bonito, fazem aquele “Troping the Collors”, enfim, cerimônias de corte muito bonitas, mas não manda nada. Basta dizer aos senhores que a rainha ou o rei não tem o direito de assistir à reunião de conselho de ministros, e os ministros resolvem tudo da cabeça deles.

Numa certa periodicidade, parece que uma vez por mês ou qualquer coisa, o 1º ministro tem uma audiência com o rei ou a rainha, e deve levar ao rei ou à rainha a notícia de tudo o que está acontecendo. O rei ou a rainha tem o direito de dar a sua opinião ao ministro, mas o 1ª ministro não precisa responder o que pensa, ele ouve com muito respeito, e faz o que quer. Quer dizer, o rei ou a rainha são meros conselheiros do ministro que deveria servi-los.

Os senhores estam vendo que são monarquias o tanto quanto possível parecidas com repúblicas. São monarquias republicanizadas. E o que não é monarquia republicanizada, no mundo inteiro é república. De maneira que uma inundação republicana cobriu o mundo.

Bem, este é o bloco que constituiu a Revolução Francesa, com suas causas, com seus fatos e com os seus efeitos.

* O comunismo é o neto maudito da Revolução Francesa

Agora, estes efeitos por sua vez tiveram efeitos que já não são os filhos da Revolução Francesa, mas são os netos malditos da Revolução Francesa. Qual é esse efeito? É o comunismo. Toda a Revolução comunista no mundo constitui a 3ª revolução, e essa revolução, como os senhores sabem pela R-CR, é a revolução face à qual nós estamos vivendo e em cujos estertores e em cuja transformações nós estamos todos empenhados a fundo de presenciar, etc., e estamos participando. Porque, o caso da Lituânia é um aspecto da Revolução comunista, é a implantação do regime comunista em três países que foram outrora independentes, no Mar Báltico, e que a Rússia incorporou ao seu território e impôs o regime comunista. E nós quando queremos que a Lituânia seja independente, é claro que queremos justiça para ela porque ela tem direito à sua independência, mas queremos, sobretudo, expulsar a terceira revolução de dentro da Lituânia. É evidente que o nosso principal interesse é isso.

* Combatemos o comunismo na Lituânia com intuito de abalar a expansão universal do comunismo

Se a Lituânia não fosse um país comunista, nós não estavamos interessando tanto por ela. Que se arrange!, cada um carrega o peso do próprio corpo. Mas nós queremos combater o comunismo na Lituânia, como um intuito de prejudicar assim o regime comunista dentro da Rússia, e por isso abalar a expansão universal do comunismo. Quer dizer nós estamos, portanto, lutando na 3ª Revolução.

* A revolução da Sorbonne é a quinta descendência dessa genealogia de serpentes.

Bem a Revolução Francesa, teve apenas netos?

Ela tem bisnetos no berço. E esses bisnetos são víboras. A 4ª Revolução, a revolução que nasceu com a Sorbonne, e que é uma revolução cultural que vai-se espalhando pelo mundo inteiro, e sobre a qual não há tempo de falar aqui, constitui a neta da Revolução Francesa. E se é a neta da Revolução Francesa, é a bisneta do protestantismo, é a quinta descendência dessa genealogia das serpentes, que começou com o Protestantismo, o Humanismo e a Renascença, e que depois veio degringolando ladeira abaixo até à atual crise histórica, e as transformações que se preparam dai para o futuro, e que contra as quais competirá aos senhores lutarem, se a história não for bruscamente interrompida pela tesoura, ou pela espada do Castigo Divino. Vem a Bagare e vem o Reino de Maria!

* “História do horror!”

Então, um verdadeiro historiador tomará esses livros e colocará numa estante pintada de preto, com todos os livros encadernados de preto, com o título “História do Horror: primeira Revolução, segunda, terceira, quarta Revolução”, e está acabado. E terá começado uma outra Era. Do reino do demônio, se passará para o Reino de Maria.

Não sei se esta vista de conjunto se limita a expor de novo coisas que os senhores já sabem perfeitamente, e se está suficientemente bem clara.

Salve Maria!

Destacado

Site continuação do canal “Reino da Virgem Maria” que de 2013-2017 postou mais de 200 diversos áudios de Plinio Corrêa de Oliveira falando sobre variados assuntos.

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Santa Bibiana, rogai por nós!


Ermitão Legionário (reserva) –https://www.youtube.com/channel/UC6J6j-WVyZ2Wg9WeBxuHKBg/videos?disable_polymer=1

Reino de Maria (desde 2014 no Gloria.TV): http://gloria.tv/user/K14bxVssNm7

As três profundidades da Revolução Francesa: nas tendências, nas ideias e nos fatos

Por Plinio Corrêa de Olivera

3-01-1976 SD

(Sr.: O senhor podia comentar o trecho da RCR sobre as três profundidades da Revolução: nas tendências, nas idéias e nos fatos? – Parte I, (Nota: Capítulo V, N°s. 1, 2 e 3) – Aí vem afirmado que as profundidades da Revolução não se identificam com etapas cronológicas. Essas profundidades são de algum modo escalonadas. Mas uma análise atenta evidencia que as operações que a Revolução nela realiza de tal modo se interpenetram no tempo que essas diversas profundidades não podem ser vistas como outras tantas unidades cronológicas distintas)

Os senhores querem que eu exemplifique com a Revolução Protestante, Revolução Francesa ou Revolução Comunista?

(Revolução Francesa.)

Acho que escolheram bem, porque o espírito revolucionário não é propriamente mais forte na Revolução Francesa, mas porque todo fato passado na França é mais claro do que em outros lugares. Onde entra o gênio luminoso do francês, o mal e o bem tomam uma clareza incomparável. E por causa disso o fenômeno Revolução, como aliás também o da Contra-Revolução, toma uma clareza extraordinária nos fatos da Revolução Francesa. Então, vejamos como nela se põe as três profundidades.

Quais foram as tendências que antecederam a Revolução Francesa?

Para não fazermos uma história muito remota, pois seria longo narrar – dado que as tendências da Revolução Francesa derivam da Protestante – vamos dar as tendências mais ou menos próximas que precederam a Revolução Francesa.

Os senhores têm visto objetos que datam do “Ancien Régime” (Antigo Regime) francês: fachadas de prédios, interiores de salas, carruagens, quadros, esculturas, gravuras representando personagens, etc. Todas essas coisas nos dão uma mesma impressão: de um lado, de grande gosto, de grande finura, de grande esplendor. Mas ao mesmo tempo, de outro lado, de um otimismo invariável.

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Os senhores tomem, por exemplo, o quadro de Luis XVI existente na Sede do Reino de Maria. Não sei quanto dos senhores prestaram atenção nele. Os senhores vêem que se trata de uma gravura feita quando a Revolução Francesa já tinha começado. Luis XVI é apresentado com uma capa magnífica, do tempo antigo ainda, medieval, com uma espada que pertenceu a Carlos Magno, que era um rei triunfador. Ele está de pé, com a perna direita para frente em atitude de dominação, de quem anda e com um ar solene.

O corpo é de herói, a cara de um bonachão, que não entende grande coisa do que vê, completamente despreocupada, completamente desanuviada.

A atitude é de um monarca que está reinando sobre um reino pacífico e que não tem nada no que pensar, otimista, mostrando sua grandeza e mais nada.

Os senhores tomem, por exemplo, aquelas carruagens todas douradas, com cristais, com plumas: é a idéia otimista da vida, toda orientada no sentido de que ela foi feita para o prazer. O defeito preponderante do Ancien Régime em matéria de tendências é isto. É uma tendência para a vida fácil, despreocupada, uma diversão contínua, para a qual o Ancien Régime tinha, aliás, uma montagem magnífica.

A tendência para o prazer no “Ancien Régime” gerava uma aversão ao sacrifício e oposição à lei e à autoridade, produzindo as idéias liberais da Revolução Francesa

Acontece que esta tendência contínua para o prazer tem que trazer necessariamente uma aversão ao sacrifício, porque quem está só querendo divertir-se não pode fazer uma coisa séria que custe esforço. É impossível. Porque não é divertido. Algo que exija previsão, trabalho, reação e luta, uma pessoa que quer viver em meio a diversões não pode absolutamente gostar de fazer isto.

