Saint-Simon, Lenôtre, papel das ocasiões na cortesia, fatinhos sobre caridade – Plinio Corrêa de Oliveira

13-3-1969 RNO.

Com a presença prestigiosa de D. Pedro Henrique, então chefe da casa Imperial do Brasil.

Dr. Plinio (1908-1995) foi um advogado, catedrático de história na PUC-SP e autor de inúmeros livros, traduzido para diversas línguas. Mais conhecido por ter presidido a TFP, associação de inspiração católica que inspirou outras similares em inúmeros países.

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Santa Bibiana, rogai por nós!


Os senhores querem ver como isso é católico e como isso se conservou na Igreja? Basta os senhores considerarem o seguinte: um bispo quando se paramenta, um papa quando se paramenta. Era uma honra ajudar o bispo a paramentar-se. Era uma honra ajudar o Papa a paramentar-se. E eram, altos prelados escolhidos para isso, que ajudavam para isso. Por quê? Porque era a expressão hierárquica do serviço.

Quer dizer, era toda, portanto, uma sociedade na qual essa hierarquização se fazia de um modo muito pronunciado, de um modo muito acentuado, que condicionava todos os costumes.

Agora, as ocasiões. Não falo mais de graus, mas as ocasiões: quando se tratava de fazer… Havia uma distinção muito forte entre três ocasiões: as ocasiões de gala, as ocasiões solenes; depois, as ocasiões de cerimônias e as ocasiões comuns.

A ocasião de gala – que é o que Saint-Simon chama de “ceremonie”, que não tem em português propriamente o sentido da cerimônia francesa – era, por exemplo, para fazer uma visita a um personagem de alta categoria, em grandes circunstâncias da vida dele. Por exemplo, luto, um grande luto. Então, havia o traje de corte para isso, que é um traje particularmente brilhante. Alguns trajes de corte eram até arcaicos, capas, mantos, com lacaios carregando etc., etc.

Depois, as visitas propriamente de cerimônia correspondem ao que se chama uma visita de cerimônia, ainda hoje. Quer dizer, visitas a pessoas que a gente conhece pouco, e que são de muita distinção.

Depois, a intimidade no trato comum.

A ideia falsa que a pessoa tem é que, nas ocasiões de gala, as pessoas tomavam uns ares mais arrogantes. Essa é a gala do cafajeste. Na ocasião de gala, a pessoa tomava um ar solene; mas era, exatamente, quando a maior amabilidade se supunha, da parte das pessoas. Era a ocasião de ser mais amável; não de ser mais arrogante. Todo mundo tem ideia de que isso é arrogância.

Uma era a atitude do homem na ocasião de gala, quer dizer, pêsames de gala: havia um traje especial, havia um modo especial de cumprimentar, reverências especiais; tudo era especial para essa ocasião.

Outro era para fazer os mesmos pêsames para uma pessoa de categoria menor, para a qual a gala não se punha. Já é coisa muito menor. Quer dizer, tudo era graduado conforme as circunstâncias.

Os senhores encontram aí uma diferença profunda no trato de hoje em dia, evidentemente. E encontram a seguinte ideia: quanto mais eu admiro uma pessoa, por alguns desses títulos, mais eu devo me inclinar diante dela. Essa ideia é desconcertante para o moderno. Agora aqui entra o desconcertante. Quanto mais eu me inclino diante dela, tanto mais eu participo dessa coisa boa que tem nela. Isso que é desconcertante para o moderno.

Eu dou aos senhores uma aplicação. Os senhores imaginem uma pessoa que fosse falar com, não sei, vamos tomar uma figura do tempo de Luís XVI, que era muito admirado no tempo de Luís XVI, talvez exageradamente, Bailli de Surenne; era grande navegador lá das Índias etc., e considerado um herói. Quando ele chegou à corte de Luís XVI, depois de ter sido feita a navegação dele às Índias, ter tomado colônias aos ingleses etc., etc.; contra todo o protocolo da Corte, o irmão do rei, conde de Artois, levantou-se para falar com ele, falou com ele de pé, como se ele fosse um príncipe. A ideia era que o conde de Artois, fazendo isso, não se rebaixava, mas mostrava compreender o valor do homem. E mostrando compreender o valor do homem, tinha algo do valor do homem; porque aquilo que a gente compreende e admira, tem algo daquilo.

Não sei se exprimo bem essa ideia, ou deveria exprimir melhor. Se não estiver clara, dou um outro exemplo, talvez fique mais clara a ideia.

Os senhores tomem uma pessoa, por exemplo, que vai tratar com um grande pintor. A pessoa trata o grande pintor com todas as atenções devidas a um grande pintor. A ideia que dá é de que essa pessoa compreende o valor de uma grande pintura; já que respeita tanto um grande pintor é porque compreende o valor de uma grande pintura. E se compreende o valor de uma grande pintura, é porque algo do valor da grande pintura existe nela; porque quem entende de uma grande pintura tem algo do valor de um grande pintor e de uma grande pintura. Não sei se está claro o exemplo, ou se queriam que eu explicasse melhor.

Então, mostrar, ter o respeito para tudo quanto é respeitável e sua admiração para tudo quanto é admirável, é crescer até essas coisas; não é diminuir. Isso está claro para a geração muito nova, ou deveria explicar melhor?

Então, também, quem soubesse tratar uma rainha com aspecto muito nobre, muito elegante, como era Maria Antonieta; quem soubesse tratar Maria Antonieta, inteiramente como ela devia ser tratada, dava provas de que era um homem de Corte, que sabia o apreço que se devia dar a uma pessoa como ela e, portanto, entrava, um tanto, na linha dela. Quem faltasse com o respeito para ela, não era tido como um colosso, era tido como um cretino.

[…] que entrou para falar com a rainha Elisabeth e deu um “shake hand” e ficou sorrindo. Há pouco eu comentei. Isso, antigamente, diriam: Que horror! Que besta quadrada! Ele não entende que é uma rainha?!

Na mentalidade moderna, não. Ele achatou a rainha. Então é um colosso! Não sei se os senhores percebem a inversão completa de ideias que entra nisso.

Daí também o fato de que as reverências mais profundas, que indicavam maior respeito eram aquelas que eram feitas pelos homens de Corte, os fidalgos. Era porque eram homens que sabem respeitar, que tem a arte do respeito.

Para acabar a parte do respeito, eu diria o seguinte: é que isso só existe numa sociedade quando existe exatamente esse conjunto de virtudes, ao menos em estado de tradição; senão por princípio, pelo menos como reflexo. No tempo de Luís XIV, isso como virtude, já estava se enfumaçando; mas como reflexo, ainda existia. Era um hábito bom que resultava de um tempo anterior onde houvera virtude. Não se pode dizer que essa virtude houvesse no tempo dele, mas era uma tradição que restava. E que é o bom impulso de todo mundo, por humildade, por justiça de admirar tudo que é admirável. Que é o contrário do espírito igualitário moderno.

Agora, quanto ao afeto. As pessoas que imaginam que a cortesia do Ancien Régime era uma cortesia puramente feita de sorrisos, não entendem nada do negócio. Era uma cortesia que dava, verdadeiramente, trabalho.

Um exemplo que o Saint-Simon conta, naturalmente exemplo raríssimo. Luís XIV foi passar uma noite, ou uns dias não me lembro bem, no castelo do Duc d’Antin, que era um filho da madame de Montespan. E então o duque d’Antin fez a ele as honras do castelo, mostrou onde era, enfim, Luís XIV olhou pela janela e viu uma fileira de árvores e disse o seguinte: “É bonita a fileira” – uma alameda, árvores de um lado e de outro – “mas ela ficaria mais bonita ainda se fosse em tal lugar assim”. O duque d’Antin não disse nada. Na manhã seguinte, quando o rei acordou, as árvores estavam na outra fileira. Para fazer a vontade do rei.

Quer dizer, ele mandou gente trabalhar a noite inteira. O Saint-Simon não indica se mandou serrar as árvores e espetar no chão no outro lugar, ou se mandou extirpar as árvores, mas – não é com qualquer árvore que a extirpação é possível – na manhã seguinte as árvores estavam do outro lado. Os senhores podem imaginar o gasto, o trabalho, a amolação; ficar a noite inteira, acordado, vigiando etc., etc., era apenas para determinar um sorriso do rei.

Os senhores vão dizer: “Bajulação!” Pode ter entrado bajulação, mas quem leve isso meramente à conta de bajulação, não compreendeu o prazer de fazer prazer, que era uma das molas da vida de antigamente.

Isso que, naturalmente, com o rei tomava esses casos extremos, citam-se cem exemplos de outra natureza em casos menores.

Alguém que elogia um objeto qualquer de uma casa em que está em visita, toma a carruagem para voltar para sua própria casa e, quando chega em casa, encontra aquele objeto lá. O dono tinha mandado a cavalo, mais depressa. Era um presente, para fazer uma gentileza. Perdeu o objeto, e o objeto custa dinheiro. Mas era o prazer de ter causado prazer.

A arte, por exemplo, das festas de improviso. Receber um visitante ilustre no seu castelo, – o castelo é sempre no campo, com um parque etc. – receber um visitante ilustre no seu castelo, improvisar festas de que ninguém pensou, novas completamente, e preparadas com meses de antecedência, originais para aquele homem.

Então, por exemplo, está se recebendo um general; termina o jantar, o dono do castelo diz: “general, vamos passear um pouco pelo parque?”

Em um dos passeios pelo parque, de repente, de um lugar, pulam vários soldados com o mesmo fardamento com que estava a guarda dele no dia em que ele ganhou tal batalha. E prestam a ele a honra. Ele pensa que é tudo. Não! Uma orquestra está perto, toca uma música que é a marcha daquele dia e, depois, aparece um ator da “Comedie” ou uma atriz, e recita uma poesia original para a ocasião, elogiando o feito dele em tal batalha.

Quer dizer, os senhores estão percebendo: isso foi pensado meses antes, deu trabalho, deu despesa. Mas não se diz o que se diria hoje: que abacaxi receber um homem desses! Mas, pelo contrário, há uma alegria em causar alegria.

E isso é assim, mais modestamente, em todas as categorias sociais. Faz parte da “douceur de vivre” [doçura de viver]. Eu me lembro, num livro do Lenotre, chamado “Gens de la Vieille France”, há um capítulo especialmente consagrado a essa “douceur de vivre”. Ele conta, por exemplo, casos assim. Uma pessoa que vai a um hotel em Calais – é um porto aonde se chega vindo da Inglaterra – desce um inglês, – que conta isso nas memórias dele – mas é um “quidam” qualquer, num hotel qualquer. E elogia muito um vinho que se serve. Naquele tempo, quem viajava de carruagem levava um farnel com garrafas, com uma porção de coisas. Quando o sujeito abre, encontra três, quatro, meia dúzia, daquelas garrafas, que o hoteleiro tinha mandado pôr, sem cobrar, dentro da carruagem para o homem; pelo prazer de ser amável! Mais nada! Contam-se milhares de fatos assim.

E o presente! O presentear recíproco chega a ser um hábito comum da vida.

Outra coisa: hospedar-se na casa dos outros. O hotel era raríssimo naquele tempo. As pessoas, quando iam a Paris, se hospedavam nas casas das que tinham casa. As casas tinham um quarto de hóspedes; e era normal, quase o ano inteiro, ter hóspedes presentes, tratados o tempo inteiro com a maior distinção, a maior gentileza; e, quando iam embora: presentes. O hóspede também, ao ir embora, deixava presentes.

