Modernismo na Igreja no Brasil nos anos 30-40, Dr. Plinio conta seu pioneirismo no embate

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1-05-1989 CCEE Setor masculino

TRANSCRIÇÃO: https://cruciferos.wordpress.com/2020/07/16/modernismo-na-igreja-no-brasil-nos-anos-30-40-dr-plinio-conta-seu-pioneirismo-no-embate

00:00 Deputado na constituinte pela LEC (Liga Eleitoral Católica)
05:50 Contato de Plinio com o modernismo secreto, influência de Alceu Amoroso Lima
09:30 Plinio resolve escrever livro contra esse movimento
11:00 Os erros da Ação Católica

O Dr. Plinio Corrêa de Oliveira é o da direita na foto.

Áudio editado SEM GRITINHO JOANISTA, COMO TUDO NO CANAL.

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Significado das Siglas https://cruciferos.wordpress.com/significado-das-siglas-das-fontes/

Santa Bibiana, rogai por nós!

*********

…Eu fui, junto com outras pessoas, um dos fundadores desse organismo.  O verdadeiro fundador foi o então Arcebispo de São Paulo, D. Duarte Leopoldo e Silva.  Ele me nomeou secretário dessa Liga Eleitoral Católica.  Mas, secretário naquele tempo era o homem chave.  O presidente era assim uma figura decorativa, o homem chave era o secretário.  Eu era o homem chave dessa organização.

* Deputado pela LEC – veneração pela hierarquia

E quando chegou a vez do Arcebispado de São Paulo indicar seus deputados, eu fui avisado pela diretoria da Liga Eleitoral Católica, que haveria uma reunião da diretoria a tantas horas, no escritório da Liga Eleitoral Católica, mas que por desígnio do D. Duarte eu não deveria comparecer a essa reunião.

Eu achei a coisa singular, eu sou secretário, por que é que por desígnio dele eu não vou? Mas, eu tinha, graças a Deus, a maior veneração possível não só pelo Papa – não se pode exprimir a veneração que eu tinha pelo papado, e graças a Deus continua intacta, espero que ainda acrescida – pelo papado, mas também por toda a hierarquia eclesiástica, por todos os arcebispos, bispos, padres.  Eu considerava que deviam ser santos.  Isto era a única ordem possível, era ser santos.  Tratava e tinha a todos em conta de santos.

Ao velho Arcebispo D. Duarte eu tinha um respeito sem fim, e sem nome.  Se ele quis que eu não comparecesse, eu não compareço.  O presidente, um homem muito simpático, Dr. Estevão Emerick de Souza Rezende, me disse sorrindo: “Você fique andando aí pelos corredores, porque quando terminar a reunião nós vamos precisar de você”.  Eu não tinha rezado ainda o meu rosário, e fiquei andando no corredor de um lado para outro;  o andar todo era da Liga, de maneira que eu era, por assim dizer, o dono da casa, fiquei andando de um lado para outro pondo em dia as minhas orações.  Até que abriram a porta, e um deles apareceu, não me lembro qual, e me disse – eu era muito moço nesse tempo, eu tinha 23 anos, portanto eles me chamavam de “você” – me disse sorrindo:  “Plinio, agora entre, que nós temos uma decisão do D. Duarte para comunicar a você.”

Eu entrei, sentei-me.  Eles me disseram: “O Presidente, Dr. Souza Rezende, vai comunicar a você a decisão do D. Duarte.” Para mim era como se fosse palavra do Evangelho.  O Sr. Arcebispo decidiu, não se discute!  Eu disse:  “Pois não, eu estou à disposição.  O que o Sr. Arcebispo quiser, eu quero.”

– “Está bem.  O Sr. Arcebispo quer que o Sr. seja eleito deputado!  E você vai ser eleito deputado na próxima eleição”.

Eu realmente fui eleito deputado, quando tinha 24 anos (porque a eleição levou algum tempo para ser feita), quando eu tinha 24 anos eu fui eleito, exatamente com 24 mil votos.  Fui o deputado mais votado do Estado de São Paulo, e o deputado mais votado do Brasil.  E com uma coincidência curiosa:  24 mil votos, 24 anos.

E fui como deputado federal para a Constituinte Federal daquele ano, para fazer aprovar uma Constituinte de acordo com a doutrina católica.

* Um movimento “renovador” na Igreja para equiparar os leigos aos padres

Eu abrevio muito, mas quero dizer que num prédio próximo ao prédio da Assembléia Constituinte, quase em frente, havia uma instituição católica chamada “Coligação Católica”.  Essa Coligação Católica era dirigida por uma pessoa que tinha toda a confiança de D. Sebastião Leme da Silveira Cintra, Arcebispo do Rio, e, naquele tempo, o único Cardeal do Brasil.  Depois o Brasil teve outros cardeais;  naquele tempo tinha um só.  E era o líder natural de todos os católicos brasileiros, portanto de todos os bispos e tudo.

E todas as tardes havia conferência lá, e falava um deputado.  Eu estranhei muito que sendo eu o deputado mais votado, levou um tempão para me convidarem para falar.  Afinal, um dia chegou, me convidaram para falar também.  Eu fui muito aplaudido, etc., etc.  Mas, depois, eu percebi que estava sendo feito um certo esforço para me reter lá, para eu não sair logo.

Eu achei aquilo um pouco esquisito, mas fiquei.  Porque era esquisito, mas não podia deixar de ser santo.  Porque era feito num prédio da Igreja Católica, e tudo quanto se fazia na Igreja Católica era santo.  Eu ignorava a Encíclica de São Pio X.  Ignorava, portanto, as crises que podem haver no seio da Igreja.

Quando terminou a conferência, o pessoal saiu, entraram uns rapazes que eu não conhecia.  Todos eles mais ou menos de minha idade, um pouquinho mais moços do que eu.  Rapazes de uma apresentação agradável, corretos; via-se que eram inteligentes, tinham uma boa instrução, bem educados, bem vestidos, etc.;  me foram apresentados, nos cumprimentamos cordialmente.

Eles puseram dois bancos na sala vazia, dois bancos um em frente ao outro, e disseram que iam rezar um Ofício, como os padres rezam o Breviário.  Eu achei aquilo uma coisa esquisita.  Disse:  “Bom, eu não sei rezar.  Portanto, vou ver vocês rezarem.  Vou, interiormente, rezar com vocês, mas eu não sei rezar o Ofício, nunca ninguém me ensinou.  Vou ficar vendo.”