Ora, uma pessoa que não gosta de fazer aquilo que é difícil não pode gostar de cumprir a lei, porque toda lei manda fazer o que é difícil. Não há lei que mande fazer coisas fáceis. A lei, de si, só manda o que é difícil.

Resultado: o sujeito que só vive em meio ao prazer fica com birra da lei que manda coisas difíceis, bem como da autoridade que cumpre a lei e impõe – por meio de castigos – que a pessoa faça coisas difíceis que não quer fazer. Essa tendência produz, portanto, uma oposição à lei.

Os senhores vão analisar as idéias da Revolução Francesa, elas são liberais. O que os agentes da Revolução Francesa queriam era reduzir o poder público e o número de leis o mais possível, permitindo todo mundo fazer absolutamente o que quisesse. Isso está na essência da Revolução Francesa. Suas reformas se inspiram nesta idéia: a lei é um mal necessário e, portanto, é preciso reduzi-la ao máximo. E de tal maneira que para muitas coisas que deveria haver lei, eles as eliminaram. O resultado é que prejudicaram enormemente todo o corpo social.

Um exemplo: antes da Revolução Francesa havia, proveniente da Idade Média, as corporações, que eram organizações que tinham uma legislação do trabalho muito bem feita, protegendo os trabalhadores em relação aos patrões e estes em relação aos trabalhadores. Era uma lei de harmonia social. Hoje os sociólogos em geral estão de acordo em reconhecer que essas corporações eram excelentes.

Vem a Revolução Francesa. Para estabelecer a liberdade, ela elimina as corporações e todas as leis de trabalho. Qual é o resultado? De um lado – nós vamos ver isso no século XIX, nascido da Revolução Francesa –, um número enorme de greves. De outro, um número enorme de look out, que é a greve do patrão, quando ele fecha a fábrica e manda os operários irem “plantar batatas”, porque não querem fazer o que deseja. Conseqüência: caem na fome. Então, o século XIX é, em grande parte, prejudicado por isso, até que se fez a legislação do trabalho.

Houve, portanto, um hiato enorme sem leis do trabalho. Qual é a razão disto? Como eram contra qualquer lei, eles tomaram um campo importante de atividade humana – o trabalho – e dele eliminaram as leis.

Não sei se os senhores estão notando que da tendência vem uma idéia, que é o princípio: leis, o menos possível. Daí vem um fato: abolição das leis do trabalho, como a abolição de um número enorme de outras leis na França. Leis, por exemplo, de alfândega interna de uma parte para outra da França, que para aquele tempo, com o modo de organizar aquela economia, eram necessárias e hoje não o são mais. Eles suprimiram, deu em ruínas econômicas! O que causou também a abolição da nobreza, porque os nobres tinham uma certa autoridade sobre os plebeus em suas terras. Elimina-se a nobreza e o rei fica reduzido quase a uma figura de proa, como é a Rainha da Inglaterra.

Então a tendência é fazer o que é gostoso. A idéia nascida da tendência é acabar com a autoridade. O fato: uma série de reformas que debilitam enormemente a autoridade na França.

Nobres que se entregavam à Revolução Francesa. As “hipnoses” das utopias revolucionárias

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22-03-1977 SD

O conceituado historiador francês Ghislain de Diesbach (* 6-8-1931), em um trecho de sua obra “Histoire de l’émigration” e que comentaremos a seguir, faz a seguinte pergunta: por que tantos nobres, durante a Revolução Francesa, se deixaram guilhotinar nas condições em que o foram? Ele não dá a explicação até o fundo, mas descreve o estado de espírito dessas vítimas da Revolução, essa conaturalidade do homem com a perda da vida e a perda de tudo para o que vivia. Essa espécie de extinção do próprio instinto de conservação ou instinto de conservação da situação, dos bens, do patrimônio, daquilo que constitui – num nível terreno – a alegria de viver.

Se é certo que se esse estranho fenômeno não tivesse dominado tantos franceses mortos como contra-revolucionários na guilhotina, a Revolução Francesa não poderia ter se desenvolvido como se desenvolveu, nunca poderia ter crescido como cresceu. Por que eles se deixaram matar? Qual foi o estado de espírito deles ao se deixarem matar? Esse notável historiador evoca, a esse propósito, um fenômeno mais interessante ainda que é a entrega misteriosa dos astecas aos espanhóis.

O trecho é tirado do livro “Histoire de l’émigration”, Grasset, 1975:

“À exceção dos chefes vandeanos e bretões, ou de alguns conspiradores do Midi (isto é, do sul da França), que preferiam lutar no interior do país em vez de se unirem ao Exército dos Príncipes, os nobres que ficaram na França aceitaram com uma surpreendente passividade a sorte que a República lhes reservou”.

Notem bem: “aceitaram com uma surpreendente passividade”. Agora ele vai descrever a passividade:

“Nenhum deles pensa em se defender ou ao menos em vender caro a sua vida. Todos esses gentis-homens, que alguns anos antes, metiam a mão na espada por uma bagatela e não hesitavam em atravessar com ela o corpo de seu melhor amigo…”

Quer dizer, nos duelos, que eram reprimidos com pena de morte. Eles duelavam e expunham sua própria vida por bagatelas, ou matavam o melhor amigo.

“…se este lhe tivesse ofendido, ou permitido de olhar para sua meretriz, estes mesmos gentis-homens, uma vez vinda a Revolução, se transformam em carneiros que se conduz ao abatedouro”.

O problema está perfeitamente bem posto! Tome-se um nobre da fase anterior da Revolução: é um espadachim do tipo do Cyrano de Bergerac ou dos Três Mosqueteiros. Ou seja é gente que luta, que briga, brilhantes duelistas. Todos esses nobres estudavam duelo como estudavam dança, o ABC e as operações fundamentais da matemática… Esses dueladores corajosos, quando chega a Revolução, se deixam conduzir ao matadouro como cordeiros…!

“Para um Marquês d´Epoisses, que se tranca em seu castelo e sustenta um cerco em regra…”

Contra os republicanos, que foram cercá-lo.

“…por um pobre nobrezinho provincial que acolhe a golpes de forcado seus visitantes jacobinos, há cem, há mil aristocratas que aguardam sua morte com um sorriso nos lábios”.

É bem exatamente isso! Eu tenho lido, vários dos senhores tem lido memórias do período da Revolução Francesa e os senhores sabem que isso é assim. Na prisão, onde eles aguardavam o julgamento, vinha todas as manhãs, em hora determinada, um carreto com soldados, com um pelotão, que parava e dele se destacava um oficial de justiça. Diante de todos os presos reunidos, proclamava o nome dos nobres que estavam condenados à morte, e eles se levantavam, despediam-se de alguém muito próximo e iam para ser julgados. Julgados, eram quase sempre condenados e não voltavam para aquela prisão; iam para outra, de onde seguiam depois para a morte.

Depois que saía o homem com a carreta, havia um alívio geral dos nobres que não tinham sido chamados aquele dia. E começava a vida social… Como ali dentro havia liberdade de circular de um quarto para outro, começavam a se visitar, a fazer rodas, com cortesia, com amabilidade, até chegar a noite. À noite começava uma certa depressão e, de manhã, o susto. Passado o susto, o dia seguinte era um dia de alegria novamente. Quer dizer, era com um sorriso nos lábios que esperavam a morte. Eles, que eram os tais batalhadores…

“Eles se deixam prender sem fazer um gesto”.

Esta observação é muito importante. Que eles, na cadeia, não resistissem, estavam sem armas, compreende-se. Mas eram presos sem fazer um gesto.

“Cidadão, estais preso”.

Vão, sem um gesto. Na minha opinião, esse é o fato mais digno de ser mencionado.