Um caso que diz tudo. Uma duquesa – não me lembro qual era, creio que contei esse caso aqui – numa noite, ela dormiu e, entre a cabeceira da cama dela e a parede, havia um cortinado; quando despediu sua criada, ficou sozinha – os senhores têm que imaginar aquelas camas esplêndidas, com degraus, com aquele dossel com plumas etc. – ela vê que alguém se move atrás da cama. Susto! Aparece um homem com uma pistola na mão e diz: “Não se mexa!” E diz: “Madame, eu sou Cartouche” – Cartouche era o mais célebre bandido da época – “eu estou morrendo de fome, a senhora vai mandar vir coisas para comer; e champanhe, porque quero beber champanhe. Eu vou me esconder atrás da cortina, a senhora toca a campainha, chama sua criada, manda servir essas coisas. Manda a criada embora, se tranca e, quando a senhora estiver trancada, eu vou comer”.

Havia uns cordões que passavam pelo teto e tocavam um sino, não havia eletricidade. “Paam”! Chega a criada. Ela: “Olha, me traga perdizes, não sei mais o quê etc., e champanhe. Eu estou com fome”. A criada terá ou não terá estranhado, não sei… Naturalmente trouxe o que ela mandou. Ela foi, levantou, trancou, e disse ao Cartouche: “Coma!” Ele comeu.

Comeu e prometeu enviar a ela um presente. No dia seguinte chega em casa dela um caixote de magníficas caixas do melhor champanhe que Cartouche mandava para a duquesa. Aí os senhores compreendem todo o resto. Até onde essas coisas entranhavam a vida.

Ela foi e bebeu o champanhe. Não teve, por exemplo, medo de que estivesse envenenado, o que se teria hoje. Bebeu o champanhe, estava ótimo etc., etc. A polícia soube, veio fazer investigação de onde é que vinha esse champanhe. Resposta: tudo indica que tenha sido roubada de tal magistrado assim, do presidente do que seria o Supremo Tribunal do tempo, o Parlamento de Paris. O presidente do Supremo Tribunal – menos elegante do que o bandido – move um processo à duquesa para obter indenização por ter bebido o champanhe dele. E ela bate o pé e diz que não está provado que isso era dele. E sai um processo, cujo desfecho eu não conheço. Cartouche tinha mostrado até onde ia o gosto do presente e da delicadeza do Ancien Régime.

Para quê um bandido fazia isso? Era um bandido, acabou morto, e merecia a morte que teve. Mas é um tal hábito da doçura de viver, que por um impulso natural, o bandido tem reflexo de gentil-homem. Eu creio que poucos casos poderiam dizer tão bem aos senhores até que ponto essa impregnação do respeito, da admiração e da suavidade de vida penetrava nas camadas mais degeneradas da sociedade. É uma espécie de triunfo disso, que é uma flor da civilização cristã, penetrar até na alma de um bandido.

Os senhores dirão: – “Ih, que coisa horrorosa Dr. Plinio está dizendo! Olha aí! Virtude num bandido!”

Agora pergunto: se eu dissesse: “Um bandido não tem nenhuma virtude”. – Que coisa horrorosa! – [diria] a mesma pessoa – Está dizendo que um bandido não tem virtude!

É ou não é verdade? Porque essa é a cabeça cretina do “heresia branca”. É tonto na ida e na volta. Não se aproveita para nada. É uma besta. Por quê? Porque virtude teológica verdadeira, o bandido não tem; se ele está em estado de pecado mortal, o bandido não tem. Mas pode ter bons hábitos e hábitos dignos de louvor. Por exemplo, os bandidos da Calábria que faziam esmolas com o dinheiro que roubavam. Roubar é mal-feito. Mas ter compaixão dos que precisam, é bem-feito. Isso que alguma pessoa dirá: “Pobre homem! Vai ver que tem mais caridade do que muito banqueiro!” Eu posso dizer, do Cartouche, que tinha mais cortesia do que muito burguês. Por que não? Está dito. Os senhores sabem qual é o reflexo de “heresia branca quando ouve isso? Ele fica com um nó, enjoado, embrutecido, não tem argumentos, se encafifa. Conseqüência: “Dr. Plinio é orgulhoso. Pronto!” Está aí uma bela resposta…

Bem, aqui fica uma comparação entre o Cartouche e o democrata cristão.

Está terminada uma ligeira exposição do Saint-Simon. Nós vamos passar às notícias do dia.

(Pergunta inaudível)

Por mais singular que seja, o senhor sabe bem toda a admiração que tenho pela Europa. A gente deve reconhecer que em algumas coisas da Europa, para alguns efeitos da Europa, existe qualquer coisa de barbárie, que se prolongou durante muito tempo com uma tal ou qual inocência.

Por exemplo, coisa chocante, desde os primórdios da monarquia capetíngea, a rainha devia dar à luz a criança, em público, e entrava no quarto dela quem quisesse; quem quisesse absolutamente; para ter certeza de que aquele era o herdeiro do trono, porque, enfim eram sempre pessoas capazes de herdar o trono. Agora, imaginem aquela carinha de criança… Como é que se podia reconhecer, depois, de um outro? Eu vejo nisso uma certa barbárie. Que é barbárie é porque vem desde o tempo dos bárbaros, por uma continuação ininterrupta. Eu acho que aqui está dito tudo. Há mais alguma pergunta? Alguma pergunta, meus caros?

(Pergunta: e aquela cortesia chinesa…)

Houve várias escolas de cortesia muito quintessenciadas. Houve a cortesia bizantina, houve a cortesia chinesa, japonesa – mais a chinesa do que a japonesa. Os romanos e gregos tinham certas fórmulas de cortesia. Mas o próprio de todos esses produtos nesses povos pagãos é de eles serem muito quintessenciados em algum ponto e apresentarem lacunas enormes em outros pontos. Em geral, o que a gente encontra, entre outros pontos de lacuna em todas essas outras escolas de cortesia antiga, é uma manifestação de respeito que se tributa muito mais ao poder do que verdadeiramente ao valor pessoal. Quer dizer, era objeto da cortesia quase exclusivamente aquele que tinha o poder político na mão; a cortesia voltada para o homem célebre, para o homem ilustre, muito menos.

Em Roma, na Grécia, por exemplo, havia matemáticos célebres, cientistas célebres que eram escravos; tratados como escravos e vivendo na senzala junto com escravos. Sem mais nem menos. E passando da matemática para limpar fechaduras e – não sei, – para tirar manchas de roupa; e voltando para a matemática. E não se tinha ideia de que uma monstruosidade dessa era uma injustiça. Às vezes, chegando até a divinização das pessoas. Tratando como deus, como semi-deus, etc. Então, com manifestações de respeito exageradas, até inumanas.

FIM DA GRAVAÇÃO PUBLICADA

O exagero, então, do salamaleque, por exemplo, que já perde a proporção que existe entre um homem e outro homem, por mais desiguais que sejam.

IMPORTANTE, PORÉM, FORA DO ÁUDIO OBTIDO

(Pergunta inaudível)

O espírito medieval, no fundo, era muito mais hierarquizado que o espírito do Ancien Régime. A única coisa que tem é que não houve tempo de se destilar tudo isso. A Idade Média morreu quando muitas dessas coisas ainda não estavam destiladas. Razão pela qual elas vieram se fixar depois, e, então, com uma certa nota mundana de gozo do prazer pelo prazer, e de vaidades que é o lado censurável dessas coisas. Entrou, então, muito. Vamos dizer, para a gente ter ideia do que seria a cortesia perfeita, seria preciso tomar o espírito sacral da Idade Média, imaginar como essas coisas teriam sido despidas do mundanismo que tinham nos tempos modernos. É uma ginástica de espírito difícil de fazer, mas que se pode chegar a entender.

(Pergunta: na questão da cortesia é preciso levar em conta também a virtude da pessoa, não?)

Ah! certamente e muito! Mas como a virtude, o saber – o talento e o saber estão na mesma ordem – depois, o nascimento, quer dizer, a condição social hereditária ou nova – porque eles promoviam muito os plebeus a nobres – eram como que tabelas de valores especiais dos quais a gente poderia ter hoje ideia os senhores imaginando, por exemplo, o trato que se daria a dois embaixadores, dos quais um é um homem de virtude insigne e o outro um homem de virtude comum.

Há uma coisa que se dá a um embaixador e que se daria a ambos; mas há uma outra coisa que se dá à virtude, e que se daria a um muito mais do que ao outro. A gente saberia como graduar – mesmo na pobreza de fórmulas de hoje – saberia como graduar isso. Sabendo bem que não se poderia dizer o seguinte: “Como tal porteiro de hotel é mais virtuoso que o embaixador, eu vou tratar, dando precedência a ele sobre o embaixador”. Isso seria uma fórmula revolucionária. Mas há uma forma de honra que, ainda hoje, uma pessoa educada sabe atribuir à virtude, e que não é a mesma que se atribui ao cargo. Isso, naquele tempo, um homem compunha ainda com mais arte do que hoje.

Não sei se eu respondo bem a sua pergunta. É por meio dos mil imponderáveis que formam o trato.

(Pergunta inaudível)

É curioso. Eu não conheço a liturgia oriental, nem história da liturgia para lhe dar uma resposta precisa. Mas, a primeira impressão que me dá o fato, é exatamente uma certa simplicidade meio patriarcal, meio pastoril. E é até bonito que tenha sobrevivido, porque essas reminiscências são tocantes, são bonitas.

(Pergunta inaudível)

É uma coisa que chama a atenção. Eu creio que a ideia de feudalismo entra muito nisso. Quem participa da condição de alguém, o serve; e o paramentando, quase que o integra. Eu tenho a impressão de que, no Oriente, isso é certo, não floresceu feudalismo nenhum. São civilizações sem feudalismo. Talvez isso tenha concorrido para o caso, no Oriente Médio e Próximo.

Saint-Simon, cortesia suscitada pela Igreja, senso de justiça e hierarquia social – Plinio Corrêa de Oliveira

13-3-1969 RNO.

Com a presença prestigiosa de D. Pedro Henrique, então chefe da casa Imperial do Brasil.

Transcrição:

Quadro: casamento de Luís XIV

Dr. Plinio (1908-1995) foi um advogado, catedrático de história na PUC-SP e autor de inúmeros livros, traduzido para diversas línguas. Mais conhecido por ter presidido a TFP, associação de inspiração católica que inspirou outras similares em inúmeros países.

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Santa Bibiana, rogai por nós!


Saint-Simon (Louis de Rouvroy, duque de Saint-Simon 1675-1755) – acho que os senhores todos sabem disso – era um duque da Corte da Luís XIV e escreveu memórias caudalosas: oito volumes em papel de arroz, com umas mil e cem páginas cada volume. E quase que cada página contendo várias joias. Na França todo mundo lê Saint-Simon. É um escritor que não escreve muito bem, quer dizer, gramaticalmente falando pode-se fazer dele toda espécie de objeções. Mas ele é, apesar disso, um dos grandes escritores da língua francesa, porque é fraco na gramática, mas fortíssimo na literatura.

Ele tira de cada palavra um efeito extraordinário e quando não tem uma palavra adequada para dizer o que quer, ele cria um neologismo e põe o neologismo em circulação. Mas pela etimologia da palavra a gente percebe o que ele quer dizer e percebe que aquele neologismo era indispensável para o pensamento dele.

Um observador finíssimo, um homem capaz de, pelas minúcias, tomando em consideração minúcias, fazer interpretações muito sagazes. Mas, de outro lado, não era nem um pouco um pensador. Era um homem muito hábil no descrever, mas não tinha doutrina, não tinha grandes princípios. Tanto é que, quando a gente vai ver o furor dele contra as coisas do tempo dele, de algum modo, toma o que a política do rei Luís XIV tinha de igualitário. E ele pega com muita sagacidade a linha igualitária da política absolutista de Luís XIV.