Eles sabiam na perfeição aquelas vênias, inclinações, persignações;  depois como virar o Breviário para cá, virar o Breviário para lá – sabiam na perfeição!

Mas, eu percebi que tinha qualquer coisa ali de meio escondido.  Que só me seria revelado se eu gostasse daquele ato do Breviário, e se eu me manifestasse acessível àquilo.  E negócio de escondido nunca foi comigo!  Porque nós somos filhos da luz, esconder o quê?!  O que nós fazemos é às claras!  Não gostei muito, não me aproximei muito deles.  Aquilo ficou meio no ar.

Mas, eu deduzi do que eles diziam o seguinte.  Que eles faziam, era um movimento que era para equiparar os leigos com os padres.  Que não havia razão para os leigos serem menos que os padres na Igreja.  E que a Igreja ia passar por uma reforma, aonde os leigos iam ser equiparados aos padres.  E esse movimento devia chamar-se “Ação Católica”.

* Inovações progressistas: levar “o Cristo” ao Cassino

Mais tarde, outro dia, conversando com alguns deles que eu encontrei lá pelo Rio, eles disseram que tinham estado no cassino da Urca.  Urca era uma montanha que tem entre a terra e o Pão-de-Açúcar.  Aquele trenzinho aéreo pára um instante na Urca –  parava, não sei se hoje ainda pára – pára um instante na Urca, para renovar gasolina, não sei o que põe lá, depois aquilo sobe até o alto.

E tinham feito na Urca um cassino dos mais imorais! Eu disse:  “Mas, como é esse negócio?   Vocês são católicos e vão ao cassino da Urca!”

Resposta:  “Você não sabe, Plinio?  A Igreja está se modificando.  Você é formando na escola antiga.  Olhe o que você está dizendo:  como você é católico, você não vai.  Nós dizemos:  nós vamos porque somos católicos!”

Eu disse:  “Mas como é esse negócio?!  Vocês comungaram hoje cedo, que eu sei que vocês comungam todo dia como eu comungo, e à noite vocês vão a um lugar de perdição?!”

– “É isso!  Você acha que, como você tem o Cristo  dentro de você – eu nunca ouvi dizer `o Cristo’; Nosso Senhor Jesus Cristo eu sei quem é; `o Cristo’ é pelo menos esquisito – como você tem o Cristo dentro de você, você acha que não pode levá-Lo a um lugar de perdição.  Nós fazemos outra coisa.  Nós estamos com o Cristo dentro de nós.  E nós vamos levar o Cristo ao cassino da Urca, para converter os imorais que estão lá dentro!”

Eu:  “E se saírem vocês pervertidos?”

– “Não pode acontecer!  Porque isso é teoria antiga, que o homem cai em pecado.  Na nossa teoria nova não existe mais pecado.”

Eu disse:  “É cômodo, hein?  Que gostoso, hein?  Então, vocês fazem o que querem, e amanhã vão comungar?”

– “É isso mesmo!  Porque essas proibições da Igreja antiga agora estão acabando.”

Eu achei aquilo esquisito.  Disse:  “Mas, quem é que dirige a vocês?”

– “Padres Fulanos, Fulanos, Sicranos;  o Bispo tal;  o líder leigo, católico, Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Ataíde, meu íntimo amigo, que nunca me tinha aberto a boca sobre nada disso) é que dirigem isso.  E nós agora vamos fazer um movimento para reformar a Igreja.”

Eu pensei, mas não disse:  “Vocês vão me encontrar pela frente!”

[Palmas.]

* A “Ação Católica” e o começo de uma nova religião

A Constituinte se dissolveu, eu voltei para morar em São Paulo.  Chegando a São Paulo eu encontro uma novidade.  Um grupo de moças, já bem mais velhas que eu – “moças” no sentido generoso da palavra…  Umas moças de 40 anos assim… -, mas, também elas inteligentes, cultas, de trato agradável, tendo viajado várias vezes pela Europa, e muito lidas, etc., etc.  Que queriam ter um encontro comigo e com os principais jovens da Congregação Mariana de Santa Cecília.

Fizemos o encontro.  E elas começaram:  “Nós estamos fundando a Ação Católica.  E queremos chegar a uma definição do que é a Ação Católica.”  Então, uma pergunta para a outra:

– “Fulana, o que você acha que é a Ação Católica?”

A outra responde, mas assim com um jeito esquisito, com modos de dengosa…  Porque, se eu quero saber como é a Ação Católica, eu pergunto;  como se eu quiser saber o que tem aqui dentro, eu pergunto ao Sr.:  “O que é isso aí?  É água?  Ah, está bom, vou beber!”  Está acabado.  A linguagem humana é essa.

Não.  Elas:  “Fulana, você sabe o que é Ação Católica?”  A outra respondia:  “Ah, Cicrana, eu sei…  É a participação dos leigos no apostolado hierárquico da Igreja.”

A outra disse: “Mas eu queria, Beltrana, saber o que é participação?”  Eu achei aquilo uma coisa raríssima! Sai a noção de participação: “Participação é tomar parte.  Tomar parte no apostolado hierárquico da Igreja, é para nós leigos fazermos parte da Hierarquia da Igreja. E é o novo progresso, é que agora os leigos vão fazer parte da Hierarquia.  Isso se chama Ação Católica! Dr. Plinio (eu já estava formado, então), o que é que o Sr. acha?”

Eu disse:  “Eu acho que eu não estou de acordo!

– “Mas, por que Dr. Plinio? Não lhe parece claaaaro, simpático, o que nós dissemos?

– “Não! Parece-me errado!

– “Mas, diga Dr. Plinio: por que é que parece errado? Fulana, você vai responder a Dr. Plinio, porque assim se faz um diálogo muito interessante.

– “Eu vou dizer o que eu penso. E tá, tá, tá.  Um leigo não pode pertencer à Hierarquia.  A Hierarquia se constitui do Papa, do Bispo, do Vigário.  E o leigo não é Papa, não é Bispo, não é Vigário.  Fica para baixo disso.  A Igreja se compõe de duas partes:  uma parte ensina, governa e santifica – é a Hierarquia;  outra parte é ensinada, é governada e é santificada – somos nós leigos.  Eu não compreendo como é que nós podemos fazer parte da Hierarquia.”