“…desprezam de se justificar das acusações absurdas que se levantam contra eles…”

Luís XVI e Maria Antonieta, por exemplo, se justificaram taco-a-taco, pediram advogados, etc. Eles, não. Sofrendo as acusações mais infamantes, não fazem pelo menos um protesto. Desdenham se justificar. É uma passividade em toda a linha! Qualquer um de nós, objeto de uma acusação muito injusta, muito violenta, tem uma reação natural. Ainda mais o francês, que os senhores sabem como é respondão. Nada! Um modelo de passividade.

“…e sobem ao cadafalso com passo firme, sem um momento de revolta, sem mesmo uma exclamação de lamento.”

A sociedade mais polida, a mais divertida, a mais brilhante que houve na História, que manifestava um apego enorme precisamente ao brilhante, ao polido, ao divertido da vida que levava, na hora de lhes tirarem tudo, eles, que batalhariam por um castelo no interior, ou por uns metros a mais ou a menos de um terreno que tivessem em Paris e que alguém lhes quisesse tirar, eles se deixavam levar para a guilhotina sem mais nem menos…

Singular estado de espírito! Estado de espírito anti-humano, contrário à disposição natural do homem, e que precisamos analisar.

“A se ver estas pessoas tão facilmente resignadas, parece que elas estejam fascinados pelas seus carrascos…”

Agora o autor vai sustentar algo que é muito interessante: é a aparência de um poder hipnótico, do que ele chama aqui de “carrascos”, no sentido genérico da palavra. Não é o somente quem corta a cabeça, mas são os que condenam à morte, que mantém o regime, os que sustentam o terror. Assim os senhores devem entender aqui a palavra “carrasco”.

“…como os astecas o foram por seus conquistadores espanhóis, e que reconhecem implicitamente aos revolucionários uma legitimidade da qual eles mesmos estariam desprovidos”.

A observação é muito procedente. Um homem que estivesse penetrado da legitimidade dos princípios em nome dos quais ele é declarado como condenado, esse homem agiria como esses nobres procederam. Imaginem um criminoso que tivesse sido condenado por uma ação péssima, e que morre achando que é justo que morra. Morreria como tais nobres… Deixar-se-ia prender sem resistência, levar tranqüilamente ao cadafalso e aí morreria. Eles morrem, portanto, como se a autoridade que os condena fosse legítima e como se o crime em nome do qual são condenados lhes fosse imputável.

“Eles parecem crer que sua existência tornou-se ilegal, mais ainda que anacrônica e que a guilhotina seja a única maneira de pôr fim a esta infração”.

Realmente o modo deles morrerem é esse: “Somos anacrônicos em vista do grande princípio da igualdade geral de todos os homens; nós, nobres, somos uns violadores, somos uns contraventores, uns infratores desse princípio. Então é natural que morramos. Não há outra coisa para se alegar, então vamos morrer…” É isso que parece estar no subconsciente deles.

“Esses homens cultos, cépticos, esclarecidos por todas as luzes dos séculos, crêem ainda nas palavras”.

O que vem abaixo é uma observação muito fina e muito interessante!

“Os discursos dos jacobinos, suas proclamações e suas proibições lhes impressionam muito mais, dir-se-ia, que suas lanças e seus sabres”.

Não é tanto porque o jacobino está armado que eles se entregam, mas dir-se-ia que é porque a discurseira jacobina os impressiona. Ou seja, os princípios jacobinos da igualdade, da liberdade, da fraternidade, como os jacobinos explanavam, exercem uma força hipnótica que neles imobiliza até o mais fundamental dos instintos humanos que é o de conservação.

“Eles se dobram diante da palavra do inimigo, fascinados que estão pelo tom de autoridade do adversário”.

Lembrem-se um pouco da Marseillese…

“Os que se revoltam são almas simples, camponeses bretões, vandeanos ou normandos, artesãos lioneses reduzidos ao desemprego, padres da roça, pequenos comerciantes arruinados pelas leis econômicas”.

Ou seja, os que estão de fora da cultura do tempo, estes não estão fascinados. Se quisermos fazer um péssimo jogo de palavras, eles estão vacinados. Mas, pelo contrário, os que tem uma cultura camponesa, simples, tem bom senso natural, esses resistem!

“Esta fração da sociedade francesa, a mais brilhante e a menos sólida, não tem mais fé nela mesma. Os jacobinos excitam sua náusea, mas também seu respeito”.

E aqui a frase toma um brilho francês…

“Ela se inclina sem reclamar diante de suas ordens e decisões, ela que, ontem ainda, reagia tão violentamente diante das ordens do rei”.

Tinha havido, antes da Revolução, uma encrenca de primeira ordem da nobreza com o rei. Contra o rei eles tinham “topete”. Aparecem os jacobinos, que esses nobres desprezavam, eles se impressionam. O rei, que eles veneravam, eles transgridem…

Essa matéria está muito bem redigida e as contradições estão postas muito bem, desde que seja lido devagar. Mas a meu ver é um texto primoroso!

“Ela não luta mais com armas iguais, porque não fala a mesma língua que os seus adversários”.

Como essa nobreza não sabe responder como os adversários respondem, há uma linguagem nova, uma dialética nova, um mundo novo diante do qual estão envelhecidos: eles se entregam. É um artigo muito denso em que cada frase tem que ser comentada, em que cada palavra tem um sentido, uma razão de ser.

“O que mais chama a atenção será ver esta atitude de uma parte da nobreza e do alto clero francês, adotada pela maior parte das nações européias. Nos países vizinhos da França se julgará os revolucionários não segundo seus atos, mas de acordo com suas palavras”.

Realmente, no grosso da nobreza e do clero revolucionário nota-se isso: uma submissão e uma entrega que é incrível. Os senhores podem perguntar: “E aquelas guerras de coalizão?” Eu respondo: eles foram muito moles e muito sem alma. E a atitude dos países que receberam os imigrantes, com exceção da Inglaterra, foi uma atitude indecente. Porque não pagou algumas dívidas de hospedagem, o irmão de Luís XVI, futuro Carlos X, foi colocado na cadeia sem que o Príncipe do lugar mandasse oferecer dinheiro para tirá-lo… Por aí se compreende o que era a atitude dessa gente.

“O que importa que os revolucionários pilhem, que incendeiem, que queimem ou matem, uma vez que prometem a paz, a liberdade e a felicidade…”

Aqui não posso deixar de chamar a atenção dos senhores para a analogia com a situação comunista. O mundo inteiro sabe que o comunismo reduz os povos à miséria. Está provado. Mas “os comunistas que vão remediar a situação dos pobres!…” E apesar de todo mundo saber que não remedeiam, essa mentira deles produz um certo efeito hipnótico por onde as pessoas que combatem o comunismo tem, às vezes, uma sensação de que estão combatendo os pobres. E as pessoas que favorecem o comunismo tem o desembaraço e a segurança de quem, de fato, está tomando o partido dos pobres. A realidade é clara.

O palavrório comunista de proteção aos pobres convence os ricos de que o comunismo protege os pobres, embora os ricos saibam que não protege… É a mesma situação que se repete da 2ª para a 3ª Revolução. E sem a qual não poderemos compreender a 3ª Revolução, em cujo apogeu – sob certo ponto de vista – estamos entrando.

“Um pouco por toda a parte as elites se mostrarão sensíveis a esta eloquência democrática e se deixarão embair. Ministros de Viena ou de Berlim, patrícios de Genebra ou burgueses de Amsterdã, vão se esforçar por respeitar a qualquer preço um bom direito que os jacobinos invocam sempre sem jamais o observar eles mesmos”.

O “bom direito” que os jacobinos alegam, mas transgridem, quando há ataques de jacobinos nesses lugares, os atacados vão respeitar, porque os jacobinos estão proclamando.

“Se as tropas maltrapilhas da república francesa vêem tantos países as acolherem como libertadores é que a propaganda revolucionária conquistou os espíritos e subjugou os corações, desarmando assim os braços”.

A frase está muito feliz! A vitória militar não é uma verdadeira vitória. Esta consiste na vitória da guerra revolucionária psicológica, na conquista das inteligências e das vontades que desarmam os braços. É uma frase muito importante.