Mas, quando a gente se pergunta até que ponto ele, Saint-Simon, tem uma filosofia anti-igualitária, que isso corresponde a uma doutrina? Não se vê claro a doutrina nele. E se a gente pergunta qual seria a sociedade ideal para ele, a gente tem a impressão de que, para o mundo corresponder ao ideal dele, era só dar alguns privilégios honoríficos aos duques, a cuja categoria pertencia ele, e acharia que estava tudo resolvido. Quer dizer, é um homem extraordinário no descrever, mas não é, de nenhum modo, um pensador, não é um homem de doutrina. É apenas um grande pintor de costumes de uma época. É o que foi nas memórias dele.

Agora, através da pintura, percebe-se a época e, então, descrita genialmente.

E passa também a cortesia. E é isso a cortesia no Grande Século, do século de Luís XIV. Quer dizer, a cortesia francesa quando atingiu talvez o seu auge.

Pode-se discutir se foi no tempo de Luís XIV ou no tempo de Luís XV. A meu ver, no tempo de Luís XV ela foi uma cortesia mais delicada. No tempo de Luís XIV foi uma cortesia mais elevada. Mas, sem dúvida, o ápice da cortesia francesa se deu nesses dois reinos: no reinado de Luís XIV e no reinado de Luís XV. Ele pegou o reinado de Luís XIV e uma parte do reinado de Luís XV. Portanto, está extraordinariamente bem situado para descrever isso.

Eu não posso aqui fazer o que tenho [de] material feito para isso, que é tomar o Saint-Simon – que tenho todo anotado – e começar a dar para os senhores as cenas. Porque, para fazer a seleção das cenas, eu deveria ter uns 15 dias de trabalho, sem interrupção. Por outro lado, precisaria, para depois [de] dar as cenas, dar um simpósio; porque são tantas e constituem, no seu conjunto, uma coisa tão rica que são quase indissociáveis umas das outras, as cenas de cortesia.

De maneira que tenho que me reportar, mais ou menos, às ideias correntes que existem sobre a cortesia do “Grand Siècle”, e fazer uma análise e interpretação doutrinária dessa cortesia, com um objetivo que vou expor daqui a pouco.

A única coisa que eu queria dizer, para explicar um ou outro comentário que vou fazer, é que essas maneiras não morreram nos séculos XVII e XVIII; tiveram uma espécie de sobrevida depois da Revolução Francesa e chegaram, de algum modo, em alguns ambientes, alguma coisa delas chegou até nossos dias. De maneira que eu ainda pude conhecer algumas pessoas que tiveram cortesia à antiga e que eram pálido reflexo da velha cortesia do “Grand Siècle”.

De maneira que, às vezes, poderei, num comentário, distraidamente, citar quer um fato do século XVIII, quer um fato do século XIX, quer um fato de autoria de pessoas que viveram no século XX, mas que se formaram ainda de acordo com a escola do século XIX. Porque essa é uma tradição que foi se depauperando ao longo dos tempos, mas que foi vivendo e, enquanto viveu, foi linda! Hoje, um ou outro raro sobrevivente conserva essa tradição, mas é uma coisa que a gente tem que procurar com não sei que lente de precisão para encontrar. De maneira que, então, um ou outro comentário que eu faça sobre fatos mais recentes, deve reportar-se a isso como sendo continuação de uma determinada tradição.

Eu queria fixar a importância desse comentário. A importância desse comentário é, em primeiro lugar, de dar uma compreensão do que seja a verdadeira cortesia para nós termos em vista o mal que a Revolução faz ao mundo eliminando a cortesia. Porque a gente pode dizer que a cortesia está quase eliminada do mundo de hoje.

De outro lado, entretanto, há uma coisa que apresenta um interesse maior e eu queria insistir nesse ponto. E é o seguinte: é que, através disso, nós conhecemos melhor a doutrina católica.

Um dos modos melhores pelos quais eu cheguei a conhecer a doutrina católica foi exatamente esse: tomando as coisas como eram nos séculos em que a Igreja influenciava os costumes, tomando esses costumes, estudando e procurando explicá-los pela doutrina católica. Quer dizer, pondo-me, a mim mesmo, a seguinte pergunta: em que sentido, de que maneira, em que termos é que isto, que nesse século se praticava, deve ser entendido como uma expressão da doutrina católica?

Depois de me ter dado essa resposta a essa pergunta, eu então passava a outra parte do estudo: o que quer dizer a Igreja quando Ela diz tal coisa? Não quer dizer o que o “heresia branca” diz, mas quer dizer tal coisa assim.

Vou dar aos senhores um exemplo, e os senhores entenderão perfeitamente.

Os senhores tomem o seguinte. Os senhores encontram um número enorme de padres que dizem o seguinte: a senhora dona de casa deve levar a afabilidade para com suas empregadas tão longe quanto possível; e, fazendo assim, ela pratica um ato de caridade cristã.

O princípio, formulado como está, coloca a alma do católico numa espécie de bipartição. Porque, de um lado, a afabilidade é uma virtude; e toda virtude deve ser levada tão longe quanto possível. Logo, a dona de casa deve ser tão afável quanto possível com a empregada. Então, o princípio é verdadeiro.

De outro lado, nós sentimos bem que, se for ser afável como o padre recomenda, a dona de casa se nivela completamente com a empregada. E que, ele no fundo, sob a fórmula afabilidade, de fato está recomendando uma equiparação na igualdade.

Nós ficamos sem saber como é que o princípio se aplica; o que o princípio quer dizer, praticamente.

O mesmo se pode dizer da afabilidade do professor com os alunos. O professor não deve ser tão afável quanto possível com aos alunos? Deve. Porque a gente deve ser tão afável quanto possível com todo o mundo. Mas, se o professor for ter com os alunos todas as formas e graus de afabilidade, o aluno monta no professor. Agora, então, é caridade cristã deixar-se montar?

Resposta do padre: “É. Tenha pena dele, coitado! Trate com bondade, com mansidão. Não seja orgulhoso querendo afirmar sua superioridade de professor, porque assim você terá imitado Nosso Senhor Jesus Cristo, que se deixou esbofetear e arrastar etc., etc.”

A gente fica assim: “Bom, mas enfim, como é? Eu não vou imitar Jesus Cristo? Jesus Cristo, de fato, não fez isso?”

Então, qual é o modo que a gente tem? É procurar ver, na época era que havia uma civilização cristã, qual era a afabilidade dos patrões com os empregados, para ver como é que esse princípio se entendia. Daí, a gente vai ler o Catecismo e entende de um outro modo do que está nos subentendidos de hoje; não no que está expresso, mas no que está oculto hoje.

Eu me lembro, por exemplo, de ter visto várias vezes minha avó, que era uma senhora muito imponente, ela era imponente até cochilando na cadeira de balanço, – que é uma cadeira de balanço que está hoje no meu escritório – ela era incapaz de deixar cair a cabeça de um modo que não fosse correto. Quando deixava cair, por negligência, um chale, o chale caía no chão de modo bonito! Eu não sei o que acontecia com ela; mas, comigo, por exemplo, se eu tiro o capote, o capote cai de um modo horrendo! Se ela tirava, aquilo caía… Ela fazia crochê: rolava no chão aquele novelo, rolava de um modo bonito, formava um fio bonito. Tal era o modo de ser dela, que tudo nela caía com harmonia.

Quantas vezes vi minha avó – umas dez vezes, mais – sentada, com aquela linha dela, fazendo crochê e conversando com uma preta, preta como piche, que foi escrava dela, ali junto. Eu já contei essa cena aqui várias vezes. Mas precisava ver como ela conversava e como conversava a preta. Como a preta conversava com veneração com ela e como ela tinha bondade com a preta. Como a afabilidade dela era uma afabilidade que descia das nuvens, por circuitos cada vez mais largos, até tocar a preta. Embora as duas estivessem sentadas a um metro uma da outra ou um pouco mais, que distâncias históricas, que distâncias culturais, que distâncias psicológicas havia entre ambas e como ambas respeitavam essas distâncias!

Então, eu compreendi como é que se pode levar tão longe quanto possível a afabilidade com uma empregada! Quer dizer, a gente, conhecendo o passado, interpreta melhor o princípio do Catecismo de nossos dias.

Esse processo de reconstituição catequética está claro, ou alguém gostaria de me fazer alguma pergunta a esse respeito? Quem quiser, estou à disposição.

(Aparte: Houve um caso no colégio em que eu estudei que mostra bem (?).

Aí que está! É sempre assim. A autoridade que não se respeita, se deprecia. E o que se deprecia dá nojo, e é pisado ao pé pelos outros. Não tem conversa.

Então aqui vem a necessidade, a conveniência de uma explicação da cortesia antiga, com os princípios doutrinários que estão por detrás, porque, então, a gente compreende melhor a doutrina da Igreja.

Então, são dois objetivos que tenho em vista. O primeiro objetivo, mais próximo, é a valorização da cortesia na qual, hoje em dia, se tem a tendência a ver apenas um conjunto de fórmulas peremptas. A outra coisa é o método de elucidação da doutrina católica através do exemplo histórico. Aqui é um exemplo de aplicação desse método. São as duas coisas que pretendo desenvolver hoje à noite.

O que eu quero dar a entender por cortesia? A cortesia, hoje em dia, é entendida num sentido muito estrito. – Pensei em escrever no quadro-negro, mas tenho impressão que dando bem esquematicamente dispensa o quadro-negro. Dei, portanto, o sentido, qual é o interesse da matéria. Agora vou dar a definição do vocábulo sobre o qual vou fazer o estudo.

A cortesia, hoje, é tida, ao menos aqui no Brasil, – eu sei se a palavra existe em castelhano, mas não sei bem que sentido tem em castelhano – aqui no Brasil, na linguagem contemporânea, conterrânea, a cortesia é uma expressão que significa um conjunto de fórmulas que a gente emprega – fórmulas convencionais, o mais das vezes – que a gente emprega no trato com os outros. Além das fórmulas, a palavra cortesia tem um sentido um pouco mais largo: é um conjunto de atitudes. Por exemplo, a cortesia manda que a gente receba uma pessoa em casa com expressão afável, risonha. Não é uma fórmula, mas é uma atitude.

Eu tomo a palavra cortesia num sentido mais amplo: a cortesia é uma excelência no trato com as pessoas. Não é, portanto, apenas um conjunto de fórmulas ou de atitudes, mas é todo o trato. O ter um trato excelente com as pessoas, isso se chama cortesia.

Como os senhores estão vendo, a cortesia é muito mais do que uma simples polidez, porque o que acabo de dizer em cima é a polidez. A cortesia hoje se identifica com polidez.

Mas a cortesia, no sentido mais profundo da palavra, é muito mais do que isso. É, ao tratar a pessoa, saber tratá-la excelentemente.

O que isso importa? Importa em conhecer inteiramente a situação da pessoa a quem eu trato. Depois, conhecer a minha própria situação, sem megalice, bem entendido. Depois, conhecer a ocasião em que estou tratando com a pessoa. Quer dizer, se é um trato de negócios, se é um encontro formal, se é um encontro fortuito na rua, se é uma visita de pêsames, se é uma visita de felicitações etc. Quer dizer, eu tomar consciência da ocasião em que estou tratando com a pessoa. Tomar em consideração os antecedentes de minhas relações com a pessoa. E tomado tudo isso em conjunto, tratar a pessoa excelentemente. Quer dizer, ter uma atitude perante a pessoa, todo meu comportamento perante ela ser excelente. Isso é cortesia.