A outra lá disse:  “Não, Dr. Plinio, hoje em dia não se discute mais como o Sr. está fazendo, com argumentos.”

Minha… “Mas, então, discute-se sem argumento?  Como é esse negócio?  É tocar violino sem aquele arco?  Que história é essa, discutir sem argumento?”   Enfim, como eram moças…  Se fosse homem, a pergunta voava direto!  Mas, como eram senhoras, a gente tem que tratar com mais cortesia, etc., eu não fui diretamente.  Então elas disseram:  “Isso é assim, assim”, e deram as doutrinas novas:  “Tal Encíclica de Pio XI diz isso, tal Encíclica diz aquilo, etc., etc.”

Eu disse:  “Mas a questão é que as senhoras chamam de participação uma coisa que pode não ser participação.  Participação tem outro sentido, tem tais, tais.  Vamos ao dicionário, as senhoras têm dicionário aqui, vamos pegar!

– “Não, não!  Essas coisas a gente intui, não precisa ir ao dicionário!

– “Bom, mas então eu não entendo mais nada!”

Dias depois o Vigário de Santa Cecília me procurou.  Disse:  “Olha, Dr. Plinio, eu aconselharia ao Sr. a não comparecer mais lá.  Porque elas dizem que o Sr. discute com uma lógica de advogado…”

Mas, como é?  Com lógica do quê ele quer que discuta?  De mago, de feiticeiro?!  Bem:  “Uma lógica de advogado, que aperta as pessoas.  E que elas ficam muito sem jeito de discutir com o Sr.  Que elas gostam de um diálogo afável, ameno, e sem muita argumentação.”

E eu disse:  “E o Sr., acha isso bom?”  Ele deu risada, e disse:  “Olhe, entenda as mulheres!  Deixe elas serem mulheres!”

Eu pensei:  “Nossa Senhora era mulher, mas não era assim!  Esse negócio é diferente.”  Eu percebi que tinha uma ligação entre as duas coisas:  uns queriam que o leigo fosse igual ao padre, a ponto de poder celebrar Missa, mas sem ser padre – a turma do Rio.  Outros queriam que o leigo mandasse como um Bispo, mas sem ser Bispo:  era a Revolução na Igreja!

Todos eram a favor da completa liberdade em matéria de levar o Cristo à Urca.  Quer dizer, costumes novos, coisas novas, saias curtas, uma coisa completamente diferente.  Eu percebi que era uma religião nova que começava.

Mas, com surpresa para mim, procurei falar com esse ou com aquele Bispo, com essa ou aquela pessoa, e notei que ninguém era contra isso.

* Enquanto presidente da “Ação Católica”, um livro a respeito do movimento

Nisso, morreu o velho Arcebispo D. Duarte, e eu me senti completamente só.  Então, resolvi escrever um livro contando todas as coisas que eu tinha notado, e procurando refutá-las.   Para isto, eu li todos os documentos pontifícios do tempo de Leão XIII até o tempo de Pio XI.  Leão XIII era o Papa imediatamente anterior a São Pio X.

E quando chegou no volume, ou nos volumes dos documentos de São Pio X, eu encontrei a Pascendi Dominici Gregis; encontrei a Notre Charge Apostolique.  E aí disse:  “Aqui está esse gente!  É essa turma que está fazendo isso, etc., etc.  Mas, eu estou só, não tenho recurso, não tenho nada!”

Eu tinha sido nomeado Presidente da Ação Católica.  E pensei:  “Vocês estão estalando aqui a Igreja Católica de dentro para fora.  Eu entro na Ação Católica, e estouro a Ação Católica de dentro para fora!  Eu vou estourar a Ação Católica!  Eu vou escrever um livro como Presidente  da Ação Católica, indicando os erros da Ação Católica, e arrebento com ela!  Podem ser que arrebentem comigo, mas arrebentamos todos juntos!  Mas, essa porcaria eu não deixo andar!”

Esses movimentos tiveram uma queda brusca, de que nós temos documentos, por memórias escritas por padres e bispos que naquele tempo pertenciam a isso, e hoje ficaram padres e bispos, e que deixam nas memórias registrado todo o prejuízo que tiveram com a publicação do livro, e a campanha que o jornal “Legionário” movia contra eles.

Daí vieram outras coisas, que caberiam numa outra reunião.  A reunião foi longe demais.  As senhoras estão à suas esperas, e eu me despeço.  Talvez então, numa outra reunião, ou nós continuamos a tratar disso, ou nós tratamos dos temas que os Srs. apresentaram.

Mas, tudo isso serve para os Srs. terem uma idéia remota da situação em que hoje se encontra a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.  Infalível, indestrutível, e contra a qual as portas do inferno não prevalecerão!

Com isso está encerrada a nossa reunião!

[Palmas.]

Manifestação antiprogressista em Roma, Paulo VI, rejeição aos tradicionais, amor ao Papado – Plinio Corrêa de Oliveira

Folha de S. Paulo, 12 de julho de 1970, Plinio Corrêa de Oliveira

A perfeita alegria

Do Sr. Jeroboão Cândido Guerreiro recebi a seguinte carta, valentemente escrita e “assinada” à máquina:

“Ao ler as notícias recentes sobre a manifestação antiprogressista em Roma, e seu triste desfecho, pensei no Sr.

“Assim, mil e quinhentos católicos de vários países desfilam em Roma para exprimir a Paulo VI seu desagrado ante a reforma que ele está fazendo na Igreja. Entre outras coisas, querem eles que o Bispo de Roma em nossos dias tenha o mesmo poder absoluto dos seus antecessores. Chegados à Praça de São Pedro, eles ali permanecem em submissa vigília de orações, a pedir que Deus ilumine o Papa Montini. Este, de seu lado, se mantém desdenhosamente de portas e janelas fechadas, durante todo o tempo em que ali permanecem essas ovelhas… às quais, entretanto, ele não tem outra inculpação a fazer, senão a de que são mais papalinas do que ele. A pobre grei da superfidelidade supercatólica e super papalina se dispersa melancolicamente, sem ter ouvido do Pastor supremo, ao qual teimam em estar unidos, uma só palavra de afeto paterno. Mais. Pouco depois, Paulo VI, em uma alocução, os arrasou.