“A jovem República obteve, quase sem combater, uma vitória intelectual ao substituir pela sua própria moral a que antes regia a Europa monárquica. Ela (a jovem República) criou uma nova legalidade e declarou fora da lei todos os que não queiram se submeter, dos soberanos estrangeiros aos mais miseráveis dos emigrados refugiados nos territórios destes”.

Todos são declarados fora da lei e se impressionam. O problema está aí. Se impressionam e se deixam arrastar.

Vamos analisar um pouco este estado de espírito como ele se põe. Não é que se possa dizer que esses nobres ou esses burgueses, ou esses clérigos, estivessem integralmente convencidos sem nenhuma dúvida de que a Revolução Francesa tinha razão. Eles são homens que morrem convencidos de que não tem razão, mas com um certo fundo de dúvida: “Será que, verdadeiramente, todos os homens não são iguais?”. É um fundo de dúvida acompanhado de uma certa apetência dessa igualdade, um certo gostinho por essa igualdade. Não é uma certeza, mas uma dúvida que fica pairando no fundo.

Essa dúvida exerce no espírito deles uma influência como exerceria a mais possante das certezas. Por exemplo os mártires no Coliseu procediam movidos pela fé, como esses nobres ou burgueses ou clérigos procedem movidos por essa dúvida. E aqui está o mais flagrante da contradição. Um homem que expõe a sua vida por sua convicção é nobre, desde que a convicção seja nobre. Mas um homem que vai morrer como um mártir antigo, por uma coisa sobre a qual ele tem uma genérica dúvida, há aqui um singular jogo de espírito…

Analisando esses nobres: muito deles participaram da Assembléia Constituinte Francesa, votaram a favor da monarquia e da nobreza. Quase todos eles, à medida que a sociedade foi se tornando revolucionária, foram sendo expulsos dos cargos que tinham porque não estavam de acordo com a Revolução. As memórias escritas naquele tempo não deixam a menor dúvida a esse respeito: nas conversas particulares, nas suas atitudes normais, eles se manifestam contrários à Revolução.

No espírito deles há um choque de duas posições intelectuais: uma tradicional, que é a favor da monarquia, da aristocracia, da Igreja, da hierarquia; e outra, que é uma convicção nova, é uma pitada, um fundinho de dúvida no espírito deles: “Será que, de fato, os homens não devem ser todos iguais?” É um fundinho de dúvida. Na hora de morrer, eles se sacrificam por esse fundinho de dúvida como se fosse uma grande certeza…

Esse fundinho de certeza revolucionária tem um poder de hipnotizar e de paralisar que a convicção estável, normal, que marca a vida inteira do indivíduo, não tem.

O que é esse fundinho e como se explica isso? Está escrito na R-CR que o indivíduo que está com a alma assim é semi contra-revolucionário, e semi contra-revolucionário é um revolucionário. Mas mesmo assim a abnegação dele não se explica só por isso. A convicção não é suficiente para determinar assim a atitude deles.

Esse fundinho igualitário corresponde a uma espécie de sonho dourado, ou de mito ou utopia no qual eles se comprazem em imaginar uma coisa que não existe, mas que é delicioso imaginar, que é um mundo onde a própria imagem do sofrimento tenha desaparecido, a própria imagem da dor tenha desaparecido. Eles querem eliminar as desigualdades como querem eliminar as doenças, como eliminariam as elites se pudessem, porque querem um mundo sem dor.

Eles querem eliminar a sua própria superioridade para ver se chegam a realizar a utopia de um mundo sem sofrimento, de um céu na terra. E eles vão atrás desse mito do céu na terra como um católico vai atrás da certeza do Céu no Céu. É uma coisa desse gênero…

Assim quando alguém que os ataca é portador dessa utopia, desse mito – e aí os senhores vêem o papel do mito na alma –, eles simpatizam e amam o punhal que os mata, porque esse punhal é em nome de um mito que substitui neles a religião. É uma verdadeira religião atéia, uma religião não religiosa da qual eles são os “mártires” sem a dignidade e a nobreza do martírio verdadeiro, que é o dos mártires católicos.

Qual é o fator que há dentro disso? É uma utopia, um mito que substitui a religião e que leva o indivíduo a posições para-religiosas em favor de algo que não é religioso.

Então, os senhores compreenderão outra coisa: os budistas não tem propriamente uma religião mas uma filosofia, que é a filosofia do vácuo e do nirvana. Como é que um bonzo budista toca fogo nas roupas? Um mito e ele, através desse mito, se imola dessa maneira.

A palavra “mito” não está sendo empregada aqui no sentido da mitologia grega e romana: Zeus, Aquiles etc.; é um estado de coisas, uma metafísica, uma utopia, uma situação pessoal imaginária em favor da qual o indivíduo sacrifica tudo. Esse é o mito. Isso é que eles tem em vista.

A tal propósito, há um outro elemento curioso: quando essa utopia, esse mito entra na cabeça do indivíduo, tira-lhe o senso do próprio ser. Ele perde a noção de quem ele é. Esse mito o intoxica e o faz quase evaporar. Daí a morte do instinto de conservação. Ele perde o instinto de conservação porque o mito o picou…

É algo semelhante à ação do tóxico sobre o toxicômano. O indivíduo intoxicado quer cada vez mais a droga, embora saiba que vai morrer por causa disso. Ele perde o instinto de conservação para viver na utopia daquelas drogas. Há mitos que são à maneira de drogas e drogas preternaturais, em relação às quais a pessoa se sacrifica inteiramente.

Então, devemos pedir a Nossa Senhora que conceda a todos uma mentalidade tão sadia, tão religiosa no melhor sentido da palavra, tão enérgica, tão sobrenatural, que pela simples presença abale esse mito e o quebre. E sobretudo evitando, mais do que o mito, a falta de coragem de pensar e atuar inteiramente discrepando dos “mitômanos”. Essa é a questão.

Festa da razão, manifestação de ódio revolucionário na Revolução Francesa

Por Plinio Corrêa de Oliveira

5-09-1969 SD

Hoje não há Santo em nosso calendário. Vamos estudar, portanto, uma das fichas de ódio revolucionário. É uma ficha tirada do livro “História Universal”, de João Batista Weiss ( WEISS, J. B., Historia Universal, Barcelona, Tip. de la Educación, 1929)

“Para aumentar na população a sede de sangue” – é durante a Revolução Francesa isso – “e o ódio contra o Cristianismo, anunciou-se para o dia 10 de novembro de 1793, em que Chaumette ( Pierre Gaspard Chaumette ) começou a profanação dos templos em Paris, uma festa em honra de Charrier, o deus salvador, como uma festa da Razão.

Charrier fazia o papel de salvador, portanto, do gênero humano. Eu mesmo não sei quem é esse Charrier.

(Era um revolucionário que cometeu grandes atrocidades em Lyon. Era quase comunista. Até não se tornou comunista claramente, porque morreu, foi assassinado. Foi organizada uma festa em homenagem a ele depois da sua morte. Ele foi considerado como uma espécie de redentor, de messias).

Os senhores estão vendo, portanto: é um verdugo, um homem que cometeu atrocidades etc., e foi considerado um deus. E a festa dele, – isso é bem a coisa do demônio, – foi um dia de festa da Razão. Mas isso é bem assim: [o] demônio [promete]: “vou dar a você a independência de sua razão”. Tenha a certeza que ele vai tirar.

Então, a festa da Razão é pegar um criminoso e aclamar como Deus! Isso é a Razão! As coisas se passam assim.

“E na madrugada troaram os canhões em honra do novo deus. Às oito horas começaram os roubos de todos os vasos sagrados de ouro e prata, a destruição de todas as imagens e estátuas das igrejas, a aniquilação de todas as coisas que podiam suscitar um sentimento de devoção. As hóstias consagradas foram jogadas ao chão e calcadas aos pés.

Logo começou a grande procissão em honra de Charrier. Ia adiante a música militar, depois, quatro jacobinos”

Jacobinos os senhores sabem que é uma espécie de comunista do tempo.