Como os senhores estão percebendo, a cortesia supõe, portanto, muito pensamento; quer dizer, supõe muito a análise da vida. A verdadeira cortesia supõe, da parte da pessoa, uma verdadeira análise da vida.

Um exemplo entre mil outros. A gente encontra, por exemplo, um militar que se tornou ilustre na guerra, um general que brilhou na guerra. Mas esse general ainda está na força da idade e está dormindo sobre seus louros. A gente trata esse general de um modo. Outra coisa é esse general tendo atingido uma idade provecta, já tendo entrado para a história, estando também meio velho. A gente trata o general de outro modo. Há um certo modo mais afável, um certo cuidado – há uma expressão francesa que é especial para isso, certo “menagement”, não sei bem como traduzir isto – que se deve ao mesmo homem em circunstâncias diversas da vida dele. Mudaram as circunstâncias, mudou o trato. A gente tem que conhecer tudo isso, analisar tudo isso, saber de que peso é tudo isso para saber tratar cada um como deve. Isso é o pressuposto da cortesia.

Nós vemos desde logo que a cortesia é uma virtude inerente às sociedades não igualitárias; ela não é possível nas sociedades igualitárias. Porque o igualitarismo é fazer tabula rasa de tudo isso. O igualitário não toma nada disso em consideração. Depois, nas sociedades igualitárias, os velhos querem parecer moços, os moços querem parecer crianças; quer dizer, toda a tabela de valores é contestada e invertida até. Resultado, as situações não existem, ou quase não existem, e a cortesia se torna quase completamente impossível.

Quer dizer, a cortesia é um procedimento no qual entram três virtudes católicas. Primeira, é a humildade. Mas em que sentido da palavra humildade? Nesse sentido: a humildade é a verdade. Não no sentido de dizer: “eu sou o último dos homens, sei que valho tão pouco quanto um lixeiro”. Eu sei que não é verdade! Quer dizer, é saber, a meu respeito e de cada um dos outros, a verdade. “O que é que sou? O que ele é? Qual é a situação em que nós estamos?” Etc. etc. Quer dizer, começa pela humildade nesse sentido da palavra.

Ela tem, conjugada consigo, a justiça. O velho princípio do Direito Romano “jus suum quique tribuere”: tributar, reconhecer a cada um o que é direito. Quer dizer, as pessoas desiguais têm direito a um trato desigual. E é um pecado contra a justiça tratar igualmente a desiguais. Isso é um pecado contra a justiça.

E depois, a caridade. A caridade, nessa aplicação, é uma forma do trato por onde a pessoa, embora conhecendo, finge ignorar certos lados fracos do outro. Quer dizer, vai além da justiça, porque a justiça é ali, no taco.

Eu conheço – acho que contei esse caso aqui, não me lembro bem – um caso de brincadeira de muito mau gosto, mas aí os senhores vão ver o que é caridade. Um senhor, um banqueiro – ou coisa que o dera, um banqueiriforme pelo menos daqui de São Paulo, que convidou um grupo grande de casais para jantar em cada dele, ele com a senhora dele. Ele vinha da Europa. E qual não foi o horror dos casais que iam chegando, vendo que ele estava com uma doença no nariz, uma doença horrorosa, uma protuberância no nariz, mas uma coisa medonha, uma carne horrível, nojenta! etc., etc. Várias pessoas que chegaram, chegaram dizendo – isso é a descortesia moderna: “Ó fulano! O que aconteceu com você?”

Em determinado momento, chegou um casal que cumprimentou como se não houvesse nada; tomou o choque, dominou-se mas não disse nada: “Como vai você?” etc., etc.. Entrou, sentou-se junto com os outros. Em certo momento, durante a conversa, ele tirou aquilo. Era uma coisa de borracha, mas que imitava a realidade perfeita, e ele estava normal. Era uma brincadeira de péssimo gosto! Na hora de se despedir, ele comentou com esse casal: “os únicos inteiramente educados foram vocês, porque foram os únicos que não me disseram nada”.

Por quê? Porque esse é o procedimento perfeito. Os senhores estão vendo o que é. É uma aplicação da virtude da caridade. Quer dizer, é perceber que seria desagradável para aquele homem, uma vez que ele está com aquele nariganga, estar fazendo comentários sobre o nariz dele, que ele preferia que a gente esquecesse do nariz. Então, a caridade, mas levada a um estado de finura. Aqui os senhores estão vendo o que é a caridade diferente de uma caridade – eu vou usar a expressão no seu sentido pejorativo – caridade de mera sacristia. O quanto entra de inteligência nessa caridade, quanto entra de tato; mas que é virtude, virtude católica, entra aqui no trato com os outros.

Há pouco eu tive um exemplo interessante, até me lembrei desse caso, entrando aqui no hall. O interessado me desculpe a referência. Mas fui cumprimentar Dom Pedro (pai de Dom Luís e de Dom Bertrand de Orleans e Bragança, n.d.c.) e vi que, se não dissesse nada a D. Pedro sobre o fato de eu estar de muletas, D. Pedro não me diria uma palavra também. A coisa passaria em branca nuvem. É como se deve fazer. Embora seja uma coisa passageira, acidental etc., etc., é como se deve fazer.

O que é? É uma finura da educação; mas que, no seu resíduo antigo, era uma aplicação do princípio do Catecismo. É preciso ver nisso não um mundanismo, porque não é; nisso tem muito mais profundidade, tem exatamente a virtude da caridade. A caridade leva a isso, a dissimular os defeitos dos outros por essa espécie de amor fraterno, requintado, “exquis”, que todos os homens se devem uns aos outros. Aqui os senhores estão vendo a perspectiva exata como vai se pondo.

Então, essas três virtudes juntas florescem muito numa sociedade desigual. Nessa sociedade desigual, mas não que seja uma sociedade desigual em um tumulto, mas é uma sociedade desigual com ordem.

Aqui os senhores veem ainda, no Ancien Régime, portanto até a Revolução Francesa, como as coisas eram. Por exemplo, um é o valor do duque; outro é o valor do magistrado; outro é o do general; outro é do grande médico; outro é o do diplomata; outro é o de uma senhora que é uma grande dona de salão e que recebe eximiamente; e outra é de uma tontona, mas que é boa mãe de família. São valores diferentes.

O que a gente vê na sociedade do tempo de Saint-Simon é que, por causa da doutrina católica e à luz da doutrina católica, isso estava inteiramente classificado. E sabia-se o que cada uma dessas coisas valia. E sabia-se catalogar as pessoas de acordo com essas várias tabelas, de maneira que, em presença de alguém, havia uma série de fórmulas e de provas de respeito que eram adequadas ao que vale cada um.

Então, os senhores estão vendo o quê? Uma filosofia da vida que gerou uma organização social, gerou um estilo de vida, tudo nascido da filosofia católica da vida, da teologia. Gerou um estilo de vida e gerou, então, uma cortesia, que é a flor desse estilo de vida, é o trato. Quer dizer, é uma alta flor de civilização, a cortesia.

Eu prefiro um povo que não tem nenhum desses progressos modernos e é muito cortês, do que um povo sem cortesia, mas que tem, por exemplo, aviões supersônicos. No avião supersônico qualquer besta entra, basta ter dinheiro; e, dinheiro, qualquer besta tem; basta abrir os olhos. Mas não é disso que se trata. Trata-se é de ter tudo isso dentro de si, todas essas concepções. Trata-se de ter uma alma católica.

Dessa cortesia, vou dar exemplo aos senhores. Saint-Simon fala – para chegar um pouco no Saint-Simon – de uma senhora – era, se não me engano, uma Comtesse d’Evreux que tinha isso: sabia tão bem cumprimentar as pessoas que, quando ela estava, ele dá o exemplo concreto – numa roda onde tem – infelizmente eu não tenho o livro aqui, para consultar; mas – tem, por exemplo, um general, um príncipe, um magistrado, o médico do rei e uma amiga dela, ela seria capaz de fazer uma reverência diante de todos, olhando para cada um sucessivamente e, pelo olhar, dosando o cumprimento segundo o que era cada um. Isso não é um mundanismo: é uma flor de justiça, uma flor de humildade, uma flor de caridade. É a Igreja que suscita essa perfeição.

Eu falei de etiqueta. A etiqueta é uma coisa muito mais vasta do que a cortesia, no sentido de hoje da palavra; mas faz parte do ar de Corte de antigamente.

Vamos imaginar, por exemplo, na corte de Luís XIV, coisas de etiqueta.

O rei – primeiro lugar – normalmente a etiqueta daquele tempo era diferente da de hoje; – os senhores vão ficar chocados com isso – estava-se, habitualmente, de chapéu na cabeça dentro de casa – os homens – e também nos jardins. De maneira que um homem, dentro de casa, tinha a peruca – que é uma coisa que naturalmente choca muito aos senhores – e, por cima da peruca, um chapéu. E o chapéu ainda tinha plumas e muitas vezes, tinha pedras preciosas, além de bordados.

Portanto, vamos dizer, o rei sai no parque. Luís XIV sai no parque, acompanhado com grande número de cortesãos. Ele se encontra com um primo. Encontrando com um primo, como era a pessoa mais próxima possível dele, ele tira ligeiramente o chapéu. E é a única categoria de homens para a qual o rei tira ligeiramente o chapéu. Para os outros ele não tira. Tira, entretanto, para todas as senhoras que ele encontra, até para as criadas do palácio.

Os senhores estão vendo aqui a dosagem. Uma criada do palácio era imensamente menos do que um príncipe, primo do rei. Mas era uma mulher. E as ideias da cortesia antiga levavam a respeitar, na mulher, a fragilidade. Levavam a respeitar, na mulher, a graça; e viam uma excelência particular em que o homem, que representa a força, soubesse tributar esse respeito à fragilidade. Resultado: para qualquer mulher, o Rei Sol tirava o chapéu. Não sei se os senhores percebem o mundo de ideias, de considerações, de pontos de vista que entram nessa simples diferença de protocolo.

Ele encontra um cardeal. Para o cardeal, ele tira o chapéu inteiro, mais do que para o príncipe. Por quê? Porque é um chefe na ordem eclesiástica, e a Igreja é mais do que o Estado. E por isso ele, diante do cardeal, se descobrirá suspendendo o chapéu inteiro.

Ele passa pelas ruas de Paris – quantas vezes isso aconteceu – não tanto ele, que ia pouco a Paris, mas outros reis da França, outros soberanos em todos os lugares – ia a Paris, e passava e via o Santíssimo Sacramento que era levado para um doente. Imediatamente a carruagem real parava. E se não fosse do rei, era de um príncipe, um ministro de Estado, um embaixador, um general, fosse lá o que fosse, parava a carruagem e tinha dentro da carruagem almofadas para essa emergência. Os dois lacaios que estavam atrás, desciam, colocavam a almofada no chão da rua, e o rei se ajoelhava, junto com todos os outros, para ver Nosso Senhor Jesus Cristo passar. Por quê? Porque, diante de Deus, são todos iguais. Não sei se os senhores percebem a fé que entra nisso. Como isso é uma coisa bonita!

Não era tão raro o fato do rei ter tempo e fazer o seguinte: o Santíssimo Sacramento, quando saía à rua naquele tempo, não saía como hoje, no peito de um padre que vai conversando sobre futebol. Ele saía, o sino da paróquia tocava, e o Santíssimo Sacramento ia debaixo de pálio; carregado o pálio pelos fiéis, e pelos fiéis mais importantes do lugar, que iam levar, acompanhar Nosso Senhor pelas ruas até a casa do doente; e entravam na casa do doente, fosse um porão! Porque onde entra Nosso Senhor Jesus Cristo, é uma honra para cada um entrar. Não era tão raro, o rei, tendo tempo, pegar uma das varas do pálio e ir à casa do doente.