“Já dias antes, um ‘herege’ (adoto aqui a terminologia dos teólogos católicos), como o Patriarca armênio, Vasken, fora recebido com pompas como se fosse um papa, por Paulo VI, na Capela Sixtina. Agora, Paulo VI vai receber… certamente para algum ‘diálogo’ seguido de concessões, o líder contestatário (aliás, bem mais simpático do que o senhor e sua TFP), que é o Cardeal Alfrink, de Utrecht. Também poucos dias depois de dar com a porta na cara de seus infelizes superfiéis, Paulo VI recebeu, com distinção especial, os três guerrilheiros afro-lusos. Para agosto, está programada a visita de Tito ao Vaticano, onde será recebido com honras de chefe de Estado. E assim por diante.

“O Sr., Dr. Plinio, não percebe que as portas do Vaticano e o coração do Papa estão abertos para todos os ventos e todas as vozes, exceto para os ventos ideológicos que sopram do quadrante onde o Sr. se situa, e para as vozes que dizem coisas semelhantes às que o Sr. diz?

“Francamente, acho fantástica a sem-cerimônia com que o senhor afeta, em seus artigos, nada ver disto tudo, e se professa católico tão fervoroso e intransigente quanto se fosse Papa, hoje em dia, não Montini, mas Sarto (‘São’ Pio X), o truculento quebra-hereges do início do século.

“A intenção desta carta não é de mortificá-lo, Dr. Plinio. Mas, enfim, a verdade é a verdade: abra os olhos para ela. Não há no mundo quem seja mais rejeitado pelo Papado modernizado e pela Nova Igreja, do que o Sr. e seus congêneres.

“Meça bem o contraste. Durante o último Sínodo de Bispos, reuniram-se em uma igreja protestante de Roma alguns padres católicos supercontestatários, que levaram a Paulo VI uma mensagem sulfúrica. As portas do Vaticano se abriram para eles. Chegaram até a antecâmara papal. Entregaram sua mensagem. Paulo VI não os recebeu em audiência. Mas prometeu muito afavelmente que iria estudar os pedidos dos contestatários.

“E para a mensagem da TFP, implorando providências de Paulo VI contra o que o Sr. chama ‘a infiltração comunista na Igreja’, assinada entretanto por 1.600.368 católicos? Nem uma resposta sequer teve Paulo VI! Pergunto: pode haver mais clara prova de rejeição?

“Entretanto, apesar de tomar assim com a porta na cara, o Sr. se apresenta em público como um papista fanático, tão fanático como o Sr. era quando, jovem ainda, se fazia notar nas fileiras dos congregados marianos, a vociferar o hino: ‘Viva o Papa, Deus o proteja, o Pastor da Santa Igreja!’

“O Sr. não percebe, Dr. Plinio, que tudo mudou, e que agora quem está na berlinda é o Sr.?

“Tenha coragem de explicar ao público sua posição contraditória de hoje…”

* * *

Sr. Jeroboão Cândido Guerreiro (Jeroboão é nome de protestante: confere. Este Jeroboão me parece pouco cândido e muito guerreiro), começo pela aliás fácil coragem de publicar a sua carta na íntegra.

Se bem que eu me sinta tentado a entrar em matéria apontando alguns erros de estilo, de pensamento e de História (presente e passada) do meu missivista, prefiro ir ao cerne do assunto, no pouco espaço que seu longo texto me deixa. E este cerne consiste — em se tratando de um interlocutor de formação protestante — em mostrar como se deveria portar um católico que estivesse, não precisamente nas condições em que me encontro, mas nas condições em que ele imagina que estou.

O Sr. Jeroboão se engana. Não é com meu entusiasmo dos tempos de jovem, que eu me coloco hoje ante a Santa Sé. É com um entusiasmo ainda maior, e muito maior. Pois à medida que vou vivendo, pensando e ganhando experiência, vou compreendendo e amando mais o Papa e o Papado. E isto seria precisamente assim ainda que eu me encontrasse — repito — exatamente nas circunstâncias que o Sr. Cândido Guerreiro pinta.

Lembro-me ainda das aulas de catecismo em que me explicaram o Papado, sua instituição divina, seus poderes, sua missão. Meu coração de menino (eu tinha então 9 anos) se encheu de admiração, de enlevo, de entusiasmo: eu encontrara o ideal a que me dedicaria por toda a vida. De lá para cá, o amor a esse ideal não tem senão crescido. E peço aqui a Nossa Senhora que o faça crescer mais e mais em mim, até o meu último alento. Quero que o derradeiro ato de meu intelecto seja um ato de Fé no Papado. Que meu último ato de amor seja um ato de amor ao Papado. Pois assim morrerei na paz dos eleitos, bem unido a Maria minha Mãe, e por Ela a Jesus, meu Deus, meu Rei e meu Redentor boníssimo.

E este amor ao Papado, Sr. Jeroboão, não é em mim um amor abstrato. Ele inclui um amor especial à Pessoa sacrossanta do Papa, seja ele o de ontem, como o de hoje ou o de amanhã. Amor de veneração. Amor de obediência.

Sim, insisto: de obediência. Quero dar a cada ensinamento deste Papa, como de seus Antecessores e Sucessores, toda aquela medida de adesão que a doutrina da Igreja me prescreve, tendo por infalível o que ela manda ter por infalível, e por falível o que ela ensina que é falível. Quero obedecer às ordens deste ou de qualquer outro Papa em toda a medida em que a Igreja manda que sejam obedecidas. Isto é, não lhes sobrepondo jamais minha vontade pessoal, nem a força de qualquer poder terreno, e só, absolutamente só recusando obediência à ordem do Papa que importasse eventualmente em pecado. Pois neste caso extremo, como ensinam — repetindo o Apóstolo São Paulo — todos os moralistas católicos, é preciso colocar acima de tudo a vontade de Deus.

Foi o que me ensinaram nas aulas de catecismo. Foi o que li nos tratados que estudei. Assim penso, assim sinto, assim sou. E de coração inteiro.