“… levavam num formoso palanque um busto de Charrier e, de outro lado, uma urna onde iam suas cinzas”.

Ele, portanto, tinha morrido.

“E, de outro lado, uma pomba com que se dizia ele tinha brincado no cárcere e tinha tido com ela suas últimas alegrias. Uma banda de clubistas,

É do clube dos jacobinos

“… e de mulheres – de lo último, não quero qualificar, – iam gritando continuamente: Abaixo os aristocratas! Viva a república! Viva a guilhotina!”

Os senhores estão vendo como os revolucionários entendem bem o nexo entre as coisas. Fazem uma festa em que, ao mesmo tempo em que profanam as hóstias e quebram as imagens, gritam “abaixo a aristocracia” e “viva a guilhotina”. Isso para adorar o novo deus.

Agora, certos católicos a quem falamos de aristocracia respondem: “Ah, não sei o que tem isso a ver com a religião”. Os revolucionários sabem. O demônio sabe. O bandido sabe. Os católicos, muitas vezes, não sabem. Essa é a miséria das coisas.

“Depois vinham os profanadores das igrejas, que com a insígnia das bacantes e a barbárie dos demônios iam bebendo, se embriagando, usando os vasos sagrados, os cálices sagrados. Além disso, traziam um asno com uma mitra de bispo na cabeça, uma capa pluvial nas costas, um crucifixo e um Antigo e Novo Testamento pendurados no pescoço. O asno levava também uma estola. Atrás do asno vinham três comissários da Convenção, quer dizer, três representantes da Comissão: Fouché, Collot d’Herbois e Laporte, com ares devotos” – para estimular a risada – “debaixo de um pálio, como se usa na procissão do Santíssimo Sacramento. Uma escolta militar encerrava a procissão, [que] se moveu por muitas ruas até a praça [do] Terror.

Ali se tinha erigido, sobre uma elevação, um novo altar, sobre o qual se colocou com veneração, para ser adorado, o busto do novo deus Charrier. Formou-se um círculo em torno do altar, do qual saíam, um depois do outro, cada um dos comissários da Comissão. [Um por um] dobrou os joelhos e disse uma oração no sentido da nova religião do assassinado.

E a oração é essa: – essa é a oração de Collot d’Herbois, que é um dos principais bandidos de Revolução Francesa

“deus e salvador, olha a nação prostrada a teus pés, pedindo-te perdão pelo ímpio crime que pôs fim à vida do mais virtuoso dos homens. Tu hás de ser vingado! Nós te juramos pela república!” Fouché suspirou primeiro e depois pronunciou essas palavras:

Fouché era padre apóstata.

“Mártir da liberdade! Os canalhas te sacrificaram, o sangue dos criminosos é a única água lustral que pode expiar a tua alma, com razão irritada. Charrier, Charrier, nós juramos, diante de tua santa imagem, tomar vingança de tua execução. Sim, o sangue dos aristocratas te perfumará como um incenso”. E o inábil Laporte beijou, cheio de veneração, a fronte da imagem e só disse: “morte aos aristocratas!” Logo se pôs fogo a um turíbulo e se incensou a imagem daquele monstro. Todos jogaram ao fogo então crucifixos, Antigo e Novo Testamento e se deu a beber ao burro com um cálice. Jogaram no chão hóstias sagradas e as calcaram aos pés. Eu consegui tirar do meio dos objetos profanados um objeto sagrado que eu guardei para evitar que a multidão o profanasse”.

Acho que para os senhores não é muita surpresa, talvez, que a Revolução Francesa tenha cometido esses horrores. Os senhores precisam pensar é no que se passa em nossos dias. Quer dizer, esse espírito não mudou. A Revolução Francesa não pode ser vista como uma explosão de loucura que acabou, e depois dela passaram cento e cinqüenta anos de paz. Mas, pelo contrário, o espírito da Revolução Francesa foi se tornando cada vez mais radical, cada vez mais intenso. As suas crueldades foram [se] repetindo nas revoluções engendradas pela Revolução Francesa. Para não exemplificar outra, pela Revolução Comunista russa de 1917, e tantas outras revoluções comunistas que tem havido.

Ancién Regime, seu lado bom e seu lado ruim (Série Rev. Francesa) – Plinio Corrêa de Oliveira

14-7-1990 SD

00:00 Lado bom e lado ruim do Ancién Regime: os direitos naturais e sobrenaturais
06:17 Estado Católico
08:03 Relaxamento dos Reis Franceses em relação ao protestantismo
11:25 Edito de Nantes de Luis XIV, expulsão dos protestantes da França
16:10 Coroação dos Reis franceses, óleo milagroso que os ungia e que ungiu Clóvis em Reims
20:01 Privilégios do clero
22:14 Como eram feitas as leis, as leis fundamentais, reunião dos estados gerais
26:38 Como eram os impostos para cada classe social
31:43 Decadência que trouxe a Revolução

Áudio editado SEM GRITINHO JOANISTA, COMO TUDO NO CANAL.

Veja mais aulas do Prof. Plinio sobre esse tema: https://cruciferos.wordpress.com/tag/revolucao-francesa/

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Para palavras desconhecidas, ver glossário https://cruciferos.wordpress.com/glossario/

ACESSE O SITE COM A TRANSCRIÇÃO: https://cruciferos.wordpress.com/2019/07/21/ancien-regime-seu-lado-bom-e-seu-lado-ruim-serie-rev-francesa-plinio-correa-de-oliveira

Significado das Siglas https://cruciferos.wordpress.com/significado-das-siglas-das-fontes/

Santa Bibiana, rogai por nós!

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Agora o que é que havia de muito bom no Ancien Régime, portanto, no regime em que tinham governado a França, Luís XIII, Luís XIV, Luís XV, Luís XVI, como monarcas mais próximos da Revolução, no regime em que Maria Antonieta era a rainha da França, esposa de Luís XVI? E o que havia nesse regime que era muito bom? E o que é que havia nesse regime que era ruim? E que era muito ruim?

Bom, o regime tinha de muito bom o seguinte: era um regime anti-igualitário. Quer dizer, toda a sociedade era marcada pela desigualdade; uma desigualdade proporcional, não era uma desigualdade inumana. Era uma desigualdade que tinha como fundo a idéia da igualdade de todos e que a partir desse fundo construir a idéia da desigualdade.

Qual era a igualdade de todos? Era uma igualdade natural e uma igualdade sobrenatural.

Qual é a igualdade natural? A igualdade natural é que todos somos homens, e que temos determinados direitos que vêm para cada um do fato de ser homem. E que nesses direitos, como todos somos homens, a esses direitos todos os homens fazem jus. De maneira que debaixo desse ponto de vista, nesse sentido são iguais.

Por exemplo: direito à vida, o direito a constituir uma família, bem organizada, bem estruturada; o direito de ser o proprietário dos bens que lhe vem do seu trabalho; o direito de dar uma orientação própria à sua vida escolhendo entre as várias profissões honestas àquela para a qual tem mais pendor, e de trabalhar honestamente como entende, e não por regulamento estatal, como ele entende trabalhar ali. Se ele terá riscos, se ele fizer bobagens…, ele terá acertos, vantagens e lucros se ele andar bem na profissão, se ele souber trabalhar bem. Isto depende da liberdade dele. Ele é livre de dar à sua vida profissional a orientação que ele quiser. E assim por diante há uma porção de outros direitos, que são próprios a todos os homens. E nesses direitos, debaixo de este ponto de vista, os homens são iguais.

Bem, há também direitos que decorrem para o homem não do fato de ele ser homem, mas de ser batizado. Quer dizer, como ele é batizado, ele é membro da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, nele habita a graça de Deus, e desde que ele esteja no estado de graça, ele é um Templo do Espírito Santo.

O primeiro direito que o homem tem, nessas condições, é o direito de ser bem informado acerca da Igreja Católica Apostólica Romana. Depois vem o direito de cumprir todos os atos do culto católico, e o direito de praticar os mandamentos de Deus e os mandamentos da Igreja Católica. Esses são direitos do homem do fato de ele ser católico.