Quando o rei entrava com o Santíssimo, não havia honras para o rei. Só estava presente o Santíssimo. É claro! Ali está Nosso Senhor Jesus Cristo, acabou-se! Mas isso é fé.

Saint-Simon descreve a cena de levarem o Santíssimo Sacramento para Luís XIV agonizante. As tropas, em grande gala, formando alas desde a capela do castelo de Versailles até a antecâmara do quarto de dormir do rei. A Corte toda em traje de gala, para honrar o Santíssimo Sacramento. Na escadaria, que conduzia ao andar onde estava o rei, todos os príncipes e princesas da Casa Real ajoelhados para honrar o Santíssimo Sacramento. O cardeal arcebispo de Paris passava, levando o Santíssimo, em grande aparato de Cardeal e seguido de todo o clero, com velas na frente. Era assim que Nosso Senhor era levado ao rei.

Agora, por quê? Porque, se havia tantas honras para o rei, a fortiori, maiores eram as honras para Deus Nosso Senhor; para o Santíssimo Sacramento! Os senhores estão vendo que é um conjunto de fórmulas que envolvem o próprio Deus.

Uma coisa linda da etiqueta daquele tempo: quando o padre rezava o Evangelho na igreja, na hora de rezar o Evangelho, todo mundo se levanta; mas os fidalgos puxavam a espada e, assim, ouviam Evangelho com a espada alta, com o propósito de guerrear pela expansão do Evangelho e pela sua defesa. Os senhores não acham que isso é mais bonito do que ouvir uma missa ié-ié-ié? Faz mal comparar; não sei até se não é de mau gosto fazer comparação.

Agora, o rei está na sua sala, recebendo pessoas. Há uma poltrona supereminente para ele e para a rainha; e eles ocupam o lugar mais em evidência da sala. Depois, tem poltronas comuns para os duques e pares de França. Depois, tem simples cadeiras para nobres de uma categoria menor; e, para senhoras de categoria ainda menor, uma forma de almofada grande, redonda, que elas sentavam.

Por quê? Porque a hierarquia social é como uma escada em que todos participam em grau maior ou menor do poder do rei e da dignidade do rei. E como os duques são chamados os florões da coroa do rei, – os florões da coroa são aqueles ornatos que cercam a coroa – então, eles, junto ao rei, se sentam numa cadeira que, sem ser um trono, tem algo de um trono. Agora, como os outros nobres já não são os florões da coroa do rei, sentam-se numa cadeira e os outros, que são menos, sentam em lugares menos [importantes]. E muitos nobres estão em pé. Uma das virtudes do cortesão era saber ficar em pé. Ficavam horas em pé! A tal ponto que se dizia que o verdadeiro cortesão deve sempre comer quando pode e sentar quando pode; porque é dura a vida para ele!

Isso não chocava ninguém. E, muitas vezes, entrava uma pessoa que tinha direito a uma cadeira mais próxima do rei, os lugares se mudavam, e algumas pessoas ficavam desbancadas, passavam a ficar em pé. E ninguém se chocava. Era natural. Por quê? Porque o mundo é hierárquico e a virtude da humildade, da justiça, da caridade levam a querer prestar essa honra ao outro. Quer dizer, assim é que se faz. Essa é que é a hierarquia, a hierarquização de todas as coisas.

Bem, é para os senhores compreenderem que essa hierarquia não existia apenas do patrão para o empregado, ou de nobre para plebeu; mas existia, igualmente acentuada, em todas as categorias mais altas da sociedade.

Os senhores querem ver como isso é católico e como isso se conservou na Igreja? Basta os senhores considerarem o seguinte: um bispo quando se paramenta, um papa quando se paramenta. Era uma honra ajudar o bispo a paramentar-se. Era uma honra ajudar o Papa a paramentar-se. E eram, altos prelados escolhidos para isso, que ajudavam para isso. Por quê? Porque era a expressão hierárquica do serviço.

Quer dizer, era toda, portanto, uma sociedade na qual essa hierarquização se fazia de um modo muito pronunciado, de um modo muito acentuado, que condicionava todos os costumes.

S. Teresinha e a Contra-Revolução nos costumes – Plinio Corrêa de Oliveira

10-12-1970 SD

Dr. Plinio foi um advogado, catedrático de história na PUC-SP e autor de inúmeros livros, traduzido para diversas línguas. Mais conhecido por ter presidido a TFP, associação de inspiração católica que inspirou outras similares em inúmeros países.

Se S. Teresinha reclamava da bela, mas cosmopolita roupa parisiense da época, imaginem o que ela diria do atual generalizado e feio jeans (em geral também imodesto, principalmente o “feminino”).

Links externos: http://www.oprincipedoscruzados.com.br/2015/12/a-escritura-papas-santos-e-teologos.html

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Para palavras desconhecidas, ver glossário https://cruciferos.wordpress.com/glossario/

TRANSCRIÇÃO: https://cruciferos.wordpress.com/2020/09/22/s-teresinha-e-a-contra-revolucao-nos-costumes-plinio-correa-de-oliveira/

Significado das Siglas https://cruciferos.wordpress.com/significado-das-siglas-das-fontes/

Santa Bibiana, rogai por nós!

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A esse propósito, leio uma ficha extraída dos “Manuscritos autobiográficos de Santa Teresinha do Menino Jesus”. Ela escreve que estava contente de tomar a estrada de Loreto numa peregrinação que fez à Itália com sua família, quando tinha cerca de 15 anos (em novembro de 1887):

    “Não me admiro que a Santíssima Virgem tenha escolhido esse lugar para transportar a Sua casa bendita. A paz, a alegria, a pobreza reinam ali como soberanos. Tudo é simples e primitivo. As mulheres conservam o seu gracioso traje italiano e não adotaram, como em outras cidades, a moda de Paris.
    "Enfim, Loreto encantou-me! Que direi da Casa Santa? Ah, minha emoção foi profunda achando-me sob o mesmo teto que a Sagrada Família!”

Os senhores vejam que interessante o comentário de Santa Teresinha todo na linha da secção de “Catolicismo” dos “Ambientes e Costumes”! Ela faz sentir a adequação que tem aquela paisagem às virtudes que uma tal relíquia como a Santa Casa deveria disseminar em torno de si. E depois observa como aquela paisagem, mais a Santa Casa com as graças que trazia, modelaram a alma e os costumes dos habitantes.

Ela tece um comentário de caráter essencialmente tradicionalista – no sentido bom do termo – mostrando como as mulheres do lugar fizeram bem em ter conservado seus costumes, seus trajes antigos. Os senhores sabem que no tempo de Santa Teresinha (séc. XIX), havia muitas regiões da Europa onde se conservavam os trajes típicos.

Então, Santa Teresinha observa isto e mostra como era bom e faz uma censura ao cosmopolitismo elogiando o regionalismo: como procediam bem as mulheres de conservarem seus cândidos trajes de outrora em vez de usarem a moda de Paris, que a Revolução impunha a todos como processo para massificar o mundo e para acabar com todas as características regionais.

Santa Teresinha, pouco tempo antes de entrar no Carmelo

Os senhores podem calcular, através dessa narração, quanto havia de contra-revolucionário na alma de Santa Teresinha e quanto seu espírito era afeito à observação das circunstâncias da vida temporal e sensível ao princípio – tão caro a nós! – da correlação entre vida temporal e vida espiritual, de um lado. E, de outro, de como uma sadia organização social favorece a prática da virtude e a santificação. Tudo isso está contido nesse trecho tão simples, tão sintético, tão cheio de suco, tão denso!

A gente não pode deixar de sorrir ao considerar que ela mesma estava vestida conforme o que chamava “a moda de Paris”. Pois Santa Teresinha não usava os trajes de sua região porque só os camponeses continuaram fiéis aos trajes regionais e ela não era uma camponesa. Portanto se trajava segundo a moda parisiense que ainda era – naquele tempo – decente, que correspondia ao pudor, na qual não havia imoralidade. Mas em que ela discernia o mal muito grave do cosmopolitismo. Os senhores estão vendo como está, portanto, filosoficamente bem pensada sua atitude.

Podemos, então, fazer uma outra consideração: a resignação com que Santa Teresinha portava seu próprio traje. É essa a resignação com que devemos carregar esse paletó, essa gravata – reputados hoje tão reacionários… – e que não satisfazem a fome e sede de Contra-Revolução que há em nossas almas; nós sentimos que eles são uma libré da Revolução e gostaríamos de nos ver livres disso. Nossas almas sonham com outros trajes, sonham com outras coisas, não é verdade? Está bem, mas devemos ter – debaixo de uma libré que nos é imposta – a firmeza de sermos fiéis aos princípios opostos a essa libré! E aqui está a nossa posição!

Mediocridade contemporânea exemplificada num jogo de futebol – Plinio Corrêa de Oliveira

 

https://gloria.tv/post/hUnJqDmiYeif2S2BPiX1CwAQr

04-08-1979 SD

TRANSCRIÇÃO: https://cruciferos.wordpress.com/2020/06/30/mediocridade-contemporanea-exemplificada-num-jogo-de-futebol-plinio-correa-de-oliveira

Com uma introdução sobre a rejeição da grandeza, Plinio comenta um jogo de futebol.

Explicação conforme necessário ou bio curta do SDP

Áudio editado SEM GRITINHO JOANISTA, COMO TUDO NO CANAL.

Doutrina católica sobre jogos, etc: http://www.oprincipedoscruzados.com.br/2018/07/papas-santos-e-teologos-definem-os.html

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Para palavras desconhecidas, ver glossário https://cruciferos.wordpress.com/glossario/

Significado das Siglas https://cruciferos.wordpress.com/significado-das-siglas-das-fontes/

Santa Bibiana, rogai por nós!

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Eles podem ficar colocados diante da maior torpeza, e ficarem indiferentes. Eles podem estar em presença da maior grandeza e não perceberem. Eles estão atolados numa forma de infâmia que se chama a mediocridade transformada em ídolo, em que a pessoa não gosta de pensar que sua alma pode ser tão grande, não gosta de pensar que ela pode ser tão infame. Porque é mais ou menos como uma ave drogada e viciada, que não gosta de abrir suas asas inteiras, que as gosta de abrir um pouco para um vôo de frango, mas não gosta de abri-las para grandes vôos. 

* São as almas com asas de galinha que constituem a mediocridade contemporânea.

São essas almas com asas de frango, com asas de galinha para melhor dizer, são essas almas que constituem a mediocridade contemporânea. Elas vêem na fímbria do horizonte a infâmia fazer seu bailado caótico e desordenado. Olham e não se movem. Tomam a coisa como banal. Por que? Porque elas não querem ver em nada a grandeza, nem no mal. Tudo é do tamaninho delas e fora disto elas não querem reconhecer nada, não querem aceitar nada, não querem admirar nada. Não querem também repelir nada.

Eu hoje contei na Reuniões de Recortes – e isto filtrará especialmente entre os senhores, porque alguns dos senhores freqüentam a Reuniões de Recortes – uma série de infâmias e torpezas contemporâneas. Talvez nenhuma delas fosse tão impressionante quanto a que contou… Ele não vai a estádios, mas todos sabemos que o estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro é um grande estádio, disseram-me durante a reunião que é o maior estádio do mundo. Bem, nesse estádio, em forma circular, nesse estádio realizam-se disputas de futebol. E conhecidos residentes no Rio contaram a ele que foram a uma partida de futebol e vieram trazendo as impressões da partida de futebol.