* * *

Como já disse, haveria de cá e de lá algumas precisões ou retificações a fazer aos fatos que o Sr. narra. Imagino entretanto — para argumentar — que fossem tais quais o senhor os pinta. E que as portas do Vaticano me tenham sido batidas, ou venham a ser-me batidas no rosto. Eu em nada alteraria minha atitude de fé, entusiasmo e obediência. E, além disto, me sentiria em perfeita felicidade.

Sabe o Sr. o que nos ensina São Francisco sobre a perfeita felicidade? Para refrigério e gáudio de sua alma, eu o transcrevo dos “Fioretti”, embora resumidamente:

“Vindo uma vez São Francisco de Perusa para Santa Maria dos Anjos com Frei Leão, em tempo de inverno, e como o grandíssimo frio fortemente o atormentasse, (…) Frei Leão perguntou-lhe: Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria. E São Francisco assim lhe respondeu: Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, inteiramente molhados pela chuva e transidos de frio, cheios de lama e aflitos de fome, e batermos à porta do convento, e o porteiro chegar irritado e disser: Quem são vocês? E nós dissermos: Somos dois dos vossos irmãos, e ele disser: Não dizem a verdade; são dois vagabundos que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; fora daqui; e não nos abrir e deixar-nos estar ao tempo, à neve e à chuva, com frio e fome até à noite: então, se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele (…) escreve que nisso está a perfeita alegria. E se ainda, constrangidos pela fome e pelo frio e pela noite batermos mais e chamarmos e pedirmos pelo amor de Deus com muitas lágrimas que nos abra a porta e nos deixe entrar, e se ele mais escandalizado disser: Vagabundos importunos, pagar-lhes-ei como merecem; e sair com um bastão nodoso e nos agarrar pelo capuz e nos atirar ao chão e nos arrastar pela neve e nos bater com o pau de nó em nó: se nós suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo bendito, as quais devemos suportar por seu amor; ó irmão Leão, escreve que aí e nisso está a perfeita alegria, e ouve, pois, a conclusão, irmão Leão. Acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo, os quais Cristo concede aos seus amigos, está o de vencer-se a si mesmo, e voluntariamente pelo amor suportar trabalhos, injúrias, opróbrios e desprezos (…)”.

Contra o movimento ecumênico pós conciliar – Plinio Corrêa de Oliveira

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22-VI-1984 CCEE

TRANSCRIÇÃO: https://cruciferos.wordpress.com/2020/06/28/contra-o-movimento-ecumenico-pos-conciliar-plinio-correa-de-oliveira-2

Áudio editado SEM GRITINHO JOANISTA, COMO TUDO NO CANAL.

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Santa Bibiana, rogai por nós!

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…o movimento ecumênico post-conciliar afirma, ora claramente, ora não, o seguinte: Que todas as igrejas participam de algum modo da Igreja Católica, que elas são miniaturas da Igreja Católica, que tem em ponto pequeno as qualidades excelsas da Igreja Católica. Que o que elas tem de errado, é nelas um fator secundário, que não tem importância. O que tem de importante é aquilo em que elas concordam com a Igreja Católica. E que – não sei se a expressão não será um pouco carregada demais – elas acabam sendo verdadeiras sucursais da Igreja Católica. Com isso nós não estamos de acordo de nenhum modo!

(Aplausos)

Não estamos de acordo de nenhum modo com as religiões que se dizem cristãs. Elas não são sucursais da Igreja Católica, elas são adversárias da Igreja Católica. Pode ser que entre os que as seguem, haja almas boas que estão caminhando para se converter. Essas almas podem ser que pertençam ao que a Igreja chama “o espírito da Igreja”. Nós devemos olhar para elas com simpatia, procurar atraí-las. Por exemplo, certos filões do anglicanismo. Eles estão caminhando, parecem caminhar para inteira profissão da fé católica. No dia em que se converterem, terão cessado as barreiras. Enquanto não se converterem, não terão cessado as barreiras. Nós poderemos, por cima das barreiras, fazer todo o possível para esclarecê-los. Mas criar uma confusão e dizer: “Nós somos a mesma religião”, não contem com isso, por lá nós não passaremos, essa é a realidade!

“A Política de Distensão do Vaticano com os Governos Comunistas. Para a TFP: omitir-se? ou resistir?”

H8ikMpEw0iUsAAAAABJRU5ErkJggg== 1105×615Publicado em 21 jornais de 10 países.

“Folha de S. Paulo”, 10 de abril de 1974

I – OS FATOS

O povo paulista tomou conhecimento, ontem, dos resultados da viagem a Cuba, de Monsenhor Casaroli, secretário do Conselho para os Assuntos Públicos do Vaticano. Esses resultados, enunciou-os o próprio dignatário, em uma entrevista (cfr. “O Estado de São Paulo” de 7 do corrente). Asseverou S. Excia. que “os católicos que vivem em Cuba são felizes dentro do regime socialista”. Não seria preciso dizer de que espécie de regime socialista se trata aí, pois é conhecido que o regime vigente em Cuba é o comunista.

Sempre falando do regime Fidel Castro, S. Excia. continua: “os católicos e, de um modo geral, o povo cubano, não têm o menor problema com o governo socialista”.

Desejando talvez dar a estas declarações estarrecedoras certo ar de imparcialidade, Mons. Casaroli lamentou entretanto que o número de Sacerdotes fosse insuficiente em Cuba: apenas duzentos. Acrescentou ter pedido a Castro maiores possibilidades de praticar cultos públicos. E terminou asseverando muito inesperadamente que “os católicos da ilha são respeitados em suas crenças como quaisquer outros cidadãos”.

Para não considerar senão o que desde logo se nota nestas declarações, causa perplexidade que Mons. Casaroli reconheça que os católicos cubanos sofrem restrições em seu culto público, e ao mesmo tempo assevera que eles são “respeitados em suas crenças”. Como se o direito ao culto público não fosse uma das mais sagradas de suas liberdades.

Se os súditos não católicos do regime cubano são tão respeitados quanto os católicos, é o caso de dizer que em Cuba ninguém é respeitado…

No que consiste então essa “felicidade” de que segundo Mons. Casaroli, fruem os católicos cubanos? Parece que é a dura felicidade que o regime comunista dispensa a todos os seus súditos: a de curvar a cabeça. Pois Mons. Casaroli assevera que “a Igreja Católica cubana e seu guia espiritual procuram sempre não criar nenhum problema para o regime socialista que governa a ilha”.