Bem, dentro disso, lhe cabe os direitos próprios para ele poder servir e defender a Igreja, adequadamente, que lhe vem da sua condição católica. Se ele ama a Deus sobre todas as coisas, e ele tem o direito de amar a Deus sobre todas as coisas, ele tem o direito de defender a Igreja de Deus, ele tem o direito de lutar por Ela, ele tem o direito de difundir a Igreja por toda a parte. E se alguém quiser tolher esse direito comete um crime contra o direito Sagrado que toca a ele, enquanto batizado.

Um exemplo: há uma situação como a da Lituânia em que os soviéticos querem manter o seu poder lá, etc, etc. Seria uma coisa inteiramente justa que a Polônia e a Finlândia, sobretudo a Polônia que é uma nação muito católica — a Finlândia também, Polônia é muito maior — e a Finlândia se coligassem para fazer uma cruzada contra os russos e estabelecendo-se, indo para a Lituânia, Letônia e Estônia e ali expulsando os russos de lá de dentro. É um direito, ninguém pode-se opor, porque esses países praticam um ato de amor de Deus se eles fazem isto. Ninguém pode impedir de praticar o amor de Deus.

Mas, há mais. Imaginem os senhores que haja um país, um daqueles Azerbeijãos que há lá pela Rússia a dentro — se alguém aqui for azerbeijano não me tome a mal a expressão muito sumária de me referir ao Azerbeijão — mas se os senhores imaginem se um desses azerbeijãos, por exemplo, seja e são, alguns são muçulmanos, e declaram: “aqui não pode pisar padre católico!” Pode-se fazer uma cruzada a partir de um país católico, — país católico nos Balcãs, não há,… bom, talvez uma parte da Armênia é católica e é por aqueles lados —, pode fazer uma cruzada para entrar no país do Azerbeijão, muçulmano e dizer:

“Vocês não podem proibir um missionário católico de entrar aqui!”.

– “Mas como não podemos? Nós somos independentes”.

– “São, mas contra Cristo não. Ora, Nosso Senhor disse aos Apóstolos: ‘Ide e ensinai a todos os povos pregando o Evangelho em Nome do Padre, do Filho, e do Espírito Santo.’

“E, portanto, é uma obrigação minha, porque meu Senhor e seu — ainda que você não reconheça, é! — me deu o direito e o dever, me mandou ir a todos os lugares onde não há católicos, onde há poucos católicos, mandou-me ir lá para pregar o Evangelho, você está proibindo, eu então digo:

“Entro à força, está acabado!”.

É direito dos católicos. Os senhores estão vendo que essa enumeração de direitos, e tudo quanto eu estou dizendo a respeito dos direitos como eles eram concebidos no Ancien Régime, tudo isto tem como pressuposto que o Estado é católico.

Por que católico? Porque essas leis que permitem, que estabelecem tudo isto que eu acabo de dizer, são leis que decorrem do fato de que o Estado oficialmente declara como única religião verdadeira, a Religião Católica Apostólica Romana. O Estado diz:

“A religião Católica que eu tenho é a verdadeira! A religião muçulmana que vocês tem é falsa! E por causa disto eu tenho o direito de dar livre trânsito aos missionários católicos no seu país. E se você vier me dizer que você então também tem o direito de mandar os maometanos, eu digo que não tem porque você está no erro.”

Os maometanos poderiam dizer:

“Bom, mas quem prova que eu estou no erro? Quem prova que você está certo?”

– “Estude, venha cá e mando gente para estudar, e mando gente para ensinar lá, e vou provar. E a Igreja Católica prova tão perfeitamente que Ela é a verdadeira, Ela prova tão claramente que as outras religiões são erradas, que não é lícito a você, depois de ter bem estudado, etc., negar isto. Se negar, você peca. O direito é da verdade e não do erro. O erro não tem direito, a verdade é que tem direito. E a verdade é, seguramente, por provas indiscutíveis, a verdade é a da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Portanto, não tem conversa”.

Qual era a situação dos católicos quase até à Revolução Francesa, pouco antes do reinado de Luís XVI ainda, portanto, dos não católicos na França, qual era a posição?

Em séculos anteriores, no começo do protestantismo, século XVI, um tanto no século XVII, os protestantes vindo da Alemanha, se estabeleceram na França, e os reis franceses daquele tempo relaxaram e não proibiram a entrada dos protestantes na França. Andaram mal, mas de fato não proibiram. E se estabeleceu o protestantismo vigoroso em várias partes da França. Isto chegou a ponto de que um candidato ao trono da França, o rei da Navarra, que era ao mesmo tempo rei de um pequeno reino no sul da França chamado Navarra, e era príncipe da Casa Real Francesa, herdou o trono. Então, ele era protestante e quis subir ao trono tomando conta do reino da França e transformando a França num reino protestante. Daí decorreu que se constituiu a organização chamada “A Liga Católica”. Essa Liga Católica era constituída de católicos de toda a França unidos numa cruzada para expulsar os protestantes.

E esse candidato ao trono, o rei da Navarra, lutou, houve guerra religiosa na França, prolongada. O rei da Navarra acabou derrotado. Ele compreendeu que ele não podia tomar conta da França, sem fingir que se convertia a católico. E o baluarte da defesa da França contra a Revolução Protestante, foi à cidade de Paris e foi sobretudo a plebe da cidade de Paris, o povinho da cidade de Paris que foi o baluarte da defesa da religião Católica na França. Houve episódios famosos como é a noite de São Bartolomeu.

Bem, e afinal o rei quis subir ao trono com título de Henrique IV, o rei assistiu a uma missa. Conta-se que ele disse: “Paris vale bem uma missa”. E a municipalidade de Paris declarou que só abriria as portas para o rei, caso assistisse à missa dando prova que era católico. Ele assistiu à missa, abriu-se as portas da cidade, e ele tomou conta da cidade.

Mas é certo que ele depois favoreceu os protestantes de todos os modos, e tinha intenção de propagar o protestantismo, dando um golpe na Austria que era uma potência germânica e era católica, para que assim a Prússia protestante tomasse conta da Alemanha. E então: França, Alemanha e Inglaterra, eram os três estados mais poderosos da Europa, ficavam protestantes.

Um homem que é julgado pelos revolucionários com extrema severidade: Ravaiac, encurtou esse desígnio e matou Henrique IV. Ele foi barbaramente morto, mas subiu o filho de Henrique IV ao trono, que era Luís XIII.

Luís XIII achava os protestantes muito poderosos e julgou que era preciso debilitá-los antes de dar o golpe e acabar com eles.

Luís XIV foi um monarca de muito mais pulso do que Luís XIII, e quando era dia primeiro do ano, os principais grupos do país, os principais corpos do país, iam visitar o rei, dar boas festas, etc. E os protestantes iam também. E então, um certo dia primeiro do ano do reinado de Luís XIV, apresentaram-se vários corpos da França, e apresentaram-se também protestantes, metidos numas batinonas pretas… Aquela coisa protestante lúgubre e horrorosa, e pediram a ele para pronunciarem um discurso. Luís XIV parece que os deixou falar o discurso, quando acabou, ele disse o seguinte:

“Meu avô (Henrique IV), vos amava e vos temia. Meu pai (Luís XIII), vos temia, porém, não vos amava. Eu não vos temo nem vos amo. Fora!”

Dias depois, ele publicava o famosos “Edito de Nantes”. Edito é um decreto. Nantes uma cidade da França. O famoso Edito de Nantes, mediante do qual eram expulsos do território francês, todos os protestantes que não queriam se converter à religião católica. Tinham um prazo, tinham que sair. E na França, o culto protestante ficou quase completamente proibido. Isso foi celebrado pela Santa Sé e pelos outros reinos católicos da Europa com verdadeiro entusiasmo.

E como eu disse, esse Edito de Nantes ficou em vigor quase até a Revolução Francesa. Era um dos elementos constitutivos da ordem de coisas vigente na França e era o que dava, propriamente, a alma e o espírito das instituições da França.