Famílias inteiras vão, não vai mais só, como há uns vinte anos atrás, o homem, e a senhora fica em casa fazendo tricot, mas vai o homem, vai a mulher, vão as crianças, vai a casa inteira. Famílias inteiras vão assistir o jogo, e lotam o Maracanã. E a torcida se divide de um lado e doutro.

E quando começa a torcida do futebol, os respectivos torcedores começam a gritar insultos para o outro lado da torcida. Mas esses insultos se transformam rapidamente em obscenidades e são famílias inteiras que berram obscenidades para outras famílias. Pai, mãe e filhos gritando juntos uma obscenidade ou um dilúvio de obscenidades para famílias em frente, que estão gritando um dilúvio de obscenidades também. Quer dizer, famílias ululando obscenidades umas para as outras é a última palavra. E depois, a propósito do quê? Da gratuidade, do arbitrário de uma preferência por um clube de futebol; para ganhar o clube tal e não o tal outro.

 * Gente que vê a luta entre a verdade e o erro, ente o bem e o mal, o belo e o feio com a maior indiferença, vai torcer gratuitamente por um clube de futebol. Por que?

Gente que vê a luta entre a verdade e o erro, bem e mal, belo feio com a maior indiferença, vai torcer gratuitamente por um clube. Por que? Por vai ver ali o filho, porque o clube é perto, porque resolveu torcer, nem sabe porquê. E por isso brada obscenidades, injuria a Deus no mais alto do Céu, injuria Nossa Senhora, fazendo essas obscenidades.

Mais ainda, pior. E eu disse em Jasna Gora e repito aqui que, se não fosse para o louvor e para o serviço de Nossa Senhora, nós deveríamos velar a Sagrada Imagem aqui presente, antes de contar o que o major contou. Os senhores sabem que os estádios têm as arquibancadas em forma de gradis. Da parte superior dos gradis, um homem para manifestar sua repulsa, indignação, sei lá para que, resolveu verter líquido sobre o que estava embaixo, de público, na presença de todo mundo. O indivíduo assim atingido tentou uma reação. Ele levou, – o que reagiu – levou uma tal pedrada e compreendeu, na inconformidade do público com a reação dele, compreendeu tão bem que o público todo ficaria contra ele, que ele engoliu a pedrada, quer dizer, aceitou – engoliu neste sentido – aceitou a imundície e não protestou. E a partida de football continuou.

Se se chega num estádio a uma torpeza dessas, não tem mais o que dizer. Experimentem contar essas torpezas. Da parte de gente que talvez não fosse a um estádio ou se estivesse no estádio não bradaria essas torpezas, os senhores não vão encontrar indignação. Aqui está, aqui está a tragédia. Porque se alguns, um milhão de infames fizesse infâmias, mas houvesse uma linha além da qual houvesse depois muitos milhões que dissessem: “é uma infâmia, nós protestamos”, etc., etc., a tragédia não estaria completa. A tragédia está completa por esta falta de… quer dizer, não há um marco divisório. É, para usar uma frase de Virgílio que meu professor de latim gostava de repetir: “rari nantes in gurgite vasto” – do naufrágio, raros ficam sobrenadando na imensidade do mar. É isto que se dá.

Papel Revolucionário da Renascença: uma revolução cultural – Plinio Corrêa de Oliveira

15-9-1966 EXT [data incerta]

Resumo: A Renascença: primeiro golpe desfechado contra a Cristandade, e, sob certo ângulo, o mais carregado de malícia * Uma ampla Revolução feita em nome da arte e da cultura à qual atribuíam um valor supremo * O entusiasmo delirante pelos autores pagãos criou nos homens da Renascença um modo de se exprimir, que a pretexto de ser completamente clássico, é perfeitamente pagão

 

Bem conhecemos o papel nefasto que teve a Renascença nesse plurissecular de perecimento da Civilização Cristã, que em nossos dias chegou à sua agonia. A Renascença foi um primeiro golpe desfechado contra a Cristandade, e, sob certo ângulo o poderíamos dizer, o mais carregado de malícia, pelo simples fato de ser o primeiro.

Doença de sintomas aparentemente menos extremados que os das três Revoluções que se lhe seguiram, primeira e profunda fenda, entretanto, no edifício arquitetônico da Idade Média, por onde penetraram os germens de destruição que operaram todo o restante, desde o Protestantismo, até o Comunismo. Nela estava já, como numa semente, todo o horror que se lhe seguiu.

Como se poderia esperar, a Renascença ocultou este veneno virulento que continha em seu bojo, e se apresentou com uma roupagem tentadora para os homens do ocaso da Idade Média. Era preciso para as forças do Mal encontrar um pretexto tentador, a Renascença haveria de ser uma ampla Revolução feita em nome da arte e da cultura.

* Os corifeus da Renascença tinham uma concepção toda peculiar de cultura: só a do classicismo greco-romano

Seus corifeus tinham, entretanto, uma concepção toda peculiar. Diziam eles que cultura havia uma só: a do classicismo greco-romano, a única a satisfazer plenamente os anelos da alma humana. Todas as outras que se pudessem imaginar, a egípcia, assíria, chinesa – que eles aliás conheciam muito vagamente – eram como que dialetos da cultura. Cultura por excelência, era a clássica. Uma vez que havia ela desaparecido, fazê-la renascer era dar nova vida a alguma coisa que havia morrido e que era o classicismo.

A Renascença era o renascer do mundo clássico; o renascer da weltenschaung [concepção do universo, n.d.c.] dos clássicos, reputada verdadeira de modo absoluto para todos os tempos e para todos os lugares.

Aqui já se estabelece entre a Renascença e a maneira cristã de ver as coisas, uma espécie de dissonância profunda. Para nós, cultura é a expressão da alma de um povo, é a expressão de suas convicções e das condições em que ele vive.

Para nós, portanto, existem várias culturas. Pode-se falar numa cultura espanhola, como numa cultura japonesa, como numa cultura suíça. Existe, de fato, um ideal de perfeição humana. Mas esse ideal cada povo pode realizá-lo à sua maneira. E por isso mesmo afirmamos que, dentro de um só ideal genérico de cultura, cabem várias espécies diferentes.

Essas culturas não podem ser fabricadas de um modo completamente teórico. Elas nascem de circunstâncias históricas.

Dizer de uma cultura como a grega que em todos os tempos e em todos os lugares ela é a única verdadeira, constitui um absurdo que não podemos aceitar. Pois era sobre esse absurdo que estava construído o Renascentismo.

Os renascentistas, entretanto, iam ainda mais além, não se contentando com essa visão exclusivista de cultura. Como veremos pelos exemplos que passaremos a citar – e procuraremos aliás ilustrar todas as afirmações feitas nesta conferência com fatos históricos – teórica ou praticamente, os renascentistas agiam como se a cultura fosse o valor supremo.

* Os renascentistas agiam como se a cultura fosse o valor supremo, uma verdadeira adoração

Todos os exemplos que daremos ao longo desta explanação, ilustram, direta ou indiretamente, essa tese. Passo a citar alguns fatos especialmente significativos.

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Pedro Aretino (imagem ao lado), que viveu de 1492 a 1552, autor sem moral e sem escrúpulos, usava da sátira para detratar a quem não lhe agradava. Por isso, em uma época em que a fama importava muito, era temido e muito lisonjeado por todos aqueles que queriam gozar de suas boas graças e seus louvores. Recebia, por isso, muitas cartas, grande parte das quais publicou, assegurando, assim, a própria fama.

Na carta que a seguir transcrevemos, pode-se notar a adoração da cultura, o fraseado vazio, e o paganismo de uma das vítimas de Aretino:

“Eu digo que sois o filho de Deus, com a limitação, a fim de não me ver em um conflito com os frades mendicantes salmodiadores, de que Deus é a suprema verdade no Céu, e vós o sois na terra. Nenhuma cidade reúne as condições de Veneza para vos abrigar, porque sois o adorno da terra, o tesouro do mar, e a glória do céu; sois o vaso de ouro, cheio de pedras preciosas q

ue se deveria colocar no dia da Ascensão no altar-mor da Igreja de São Marcos” (1).

A respeito de Afonso de Aragão, Rei de Nápoles, diz Onken:

“O entusiasmo e a admiração que lhe causavam as produções dos homens de grande talento eram tão naturais nele, que impressionavam profundamente as pessoas que tinham ocasião de observá-lo.

“A respeito disso se refere que, escutando um discurso de Gionazzo Manetti ficou tão absorto em seu trono, que parecia de bronze, sem mover-se nem sequer para afastar uma mosca. Em outra ocasião, diz-se

que ouvindo a leitura de algumas páginas de Quinto Curcio ficou tão enlevado que se curou de um mal que o molestava. E o formoso exemplar de Tito Lívio que lhe foi enviado por Cosme de Medicis contribuiu muito para facilitar o estabelecimento da paz entre Nápoles e Florença” (2).

* A ereção da cultura em valor supremo gerou um profundo conflito de consciência

A ereção da cultura em valor supremo acentuava ainda mais o absurdo que já era o exclusivismo cultural da Renascença.

Desses absurdos decorria um conflito de consciência. Há uma expressão francesa que diz: “chassez le naturel, il reviendra au galope; expulsai o que é natural e ele voltará galopando”. Cada vez que se quer violar a ordem natural das coisas, a natureza se vinga com uma energia extraordinária, impondo conseqüências com que não contávamos.

Tomar uma Europa como a do século XV, ainda não dividida entre protestantes e católicos, mas homogeneamente católica; tomar uma Europa que tinha uma determinada formação histórica e que durante mil anos viveu uma civilização, e querer, de repente, que essa

Europa abandone toda a sua tradição, todo o seu passado, e adote uma cultura morta há mil anos, é coisa simplesmente absurda. Até não se pode quase compreender como o homem renascentista pensou seriamente nisto.

Para entendermos como isso é absurdo, podemos imaginar o verdadeiro susto que têm os detratores de nossas idéias, quando pensam que queremos restaurar a Idade Média. Eles dizem:

“Algo que acabou há quinhentos anos atrás, vocês estão querendo restaurar?”

Os renascentistas queriam restaurar algo que acabara não há quinhentos, mas há mil anos!

O que então aconteceu? As almas de formação cristã, imbuídas, entretanto, de orientação pagã, sofreram um conflito de consciência. Tiveram diante de si um ideal de cultura pagão, como era o ideal clássico, vivendo, entretanto, idéias cristãs, que eram aquelas a que estavam habituados. A conseqüência era um conflito.

Diante dessa crise de consciência, vamos notar três atitudes de espírito diferentes.

1) De um lado, as pessoas que, por causa da admiração que têm pelo ideal pagão, vão abandonando o ideal cristão. E a cultura clássica atua nelas como um corrosivo. 2) Depois encontramos as que reagem contra esse ideal pagão. É a corrente, que na Alemanha, tomou o nome pejorativo de corrente obscurantista, que corresponde ao que hoje seriam os contra-revolucionários. 3) E entre essas duas correntes extremas, encontramos a das pessoas que, sendo pouco profundas, ou pouco sinceras para consigo mesmas, ou pouco lógicas, ou pouco coerentes, procuraram acumular as duas influências, conservando-se mais ou menos cristãs e ao mesmo tempo mais ou menos adeptas do neo-paganismo clássico.

Essa tentativa de conciliação entre extremos inconciliáveis é um procedimento dos espíritos parecido com o que hoje se dá entre o mundo moderno e os católicos. O mundo moderno é trabalhado a fundo por fermentos visceralmente anticatólicos. Mas à vista da influência do mundo moderno, nós encontramos católicos que procuram pagar de tal maneira o seu tributo de admiração a ele, que acabam deixando de ser católicos.