Mais em profundidade, as observações que o alto dignitário do Vaticano colheu de sua viagem conduzem a conclusões de maior tom.

Numa época em que S.S. Paulo VI tem realçado, mais do que nunca, a importância da normalidade das condições materiais da existência, como fator propício à prática da virtude, não é concebível que Mons. Casaroli considere “felizes dentro do regime socialista” de Fidel Castro os católicos cubanos, se estes estão imersos na miséria. De onde devemos deduzir que, segundo Mons. Casaroli, eles gozam de condições econômicas pelo menos suportáveis.

Ora, todos sabem que isso não é real. E, mais ainda, os católicos que tomam a sério as Encíclicas de Leão XIII, Pio XI e Pio XII, sabem que não o pode ser, pois estes Papas ensinaram que o regime comunista é o oposto da ordem natural das coisas, e a subversão da ordem natural – na economia como em qualquer outro campo – só pode trazer frutos catastróficos.

Assim, os católicos de qualquer parte do mundo, que sejam ingênuos ou mal informados da verdadeira doutrina social da Igreja, se lerem os resultados do inquérito que Mons. Casaroli fez em Cuba, serão conduzidos a uma conclusão oposta diametralmente à realidade. Isto é, que nada têm a temer da implantação do comunismo nos respectivos países, pois nessa hipótese serão perfeitamente “felizes”, quer no que diz respeito aos seus interesses religiosos, quer em sua situação material.

Dói dizê-lo, mas a verdade óbvia é esta: a viagem de Mons. Casaroli a Cuba desfechou numa propaganda da Cuba fidelcastrista.

Este fato, terrível em si mesmo, é um lance na política de distensão que o Vaticano vem operando, de há muito, em relação aos regimes comunistas. Vários desses lances são muito conhecidos do público

Um deles foi a viagem realizada à Rússia em 1971 por S. Eminência o Cardeal Willebrands, Presidente do Secretariado para a União dos Cristãos. O objetivo oficial da visita era assistir à posse do Bispo Pimen no Patriarcado “ortodoxo” de Moscou. Pimen é o homem de confiança, para assuntos religiosos, dos ateus do Cremlin. Em si, a visita era altamente prestigiosa para o prelado heterodoxo, a justo título considerado a “bête noire” de todos os “ortodoxos” não comunistas no mundo inteiro. Discursando no Sínodo que o elegeu, Pimen afirmou a nulidade do ato pelo qual, em 1595, os ucranianos reverteram do cisma para a Igreja Católica. Isto importava em proclamar que os ucranianos não devem estar sob a jurisdição do Papa, mas dele Pimen e de seus congêneres. Em lugar de tomar atitude diante dessa clamorosa agressão aos direitos da Igreja Católica, e da consciência dos católicos ucranianos, o Cardeal Willebrands e a delegação que o acompanhava se mantiveram mudos. Quem cala, consente, ensina o direito romano. Distensão…

Como é natural, essa capitulação traumatizou profundamente aqueles dentre os católicos, que acompanham com seguida atenção a política da Santa Sé. Outra foi ainda maior entre os milhões de católicos ucranianos esparsos pelo Canadá, pelos Estados Unidos e outros países. E teve relação com as dissensões dramáticas entre a Santa Sé e sua Eminência o Cardeal Slipyj, valoroso Arcebispo-mor dos ucranianos, durante o Sínodo de Bispos, realizado em Roma em 1971.

Vista em seu conjunto, a conduta de S. Eminência o Cardeal Silva Henriquez, Arcebispo de Santiago, constitui outro lance da distensão com os governos comunistas, promovida pela diplomacia vaticana. Como é notório – e a TFP chilena o demonstrou em lúcido manifesto reproduzido por vários órgãos da imprensa brasileira – o Purpurado chileno deitou o peso de toda a influência da autoridade inerente a seu cargo para auxiliar a ascensão de Allende ao poder, sua pose festiva nele, e sua manutenção na primeira magistratura até o momento trágico em que o líder ateu se suicidou. Com uma flexibilidade que não concorre para dar boa idéia dele, o Emmo. Cardeal Silva Henriquez procurou ajustar-se, por meio de algumas declarações públicas, à ordem de coisas que sucedeu ao regime Allende. Porém, as manifestações de sua constante simpatia para com os marxistas chilenos nem por isso cessaram. Ainda há pouco, S. Emcia. celebrou Missa de réquiem na capela de seu Palácio Cardinalício por alma de outro comunista, o “camarada” Toha, ex-ministro de Allende, aliás também ele um infeliz suicida. Ao ato, compareceram familiares e amigos do morto (cfr. “Jornal do Brasil” de 18/3/74).

Por esse conjunto de atitudes, tão próprias a aproximar do comunismo os católicos, não consta que o purpurado tivesse sofrido a menor censura. Se houve quem imaginasse que ele perderia sua Arquidiocese, esperaria em vão até agora. O Cardeal Silva Henriquez continua tranqüilamente investido na missão de conduzir a Jesus Cristo as almas de sua populosa e importante Arquidiocese.

Enquanto ele a conserva, por injunções da política de distensão, outro Arcebispo, pelo contrário, perdeu a sua. Trata-se de uma das figuras mais empolgantes da Igreja no século XX, cujo nome é pronunciado com veneração e entusiasmo por todos os católicos fiéis aos tradicionais ensinamentos econômicos e sociais emanados da Santa Sé. Mais ainda, o nome desse prelado é acatado com sumo respeito por pessoas das mais variadas religiões. Ele é um florão de glória da Igreja aos olhos até dos que nela não crêem. Este florão foi quebrado há pouco. O Emmo. Cardeal Mindszenty foi destituído da Arquidiocese de Esztergom, para facilitar a aproximação com o governo comunista húngaro.