Os senhores me dirão: “Então as pessoas eram obrigadas a renunciar a sua religião? Era o regime do crê ou morre?”.

— Não, crê ou sai.

Agora, se quiser ficar depois do prazo… A coisa era outra, havia outras penalidades. Mas aí não era “crê ou morre”, mas “sai ou apanha!”

Natural! Não quer preencher as condições a que tem direito a Igreja Católica como única Igreja Verdadeira, então saía. Se quiser ficar aqui, espada em cima. Quer dizer, um arranjo excelente.

Agora, daí decorria que a França podia chamar-se um Estado Sacral. Todos os estabelecimentos de ensino da França eram estabelecimentos oficialmente católicos, a própria universidade de Paris era oficialmente católica, ensinava-se ali a doutrina Católica. E quando se ensinava coisas contra a doutrina Católica, era para serem refutadas, não era como quem expõem querendo aceite, mas era para ser refutada. E o Clero, tinha uma situação oficial na França.

Qual era a situação oficial do Clero?

Hoje, um padre é um cidadão como outro qualquer, ele tem tanto direito como qualquer um de nós. Naquele tempo não, o Clero tinha uma situação onde fazia parte do Ancien Régime… o Clero tinha antes de tudo um direito muito bonito e muito louvável, que era o direito de depender da Santa Sé. Como é parte integrante da Religião Católica, e é o ápice da Religião Católica: o Papado; o clero francês fica dependente do Papado e o Papa tem o direito de governar o episcopado francês, e o rei não pode se entrepor nas relações com o Papa. Pelo contrário, o rei é obrigado a respeitar a livre comunicação do Papa com os Bispos, e dos Bispos com o Papa.

E, aliás, isso várias vezes foi violado por maus reis, mas a doutrina era essa. E como todo o poder, segundo a Igreja Católica, todo o poder vem de Deus, o novo rei para subir ao trono tinha que ser coroado solenemente e ungido para ser rei da França. Donde é que vinha essa unção? É belíssima a recordação da coroação do rei Clóvis da França, o primeiro rei católico. Os que se lembram disso levantem o braço para ver se é necessário dar a história. É, nós podemos saltar isto.

Bem, o fato é que a Catedral, o lugar onde Clóvis se fez batizar era Reims e, por causa disto, na lindíssima, aliás, Catedral de Reims é que os reis se faziam coroar. Eles faziam uma cerimônia religiosa durante uma missa rezada em Reims. Estava presente todo o episcopado, muitos dignatários eclesiásticos, etc., etc., o representante do Papa, etc., etc. E todos os representantes da nobreza e do povo estavam todos representados lá dentro da Catedral de Reims e outros fora, porque não cabiam todos dentro. E, em determinado momento, com o óleo com que São Remy tinha ungido Clóvis por ocasião do batismo, o arcebispo que coroava o rei ungia o rei como tenente de Deus na Terra, para governar o doce reino da França em nome de Deus.

E depois, ele coroava, punha a coroa na cabeça do rei e o rei se dirigia para um trono num lugar alto, eminente, e quando a coroação estava terminada — unção, não me lembro bem uma as das duas coisas —, soltavam, dentro da Catedral, um grande número de pombos e os pombos significavam a alegria de lembrar a pomba que tinha trazido no bico a Santa Ampola com o óleo com que Clóvis era ungido. E era realmente essa ampola que continha esse óleo ainda no tempo de Luís XVI. E o óleo que tinha nessa ampola é que vinha servindo para a coroação dos reis até o final, até a coroação de Carlos X, já no século XIX.

E os sinos tocavam com todo o vôo, e abriam-se as portas, a multidão entrava e era uma alegria geral, etc., etc. E o rei depois saia em procissão da Catedral e na praça pública estavam alinhados os doentes de uma doença especial chamada escrofulose, que o rei curava. Era um carisma que o rei recebia em virtude da unção e da coroação. Então chegavam, às vezes, a mil e mil e muitos doentes alinhados ali, e uma doença repugnante. O rei tocava no doente e fazia uma cruzinha e dizia: “Le roi te touche, Dieu te guerisse.” – “O rei te toca, Deus te cure.” E eram numerosos os escrofulosos que se curavam. De maneira que isso aumentava a alegria geral, e era uma festa enorme que repercutia pela Europa inteira: a coroação de um rei da França.

Esta era a posição oficial da Igreja. Os padres deveriam obedecer à lei da Igreja. Uma pessoa sagrada só pode ser julgada por padres e não por leigos; e havia, portanto, tribunais da Igreja para julgar os padres, e havia prisões da Igreja para manter os padres presos, ou as freiras presas durante o tempo em que o tribunal tinha condenado. Mas isto para assegurar a preeminência do clero sobre toda a outra sociedade. O que era de acordo com doutrina católica porque o clero é a classe alta da sociedade eclesiástica. Nós os leigos somos a plebe da Igreja. O clero a aristocracia da Igreja. E o clero como aristocracia da Igreja, tem o direito de ser reconhecido como tal também pelo Estado; e, por exemplo, um padre que quisesse casar não podia, porque o casamento era nulo, a lei civil não dava valor ao casamento do padre. Se o padre quisesse exercer uma profissão civil, o bispo pedia ao governo que mandasse prender o padre, entregava para ele para pôr o padre na cadeia. Mandava pôr a freira na cadeia. Se uma freira fugisse do convento e não cumprisse os votos, cadeia. E isto era assim em todos os Estados católicos da Europa. Era Espanha, era Portugal, era Itália e, enfim, todas as partes católicas da Alemanha, etc. E Irlanda, todos, isso era assim.

Agora, como eram feitas as leis desse estado?

As leis, em princípio, eram feitas de dois modos. Se os senhores quiserem, de três modos:

O primeiro modo era o rei, o rei era o monarca absoluto, quer dizer, não precisava da licença de ninguém para fazer leis. Mas ele podia fazer qualquer lei? Não. Havia umas leis que eram chamadas: “Les lois fondamentales du royaume” — “As leis fundamentais do reino da França”. Que eram leis que derivavam do começo da Idade Média e eram em geral, leis inspiradas na doutrina católica. Essas leis, nenhum rei podia contrariar. E se ele quisesse revogar essas leis, era nulo, ninguém tinha obrigação de obedecer, e havia tribunais aos quais se podia reclamar contra a ação do rei. De maneira que havia uma proteção dos particulares nessas leis que os defendiam, uma proteção contra o poder real. Esses tribunais eram livres em relação ao rei, o rei não podia dissolver esses tribunais. Não podia exercer atos de violência em relação a eles.

Agora, outro modo de fazerem as leis era a reunião dos Estados Gerais. O que vem a ser um Estado? Um estado era uma classe social. Então, o primeiro estado era o clero. Eu já expliquei por quê. O segundo Estado, do qual eu falarei daqui a pouco, era nobreza. E o terceiro estado era a plebe. Clero, nobreza e plebe, constituíam cada um um estado, e, pela tradição francesa, quando se convocavam os Estados Gerais, quer dizer, quando o rei convocava todos os estados, cada estado fazia como que um parlamentozinho próprio. O Clero tinha um, a nobreza outro, a plebe tinha outro. Mas se entendiam entre si para fazerem ou não fazerem leis comuns conforme quisessem. E o rei podia vetar essas leis, ele podia também acolher essas propostas de leis. Ele podia fazer uma proposta e os Estados Gerais aprovarem ou não aprovarem. Só o que tem é que se o rei veta-se uma lei dos Estados Gerais, era veto. Se os Estados Gerais vetassem uma lei do rei, ficava valendo o rei. E é claro! É rei ou o que é que é?

Nessa ocasião, cada estado tinha o direito de apresentar ao rei, queixas de como o rei estava governando o reino. Isto era chamada: “Doléances” ou “Remontrances”. Que eram as “Doléances?” Era o que vai mal. “Remontrances”, era censura: “Foi Vossa Majestade que fez isso e foi causa daquilo, etc.”, e o rei não podia fazer nada. Ele podia mandar fechar as queixas e arquivar, mas ele não podia reclamar contra quem queixou.