Ao lado disso, encontramos outras pessoas que, na reação contra o mundo moderno, para se conservarem católicas, chegam a uma atitude de nítida oposição. Há ainda as atitudes intermediárias, de pessoas que procuram conservar-se católicas, mas ao mesmo tempo possuem uma certa condescendência ou certa simpatia para com os defeitos do mundo moderno.

É claro que quando falamos em “mundo moderno”, ninguém precisa ter um estremecimento, porque não temos em mira o rádio em si, nem a televisão em si, nem coisas semelhantes. Quando dizemos que somos contra esses ativos fermentos pagãos do mundo moderno, não queremos afirmar-nos contrários às vacinas contra a paralisia infantil… seria muito infantil este modo de conceber o problema. Não entendemos por “mundo moderno” um conjunto de melhoramentos materiais que foram introduzidos na ordem concreta dos fatos, mas entendemos um certo espírito, uma certa mentalidade neo-pagã.

Uma divisão análoga a dos dias que correm foi a que se deu a Renascença.

* O entusiasmo delirante pelos autores pagãos criou nos homens da Renascença um modo de se exprimir, que a pretexto de ser completamente clássico, é perfeitamente pagão

Deram-se, então, fatos curiosos como este: o entusiasmo delirante pelos autores pagãos cria nos homens da Renascença um modo de se exprimir, que a pretexto de ser completamente clássico, é perfeitamente pagão.

Os autores clássicos não conheciam a religião católica, e por isso os princípios católicos não inspiravam seus vocabulários, suas figuras, sua oratória. Os neo-clássicos, embora católicos, começam a usar uma linguagem tipicamente pagã, na qual a religião católica absolutamente não figura.

Poderíamos citar aqui, por exemplo, um caso conhecido, o do humanista Bernardo Dovizi, autor de La Calandra, e mais conhecido pelo nome de Bibbiena, vila em que nasceu. La Calandra era uma peça imoralíssima. Os autores clássicos eram freqüentemente imorais e o classicismo se revestia no século XV de uma nítida tendência para a imoralidade. Este Bernardo Dovizi era autor de peças imorais. Ora, em seu enterro, um orador o saudou desta forma:

Não investigamos a que ponto do Olimpo te levou a tua imortal virtude, em quadriga de ouro; mas quando percorreres os mundos celestes, para ver os heróis, não te esqueças de suplicar ao rei do céu e a todos os demais deuses, que aumentem à vida de Leão os anos que a Parca ímpia tirou a Juliano de Médicis e a ti, se querem conservar o culto que se lhes dedica na terra(3).

Eis como as coisas foram longe, e como esta mentalidade renascentista penetrou fundo: este Leão de que se fala aqui é Leão X, o Papa. O orador no enterro de Bernardo, para fazer um elogio ao Papa, o inclui em toda esta mitologia. E, afinal de contas, era um homem católico que falava.renascenc3a7a20papa20leao20x

Mais ainda: este Bernardo Dovizi, apesar de ser o autor que era, por ser grande literato, foi cumulado de honras pelo próprio Papa Leão X, que, no ano de 1513, chegou a elevá-lo ao cardinalato, e depois encarregou-o de várias missões. Por estes fatos pode-se ver a que extremos chegaram as coisas e como a influência do Renascentismo penetrou a fundo.

* Estranha simbiose entre paganismo e Cristianismo

Prossigamos, entretanto, em nossa exemplificação do que foi a infiltração da mentalidade pagã na Civilização Cristã do Ocidente.

É típico o que se disse de Jacob Sannazaro, outro humanista, que nasceu em Nápoles em 1458, tendo falecido na mesma cidade em 1530; viveu na corte de Frederico, rei de Nápoles, e publicou as obras de Giovanni Pontano, escreveu vários trabalhos, entre os quais um poema intitulado De Partu Virginis.

A respeito dele diz Oncken:

“Se nesta obra estão misturadas coisas pagãs e antigas com o cristianismo e a vida moderna, mistura esta que fere desagradavelmente nossos sentimentos estéticos, não se deve vituperar por causa disso o poeta, porque, naquele tempo, achava-se muito natural que os pastores mesclassem com seus cânticos junto do presépio em que jazia o Salvador do mundo, versos da Quarta Écloga de Virgílio, mesmo que o poeta atribuísse a Deus rasgos de Júpiter, ao Arcanjo Gabriel virtudes de Mercúrio, e à Virgem Maria qualidades de Dido, e, o que é pior a nossos olhos, mesmo que os designasse diretamente com nomes gentílicos, ou que dissesse que quando David cantava se comovia o Erebo, a Fúria mostrava os dentes de ódio, estremecia-se o Cocito, e Sísifo ficava imóvel, ou então quando, para dar mais crédito ao Profeta do Jordão, faz passar suas profecias pelas de Proteo” (4).

Como se a religião Católica não tivesse beleza, nem prestígio suficiente para se impor às almas dos povos, sendo preciso pintar e decorar Nossa Senhora como Dido, e associar o Padre Eterno a Júpiter, para que os homens se interessassem um tanto por Ele! Isto representa um formidável deslocamento interno para as almas.

Outro fato significativo, é uma afirmação de Petrarca. Esse autor, que ainda passa por ser dos poetas católicos, exalta a poesia, dizendo que, muito ao contrário daqueles que chamavam os poetas de embusteiros, ele os equiparava aos profetas. Dizia que os poetas, como os profetas, tinham visões maravilhosas. Eis, pois, o poeta clássico equiparado ao profeta do Antigo Testamento, que profetizou a vinda de Cristo.

* Nessa “época de cultura”, renasceram antigas superstições e em face delas se procedia com extrema condescendência

Vamos agora constatar como renasceram, nessa “época de cultura”, antigas superstições, e como em face delas se procedia com extrema condescendência.

A respeito de Dante, que é considerado por alguns um precursor da Renascença, Oncken diz o seguinte:

“Tinha ele o costume ou a afeição de aduzir juntos exemplos gentílicos e eclesiásticos, como se atribuísse igual autoridade a uns e outros. Porque reconhecia no governo do universo a influência do destino, do fado, que os antigos colocavam em igual e até em maior altura que os deuses”.

Toda a antigüidade foi fatalista. Os antigos acreditavam num fado que estava acima dos deuses e que marcava inexoravelmente o destino dos homens. “Em Dante, diz Oncken  se encontra esta influência”.

“Assim, numa passagem abandona, pela boca de Virgílio, seu poeta favorito, o governo do mundo ao deus fortuna, com o que, se bem que indiretamente, desconhece e rebaixa a sabedoria e bondade de Deus, que recompensa e castiga os homens, segundo seus merecimentos e suas culpas” (5).

Há aqui outra coisa curiosa. Os espíritos racionalistas, que começavam a aparecer naquele tempo, combatiam juntos todas as superstições da Idade Média, ou seja, as idéias de bruxas, de feitiços, de todos estes resquícios bárbaros. Ao mesmo tempo, atacavam o culto das relíquias e algumas práticas católicas que julgavam supersticiosas. Mas, a adoração do mundo antigo era tão funda neles, que não se lembravam de combater as superstições dos gregos e romanos, os quais eram extraordinariamente supersticiosos.

Por exemplo, encontramos, na história dos romanos, generais que têm todo um plano de batalha traçado, e que quando está prestes a se ferir, têm receio que um fado cego pese sobre eles e os derrote, e vão então consultar os augúrios, para saber se os fados são favoráveis a eles ou não. Quais são os processos que usam para saber se realizará a batalha? Soltam determinados cavalos no pasto, e, depois de correrem muito, mandam recolher sua baba; conforme a densidade dela eles decidem se vão ou não dar à batalha…

Ou então mandam tomar frangos, esvaziá-los das suas entranhas e as examinar; de acordo com o seu colorido ou a sua posição, determinados sacerdotes estão aptos a dizer se a resposta é sim ou não. Ou então, soltam um cavalo manco no pasto; conforme o modo do cavalo mancar, a batalha será realizada. Desse modo, os planos de um Cipião ou de um César ficam suspensos devido à marcha de um cavalo manco…

Por que, pergunta um autor – protestante e inimigo da Idade Média –, por que acusar de superstição essa época histórica, e, de outro lado, não ver a superstição dos romanos e dos gregos? Ele mesmo dá essa resposta: é que para aqueles homens, imbuídos de profundo respeito e até de veneração pelo mundo antigo, parecia uma impiedade lembrar as fraquezas dessa quadra da História.

A contradição parecerá gritante. Afinal, por que tanta severidade para com a superstição da Idade Média, e por outro lado, por que tanta tolerância para com o mundo romano?

Entretanto, o ensino de História de hoje em dia é feito precisamente assim. Porventura não ouvimos falar durante toda nossa vida que as superstições grassavam na Idade Média? No entanto, já ouvimos falar alguma vez que alguém é supersticioso como um grego ou um romano? Por que razão isto se dá? É porque a propaganda continua nos colocando uma venda para não considerarmos corretamente o mundo antigo.

Além do mais, a Renascença está muito longe de estar tão morta quanto se costuma afirmar. Mas continuemos na análise das concepções do homem da Renascença.

* Argumentos pagãos como fundamento da teologia católica?

É muito significativa uma exclamação do famoso Erasmo de Rotterdan, uma das figuras mais salientes do humanismo: “Oh! São Sócrates, rogai por nós!”.

Sócrates, como sabemos, suicidou-se; foi acusado de um crime horroroso, que era de induzir a mocidade grega à homossexualidade, e não está provado que a acusação fosse falsa. Sendo monoteísta, ocultou durante o processo sua religião, e disse que acreditava em todos os deuses de Atenas, para escapar à condenação à morte.

Esse Sócrates, para Erasmo, que era clérigo católico, despertava tanto entusiasmo, que ele se referia a Sócrates como a um Santo. Se pelo menos Erasmo tivesse veneração pelos santos católicos! Mas ele era um péssimo clérigo, no qual não se nota nem um traço de piedade sincera e profunda. O culto de “são” Sócrates tinha expulso do coração de Erasmo os outros cultos.

Mais adiante, a respeito de Cícero, ele diz:

“Sempre que leio algum discurso de Cícero, beijo o livro e venero seu espírito santo e cheio de inspiração divina“ (6).

Isto se faz com o Santo Evangelho. Erasmo se lembra desse rito católico e o emprega com Cícero, de quem, sob o ponto de vista moral, tanta coisa haveria a dizer.

Gregório Reysch, professor da Universidade de Friburg, escreveu uma espécie de enciclopédia filosófica, intitulada “Margarita Philosóphica”. Como é sabido, “margarita” significa pérola, portanto sua tradução seria pérola filosófica. Ela nos dá a conhecer o que era naquele tempo a filosofia.

Os estudos do autor revelam-se, sobretudo, quando demonstra, com a autoridade de Platão, a imortalidade da alma. A tese evidentemente é verdadeira; o que é significativo é que ele a demonstra com Platão. E acrescenta, para maior abundância de argumentação, textos da Sagrada Escritura. Como se a Sagrada Escritura fosse uma espécie de supérfluo! Mas o argumento a respeito da imortalidade, que realmente pesa, não é a Sagrada Escritura, mas Platão, o divino Platão.

Pico della Mirandola, que é uma das figuras mais caracteristicamente renascentistas, erudito famoso que se dispunha a dissertar sobre todas as coisas cognoscíveis pelo homem, era outro grande admirador de Platão.