Como se vê, a visita de Mons. Casaroli a Cuba – ainda abstração feita da entrevista que deu depois de haver deixado a ilha – se inscreve como elo de uma cadeia de fatos que vêm de há anos. Onde terminará esta cadeia? Para que surpresas dolorosas, para que novos traumas morais devem ainda preparar-se os que continuam a aceitar, em todas as suas conseqüências, a imutável doutrina social e econômica ensinada por Leão XIII, Pio XI e Pio XII? Estamos certos de que incontáveis católicos ao reler estas notícias, ao tomar conhecimento das perplexidades, das angústias e dos traumas expressos nestas linhas sentirão retratados o seu próprio drama interior: o mais íntimo e mais pungente dos dramas, pois que acima, muito acima de versar apenas sobre questões sociais e econômicas, tem cunho essencialmente religioso. Diz respeito ao que há de mais fundamental, vivo e terno na alma de um católico apostólico romano: sua vinculação espiritual com o Vigário de Jesus Cristo.

II – CATÓLICOS APOSTÓLICOS ROMANOS

A TFP é uma entidade cívica, e não religiosa. Seus diretores, sócios e militantes são, entretanto, católicos, apostólicos e romanos. E, em conseqüência, católica é a inspiração que os tem movido em todas as campanhas pela TFP empreendidas em bem do País.

A posição fundamentalmente anticomunista da TFP resulta das convicções católicas dos que a compõem. É porque católicos, é em nome dos princípios católicos, que os diretores, sócios e militantes da TFP são anticomunistas. A diplomacia de distensão do Vaticano com os governos comunistas cria, entretanto, para os católicos anticomunistas, uma situação que os afeta a fundo, muito menos enquanto anticomunistas do que enquanto católicos. Pois a todo momento se lhes pode fazer uma objeção supremamente embaraçosa: a ação anticomunista que efetuam não conduz a um resultado precisamente oposto ao desejado pelo Vigário de Jesus Cristo? E como se pode compreender um católico coerente, cuja atuação ruma em direção oposta à do Pastor dos Pastores? Tal pergunta traz como conseqüência, para todos os católicos anticomunistas, uma alternativa: cessar a luta, ou explicar sua posição.

Cessar a luta, não o podemos. E é por imperativo de nossa consciência de católicos que não o podemos. Pois se é dever de todo católico promover o bem e combater o mal, nossa consciência nos impõe que defendamos a doutrina tradicional da Igreja, e combatamos a doutrina comunista.

O mundo contemporâneo ressoa por toda parte com as palavras “liberdade de consciência”. São elas pronunciadas em todo o Ocidente, e até nas masmorras da Rússia… ou de Cuba. Muitas vezes essa expressão, de tão usada, toma até significados abusivos. Mas no que ela tem de mais legítimo e sagrado se inscreve o direito do católico, de agir na vida religiosa, como na vida cívica, segundo os ditames de sua consciência.

Sentir-nos-íamos mais agrilhoados na Igreja do que o era Soljenitsin na Rússia soviética, se não pudéssemos agir em consonância com os documentos dos grandes Pontífices que ilustraram a Cristandade com sua doutrina.

A Igreja não é, a Igreja nunca foi, a Igreja jamais será tal cárcere para as consciências. O vínculo da obediência ao Sucessor de Pedro, que jamais romperemos, que amamos com o mais profundo de nossa alma, ao qual tributamos o melhor de nosso amor, esse vínculo nós o osculamos no momento mesmo em que, triturados pela dor, afirmamos a nossa posição. E de joelhos, fitando com veneração a figura de S.S. o Papa Paulo VI, nós lhe manifestamos toda a nossa fidelidade.

Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos Pastores: Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe.

III – A SOLUÇÃO, NO APÓSTOLO SÃO PAULO

Sim, Santo Padre – continuamos – São Pedro nos ensina que é necessário “obedecer a Deus antes que aos homens” (At. V, 29). Sois assistido pelo Espírito Santo e até confortado – nas condições definidas pelo Vaticano I – pelo privilégio da infalibilidade. O que não impede que em certas matérias ou circunstâncias a fraqueza a que estão sujeitos todos os homens possa influenciar e até determinar Vossa atuação. Uma dessas é – talvez por excelência – a diplomacia. E aqui se situa a Vossa política de distensão com os governos comunistas.

Aí o que fazer? As laudas da presente declaração seriam insuficientes para conter o elenco de todos os Padres da Igreja, Doutores, moralistas e canonistas – muitos deles elevados à honra dos altares – que afirmam a legitimidade da resistência. Uma resistência que não é separação, não é revolta, não é acrimônia, não é irreverência. Pelo contrário, é fidelidade, é união, é amor, é submissão.

“Resistência” é a palavra que escolhemos de propósito, pois ela é empregada nos Atos dos Apóstolos pelo próprio Espírito Santo, para caracterizar a atitude de São Paulo. Tendo o primeiro Papa, São Pedro, tomado medidas disciplinares referentes à permanência no culto católico de práticas remanescentes da antiga Sinagoga, São Paulo viu nisto um grave fator de confusão doutrinária e de prejuízo para os fiéis. Levantou-se então e “resistiu em face” a São Pedro (Gal. II, 11). Este não viu, no lance fogoso e inesperado do Apóstolo das Gentes, um ato de rebeldia, mas de união e amor fraterno. E, sabendo bem no que era infalível e no que não era, cedeu ante os argumentos de São Paulo. Os Santos são modelos dos católicos. No sentido em que São Paulo resistiu, nosso estado é de resistência.

E nisto encontra paz nossa consciência.

IV – RESISTÊNCIA

Resistir significa que aconselharemos os católicos a que continuem a lutar contra a doutrina comunista com todos os recursos lícitos, em defesa da Pátria e da Civilização Cristã ameaçadas.

Resistir significa que jamais empregaremos os recursos indignos da contestação, e menos ainda tomaremos atitudes, que em qualquer ponto discrepem da veneração e da obediência que se deve ao Sumo Pontífice, nos termos do Direito Canônico.

Resistir, entretanto, importa em emitir respeitosamente o nosso juízo, em circunstâncias como a entrevista de Mons. Casaroli sobre a “felicidade” dos católicos cubanos.

Em 1968, o Santo Padre Paulo VI esteve na próspera capital colombiana, Bogotá, para o 39º Congresso Eucarístico Internacional. Discursando um mês depois, de Roma para o mundo inteiro, afirmou que ali havia visto a “grande necessidade daquela justiça social que coloque imensas categorias de gente pobre (na América Latina) em condições de vida mais equânime, mais fácil e mais humana” (discurso de 28/9/68).