Havia, como os senhores estão vendo, um equilíbrio entre estes três poderes. Os poderes do rei; os poderes do Estado; da nobreza; e os poderes do povo. Era uma coisa equilibrada, mas com uma particularidade: é o que diz respeito à plebe.

No que diz respeito à plebe, a plebe tinha leis próprias também, mas eram feitas pelas associações de plebeus. Por exemplo, tudo o que nós chamamos hoje legislação do trabalho, eram os próprios plebeus que faziam. Como a Igreja fazia as suas leis, e a nobreza para certos efeitos tinha também leis que eram dela e feitas por ela. De maneira tal que cada grupo social tinha uma certa autonomia, era uma como se fosse uma naçãozinha independente.

E o como era os impostos?

Os impostos, era a idéia era o seguinte — a idéia vai causar estranheza aos senhores. E é assim que os historiadores apresentam, e eles não mentem no sentido de que a coisa foi como eles dizem, mas eles não dão a verdade inteira. E muitas vezes, não dar a verdade inteira é mentir. Coisa evidente!

Como é a questão dos impostos?

É apresentada a coisa assim: o clero não tinha impostos a pagar porque era uma classe privilegiada. A nobreza não tinha impostos a pagar porque era uma classe privilegiada. O povo não é uma classe privilegiada e, portanto, todos os impostos são pagos pelo povo. Parece uma injustiça aberrante. Então um pobre paga um imposto e o marquês fica se enfeitando e comendo dinheiro, e o padre fica nas suas horas vagas pelo menos se abanando e não fazendo nada. E eles não pagam imposto, paga o pobre? Isso brada aos Céus e clama a Deus por vingança.

É para quem não conhece a história. Para quem conhece é diferente. O clero tinha que pagar por sua própria conta todas as despesas que são feitas hoje em dia, nos estados modernos, pelos ministérios da saúde pública e da educação. Quer dizer, todos os hospitais e casas de caridade do reino tinham que ser mantidas pelo clero.

E é preciso dizer — entre parênteses —, que a França era um dos países onde melhor era a rede hospitalar. Não sei se os senhores sabem que os hospitais são uma criação da Igreja Católica. O primeiro hospital que houve no mundo foi de uma católica chamada Fabiola, do tempo dos romanos. Antes disso ninguém se incomodava com os doentes. Nosso Senhor Jesus Cristo é que pregou a compaixão para com os doentes, etc., etc. Nasceram os hospitais, nasceram, por assim dizer, no coração da Igreja e a Igreja tinha tudo isso. Ela tinha rendas porque Ela tinha prédios, tinha terras, etc., com o que Ela tinha que manter isto, e Ela recebia esmolas, mas se não dessem, Ela tinha que entrar com o que é d’Ela. Quer dizer um peso pesadíssimo.

A nobreza?

Algum dos senhores pensaria: “E agora chegou o ponto. O clero vá lá, eu compreendo, etc., etc. Mas como é a nobreza? Eles apareciam todos bem vestidos, de peruca branca, de sapatos de verniz com salto vermelho, fivela de prata e dançando minueto, e nhem-nhem!, e não paga imposto? Que conversa é esta?”

A nobreza tinha esta situação: quando havia guerra, quem ia para a guerra eram os nobres. E eles é que pagavam do próprio bolso o batalhão que eles eram obrigados a manter para o rei. De maneira que para esse batalhão, o rei não tinha direito de mobilizar todos, não. Pagava, quem queria ir para a guerra ia, quem não queria ir não ia. O plebeu não tinha serviço militar obrigatório. O nobre é que tinha. E as guerras, relativamente, e, de baixo de certo ponto de vista e relativamente, eram mais mortíferas naquele tempo. Porque não havia recursos hospitalares, não havia desinfecção, e o número de soldados feridos que morriam de infecção, eram uma coisa colossal.

Depois, um soldado ficava, por exemplo, aleijado, ele levava uma vida miserável pela razão seguinte: naquele tempo estavam começando a usar muletas e ficava em casa. Os senhores podem imaginar o que é uma coisa dessas! Cadeira de rodas ninguém usava! É uma vida de prisioneiro para a vida inteira e isso por ter protegido o país.

Quer dizer, se eu tenho certeza, que há muita gente hoje que se ficasse garantida contra a obrigação de ir para a guerra, preferia ficar plebeu do que ser nobre. E todas as despesas pagas hoje pelo ministério da guerra, da marinha, etc., naquele tempo eram por conta da nobreza. Então, eles não pagavam impostos porque pagavam serviços públicos caríssimos, e era uma coisa equivalente. Essa parte, a maior parte dos historiadores para curso secundário não ensina.

Os senhores querem ver a prova de como não ensina? Aquele que tenha aprendido isso em curso secundário levante a mão que eu quero ver. Ninguém! Para os senhores verem, aqui tem gente de tantos países, e em nenhum desses países lecionam isso. Esta era a verdade.

Agora, então por que a Revolução Francesa? Por que ela nasceu e como é que ela se estendeu?

Acontece o seguinte, que a concepção católica da vida era profundamente impregnada no espírito do homem medieval. E segundo esse espírito, a vida não foi feita para o prazer, a vida foi feita para o heroísmo, a vida foi feita para conhecer, amar e servir a Deus e, portanto, cumprir os mandamentos, e, portanto, levar a existência dura e difícil que o católico deve levar. Todas as condições de vida levam ao sofrimento.

O celibato tem suas privações e tem suas lutas, para manter a castidade. O casamento tem lutas tremendas. O esposo agüentar a esposa e a esposa aguentar o esposo, não é brincadeira. Os senhores vêm isso pelo número de divórcios que há por aí. É porque custaram para se adaptar, não se adaptaram. Se não houvesse divórcios, estavam-se aguentando por ai, e é obrigação de se aguentar, é duro! A vida do católico é dura. Um outro que é ladrão fica rico depressa. O católico quando enriquece, enriquece devagar, e passo a passo porque não pode roubar. Dai para a frente. A vida do católico é dura!

Mas o católico tem um senso moral alto, e ele tem a alegria de viver conforme a vontade de Deus, conforme os mandamentos, com a consciência em ordem que ele prefere a qualquer prazer. Daí vem para ele a felicidade dele, na Terra. Mas o principal elemento da felicidade dele na Terra é a convicção de que ele de fato vai para o Céu quando ele morrer, se ele cumprir todos os mandamentos. E ali ele vai ter uma felicidade eterna e inesgotável.

Quer dizer, mais uma vez está tudo baseado na Fé. Se o católico tiver Fé, ele é o mais feliz dos homens. Mas São Paulo disse muito bem: “se nossa Fé fosse vã, nós seriamos os mais infelizes dos homens”. É verdade!, porque levar essa vida dura para depois ir para o Céu onde está toda a canalhada junta, que levou a mesma vida que nós: então vou levar a vida do canalha! Agora, cair para o inferno!, os senhores já pensaram se isso é negócio?

Quer dizer, assim o católico concebia sua vida, como uma batalha, como uma luta. E a vida era séria, e a vida é cheia de deveres, e o católico amava o dever, e a dignidade do católico constituia exatamente em amar o dever.

Bem, com o Renascimento, com o Humanismo e com o Protestantismo, o europeu passou a ter horror ao cumprimento do dever, e achar que a vida era só para o gozo. E por causa disso antipatizar com a Igreja Católica que impõem uma série de deveres, e por causa disso uma corrente anticatólica vigorosa.

Por exemplo, na França, corrente atéia de uma corrente de escritores e pensadores chamados os enciclopedistas, com grande talento literário, muito protegidos…, estava muito difundida pela França, e a polícia não perseguia, e os reis não reprimiam. E com isso tudo junto acontecia que a onda anticatólica cresceu muito, e essa [onda] anticatólica levada pelo gozo, e pelo desejo de não cumprir os deveres, essa onda anticatólica era também contrária à monarquia.