Ele tinha em sua casa um oratório a Platão, diante do qual havia uma lamparina acesa. Mas como ele era católico e não queria esquecer-se disso, tinha em outro aposento, com permissão da Santa Igreja, o Santíssimo Sacramento. Diante do Santíssimo ele acendia uma lamparina idêntica à que colocava diante da imagem de Platão. E com isto este homem pensava que andava bem; fazia a Jesus Sacramentado a honra, para não dizer a esmola, de acreditar nEle, e, em segundo lugar, lhe fazia a honra muito maior de O tratar em pé de igualdade com Platão. Para um carpinteiro da Galiléia, era boa fortuna ser tratado como Platão.

A respeito da obra de Gregório Reysch, “Margarita Philosofica”, diz Oncken:

Esta mescla de escolástica (a filosofia católica por excelência) e humanismo se manifesta em todo o livro, no estilo, nos esforços para por um lado, escrever castiçamente, e por outro conservar o tom antigo; e nas próprias ilustrações, nas quais lutam os conceitos infantis com rasgos artísticos” (7).

Outra obra muito interessante publicada na Renascença é a chamada Il Tesoretto – o Tesourinho.

“Estava destinada a ser uma enciclopédia, mas o autor não fez mais que começá-la, sem ir adiante. Nela refere que, regressando da Espanha, triste pela derrota dos guelfos, e atravessando uma selva, encontrou a Natureza, que lhe deu minuciosas lições sobre assuntos físicos. Mais adiante se deparou com a Virtude e suas quatro filhas, a Prudência, o Valor, a Sobriedade e a Justiça, que lhe deu por sua vez lições de moral. Finalmente encontrou o Amor, que também quis dar lições ao viajante, mas este se lhe mostrou esquivo e foi libertado de tão perigosos laços por Ovídio” (8).

Eis um verdadeiro pesadelo mitológico. Um católico que atravesse uma selva e não encontra santos! As virtudes não são representadas por anjos! Em vez de santos e de anjos, encontra seres abstratos, mais ou menos à imagem de deuses mitológicos que lhe vêm falar; e depois aparece Ovídio.

“Dali diz que se dirigiu a Montpellier, onde confessou seus pecados, e foi depois alcançado em outro bosque por Ptolomeu, o qual lhe ensinou as ciências que ainda lhe faltavam, mas neste ponto deixou Latini seu poema, de modo que falta esta parte do ensinamento que haveria de completar o da Virtude e o da Natureza” (9).

* O católico deve ser adorador de Jesus Cristo com toda a alma e todo o coração. Tem que pertencer à Igreja sem mescla nem heterogeneidade de coisa alguma estranha a Ela

Uma das almas em que o conflito entre o mundo clássico e o mundo cristão foi mais violento, foi a do grande Petrarca. A respeito dele, João Batista Weiss diz o seguinte:

“Do mesmo modo que o poeta da Divina Comédia, Francisco Petrarca conservou-se no terreno da Igreja, e soube juntar à sua entusiástica inclinação para com a antiguidade clássica, a veneração crente para com o cristianismo. Seu fanático entusiasmo pelo antigo, não foi tão longe que se esquecesse, por isso, da sublimidade dos mistérios cristãos” (10).

Basta saber o que é uma verdadeira formação católica, para compreender que um católico não pode ser fanático por nada. Ele deve ser um adorador de Jesus Cristo com toda a alma e todo o coração. Ele tem que pertencer à Igreja sem mescla nem heterogeneidade de coisa alguma estranha a Ela. Um católico só pode ser inteiramente católico. Ora, um católico fanático pelo mundo antigo é um católico dividido, que obedece a dois senhores.

Compreende-se, pois, porque razão não se pode admitir isto na alma de um verdadeiro católico. No entanto, era esse o drama a que culposamente estava sujeito Petrarca.

E continua o mesmo Autor:

“Antes, pelo contrário, com a maior resolução, afirmou aquele poeta muitas vezes que tinha o Evangelho em lugar mais alto que toda a sabedoria dos antigos. Só então se podem amar as escolas dos filósofos e consentir com elas – escreve Petrarca a seu amigo João Colonna – quando não se separam da verdade, nem se apartam do nosso supremo fim. Se alguém se atrevesse a intentar isto, ainda que fosse Platão ou Aristóteles, Varrão ou Cícero, deveríamos com livre constância, desprezá-lo e calcá-lo aos pés” (11).

Esta não deixa de ser, aparentemente, uma declaração tranqüilizadora até certo ponto.

“Nenhuma agudeza de argumentação, nenhuma graça de linguagem, nenhuma celebridade dos nomes, pode extraviar-nos; apesar de tudo, eles foram apenas homens eruditos, até onde alcança a investigação humana, brilhantes por sua eloqüência, favorecidos com os dons naturais; mais dignos de compaixão porque careceram do soberano e inefável bem; e porque somente confiaram em suas próprias forças e não se esforçaram por chegar à verdadeira luz, caíram muitas vezes, à maneira de cegos. Admiremos, pois, os dons do seu engenho, mas de tal maneira, que adoremos o Criador esses mesmos dons. Compadeçamo-nos dos erros daqueles homens e felicitemo-nos ao mesmo tempo, reconhecendo que, por graça e sem nosso merecimento, fomos antepostos a nossos predecessores, por Aquele que esconde seus mistérios aos sábios e os descobre gratuitamente aos pequeninos. Filosofemos de tal sorte, que amemos a Sabedoria. Mas a verdadeira Sabedoria de Deus é Cristo. E para filosofar de verdade, devemos antes de todas as coisas, amá-lO e adorá-lO” (12).

Aparentemente não se pode querer melhor.

“Antes de tudo, devemos ser cristãos” (13).

É o que nos diz o Poeta renascentista.

Ainda a respeito da mentalidade de Petrarca, há um fato muito significativo, que foi sua coroação no Capitólio.

“Este fato”, diz Gregorovius, “abriu na realidade um novo período de civilização. Em meio dos crimes que acompanhavam as contendas dos partidos, no melancólico abandono em que jazia Roma, destaca-se este dia glorioso do poeta inundado pela luz da mais pura humanidade. Do Capitólio recordou o vate (?) ao mundo mergulhado no ódio e na superstição, que o trabalho intelectual haveria de ser o seu salvador, sua obrigação constante e necessária, sua missão mais elevada, seu triunfo mais belo” (14).

* Para o católico, não é o trabalho intelectual o que há de mais elevado. É a Fé. Aquele tem seu mérito, mas só se considerado dentro da Fé

Para o católico, entretanto, não é o trabalho intelectual o que há de mais elevado. É a fé. O trabalho intelectual tem seu mérito, seu papel importantíssimo, mas só se considerado dentro da fé.

Com base nesses exemplos, vê-se o que era o conflito de alma do homem da Renascença e as diferentes direções tomadas.

De um lado, alguns que chegam às últimas conseqüências e caem no pleno abandono da Igreja. De outro, os que tomam em relação à Igreja uma posição claudicante, como um Petrarca, agarrado a Ela, mas fascinado por algo que não é Ela. Ele se agarra às pranchas da fé e seu corpo ainda fica do lado dessa Fé, mas seu coração voa para o classicismo.

Retomemos, entretanto, o fio de nosso pensamento.

Depois de ter sido coroado solenemente como poeta, no Capitólio, Petrarca dirigiu-se à Basílica de São Pedro, para depositar aos pés do Príncipe dos Apóstolos sua coroa de louros.

É uma atitude aparentemente magnífica, à qual nada parece se dever acrescentar, como acontece também com a fraseologia que transcrevemos um pouco mais acima. Tem-se impressão que o equilíbrio entre as duas influências está bem estabelecido.

Em tudo, entretanto, algo de sutil se esconde. Para um verdadeiro católico, não é suficiente que a cultura clássica e os valores cristãos coexistam em sua alma, da mesma forma que uma pequena colina pode estar ao lado de uma grande montanha, sendo que esta domina aquela com toda a sua massa. Ninguém pode dizer que estamos em dia com a Igreja, quando afirmamos que o mais alto valor de nossa alma é o amor e a fidelidade a Ela.

Mas é preciso, mais ainda, que todas as coisas sejam amadas em função da Igreja e com o espírito da Igreja, e não sejam mais que um capítulo dentro do seu patrimônio.

No espírito da Renascença, entretanto há um dualismo. O esforço de Petrarca para conservar a religião católica em sua alma, acima de tudo, e, por outro lado, o fato de ele não compreender que este quisto de classicismo deveria ser amado em função da doutrina da Igreja e não como um valor em si, é um elemento de dualismo.

(…)

Vemos então nascer, lado a lado, dois veios de arte que se vão acentuando, e dois estados de espírito que vão também progredindo quase indefinidamente, até o nosso tempo. De um lado, a alegria sem idéias, que começa por ser olímpica na Renascença, vai se tornando cada vez mais a alegria de orgias até a Revolução Francesa, e depois passa para o tipo da alegria descontrolada de nossos dias. Mas, ao lado desse fluxo de alegria cada vez mais desordenado, a Renascença vai manifestando na arte a outra face da humanidade, que é a da tristeza desesperada, inseparável da alegria desordenada.

Essa tristeza nós a vemos aparecer em dois homens típicos da Renascença: Michelangelo e Leonardo da Vinci. Sobretudo em da Vinci, um homem sombrio, hipocondríaco, amigo de viver sozinho, melancólico, pessimista, triste e imerso no desespero. Mas também em Michelangelo, cujos personagens, em geral, são olímpicos pela estatura, mas não pela alegria. São personagens tristes.

É a tristeza que começa a aparecer na arte, sob as formas pagãs das Fúrias, dos Cíclopes derrotados, dos heróis esmagados, dos grandes revoltados que querem destruir todas as coisas; eis o sentido da glorificação de Espártaco, o chefe dos escravos revoltados.

E com isto começam a aparecer também certas canções, certas poesias de uma tristeza que logo descamba para o lúgubre e para o desesperado.

Como expressão curiosa disto, não só a arte, mas os costumes registram uma modificação. A época das grandes festas é a época em que o luto se complica, em que vão aparecendo as grandes pompas fúnebres. Muito mais do que na Idade Média, a Renascença estilizou os enterros, o luto, os pêsames. Nós sabemos bem do estilo de uma rainha do tempo da Renascença e dos tempos posteriores, por exemplo a rainha Maria Stuart, a receber pêsames numa sala toda forrada de tecidos negros, toda fechada, apenas com velas acesas, inteiramente vestida de branco. É curioso que o luto vai conhecendo uma glorificação. A Renascença teve um luto muito complicado, a tal ponto que em certo momento a humanidade teve de se libertar um pouco desses crepes, porque a vida tornava-se impossível (…)

 

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Onken: “História Universal”, de Guillermo Onken – Mantaner y Simon, editores – Barcelona, 1929.

Weiss: “História Universal”, de J. B. Weiss – Tipografia La Educacion – Barcelona, 1929.

(1)  Onken, vol. XIX, pág.  108

(2)  Onken, vol. XIX, pág.  64

(3)  Onken, vol. XIX, pág.  101

(4)  Onken, vol. XIX, págs. 70 e 71

(5)  Onken, vol. XVIII, págs. 496 e 497

(6)  Onken, vol. XIX, pág. 232

(7)  Onken, vol. XIX, pág. 212

(8)  Onken, vol. XVIII, pág. 487

(9)  Onken, vol. XVIII, pág. 487

(10) Weiss, vol. VIII, pág. 125

(11) Weiss, vol. VIII,  pág.  125

(12) Weiss, vol. VIII,  pág.  126

(13) Weiss, vol. VIII,  pág.  126

(14) Onken, vol. XVIII, pág.  503

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