Isto, no Continente em que a Igreja goza da maior liberdade.

Pelo contrário, Mons. Casaroli não viu em Cuba senão felicidade.

Diante disto, resistir é anunciar com serena e respeitosa franqueza, que há uma perigosa contradição entre essas duas declarações, e que a luta contra a doutrina comunista deve prosseguir. Eis um exemplo do que seja a verdadeira resistência.

V – PANORAMA INTERNO DA IGREJA UNIVERSAL

É possível que para alguns leitores brasileiros a presente declaração traga surpresa. É que, relutando ao máximo em tomar a atitude pública que hoje assumimos, a TFP não divulgou quanto de desconcerto e de inconformidade lavra entre católicos dos mais variados países em razão da distensão do Vaticano com os governos comunistas. E alongaria por demais este já extenso documento fazê-lo aqui. Cingimo-nos a resumir, a título de mais cabal explicação de nossa atitude, o que se passa presentemente entre os católicos germânicos. Disse-o no “Correio do Povo” de Porto Alegre (23/3/74) o ex-deputado federal alemão Hermnan M. Goergen, católico de pensamento e conduta serenos.

Refere ele o lançamento de dois livros de autores germânicos, sobre a política do Vaticano: “Wohim sterert der Vatikan?” (Para onde vai o Vaticano?), de Reinhard Raffalt, e “Vatikan Intern” (O Vaticano interno), publicado sob o pseudônimo de “Hieronymus”. Ambos encontraram tal ressonância que “estão na ordem do dia dos intelectuais e políticos alemães”. O Sr. Goergen considera a obra de “Hieronymus” satírica, hiper-crítica e exagerada. Pelo contrário, acha a de Raffalt, “sóbria”, com “teses bem fundamentadas”, inspiradas “em profundo amor à Igreja”. E Raffalt proclama: “O Papa Paulo VI é um socialista”.

O Sr. Goergen acrescenta que, pouco depois da divulgação da obra de primeira qualidade de Raffalt, um jornal alemão publicou uma caricatura mostrando Paulo VI a passear em companhia de Gromiko. Ao passarem por um quadro exibindo o Cardeal Mindszenty, Gromiko disse a Paulo VI: “Pois é, cada um tem seu Soljenitsin”.

Informa ainda o Sr. Goergen que um jesuíta alemão, Simmel, publicou no tradicional semanário “Rheinischer Merkur”, “conservador e defensor intransigente da Fé e dos Papas, uma crítica considerada por Roma até irreverente”, com o título: “Não, Senhor Papa!”. Afirma ainda o Sr. Goergen, a propósito da destituição do Cardeal Mindszenty: “Uma verdadeira onda de apoio (ao Cardeal) percorreu os católicos alemães”. A “Frankfurter Allgemeine Zeitung” falou abertamente dos “sonhos cristão- marxistas” do Papa Paulo VI. E a “Paulus Gesellschaft” (Sociedade de Paulo), porta-voz do diálogo entre cristãos e marxistas, condenou a “Ostpolitik” do Vaticano, denunciando-a como “maquiavelística” por querer “impor ao mundo uma paz romano-soviética”. Diante desta linguagem, mais facilmente ressalta quanto é comedida a da TFP.

Não podemos encerrar nosso comentário ao artigo do Sr. Hermann Goergen, sem ressaltar uma grave afirmação feita por este: Na Polônia como na Hungria, na Tchecoslováquia e na Iugoslávia, os contatos e acordos com a Santa Sé não impediram que continuasse intensa a perseguição religiosa. Também o afirmou, no tocante à sua pátria, o Cardeal Mindszenty.

Isto nos leva a uma perplexidade. A perspectiva de uma atenuação da luta anti-religiosa era o grande argumento (insuficiente a nosso ver) dos entusiastas da distensão vaticana. A prática mostra que tal distensão não alcança esse resultado, e favorece só a parte comunista. Cuba é um outro exemplo disto. E um autorizado promotor da distensão, como Mons. Casaroli, declara que, no regime de perseguição os católicos vivem felizes. Perguntamos então se distensão não é sinônimo de capitulação.

Se o é, como não resistir à política de distensão, apresentando-lhe de público o enorme desacerto?

É mais um exemplo de como entendemos a resistência.

VI – RÉPLICAS EVENTUAIS

Não é o caso de tratar aqui de outros assuntos que talvez sejam levantados de público a propósito da presente declaração. Referimo-nos mais especialmente a episódios dolorosos como o do Sr. Bispo de Nova Friburgo, que determinou a recusa da Comunhão Eucarística a sócios ou militantes da TFP, quando se apresentassem de modo notório, incorporados ou com as respectivas insígnias, bem como a fatos mais ou menos análogos ocorridos em igrejas de outros locais do Brasil.

Em artigo publicado na “Folha de S. Paulo” de 27/5/73, o Presidente do Conselho Nacional da TFP, teve ocasião de explicar que em certa matéria de índole essencialmente religiosa, sócios e militantes de nossa entidade têm – enquanto católicos – uma atitude tomada, sobre a qual só não se pronunciaram de público a pedido de altíssima autoridade eclesiástica.

Se as circunstâncias o indicarem, explicarão eles, – no uso da liberdade religiosa de que felizmente gozam, porque no Brasil não venceu o comunismo – qual a natureza do assunto e o fundamento de sua posição.

VII – CONCLUSÃO

Esta explicação se impunha. Ela tem o caráter de uma legítima defesa de nossas consciências de católicos, ante um sistema diplomático que lhes tornava irrespirável o ar, e que aos católicos anticomunistas coloca na mais penosa das situações, que é a de se tornarem inexplicáveis perante a opinião pública. Repetimo-lo, a título de epílogo, ao encerrar esta declaração.

Nenhum epílogo entretanto seria completo se não incluísse a reafirmação de nossa obediência irrestrita e amorosa não só à Santa Igreja como ao Papa, em todos os termos preceituados pela doutrina católica.

Nossa Senhora de Fátima nos ajude neste caminho que trilhamos por fidelidade à Sua mensagem e na alegria antecipada de que se cumprirá a promessa por Ela feita: “Por fim, o meu Imaculado coração triunfará”.

São Paulo, 8 de abril de 1974

Salve Maria!

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