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Conjecturas sobre o Natal, do 1º ao último – Plinio Corrêa de Oliveira (sem gritos)

24-12-1984 SD

Previsão: “Talvez se faça um contra-Natal, feito de blasfêmias, de imundícies e de opróbrios de toda ordem”.

Áudio editado SEM GRITOS JOANISTAS, COMO TUDO NO CANAL.

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Transcrição deste áudio https://cruciferos.wordpress.com/2019/12/23/conjecturas-sobre-o-natal-do-1o-ao-ultimo-plinio-correa-de-oliveira

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Santa Bibiana, rogai por nós!

 

 

(…) Terminemos imaginando como seria o Natal na Sagrada Família. Nunca vi que alguém tentasse descrever isto. Mas é possível que na noite de Natal, Nossa Senhora e São José celebrassem o primeiro aniversário do Menino Jesus. Não sei se os judeus daquele tempo tinham o hábito de celebrar o aniversário. Mas eu sei que o dia é tão grande que os Anjos, no mais alto dos Céus, quando Nosso Senhor nasceu, cantaram: “Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade!”

É impossível que Nossa Senhora e São José não festejassem esse dia tão grande.

Nós podemos imaginar Nosso Senhor com dois anos, deitado na sua caminha e Nossa Senhora e São José, à meia noite, se aproximando e adorando no silêncio, com medo de acordá-Lo. Em certo momento, Ele levanta os braços, acorda, abre os olhos… Que olhar! Abre os braços para ambos e os abre em forma de cruz – que previsão! – e Eles se aproximam, Lhe osculam os pés e Ele vai de encontro a eles e os abraça! Os beija. Os senhores podem imaginar que impressão? Era o Natal na Casa que hoje está em Loreto: a Casa de Nazaré.

Os senhores podem imaginar, à medida que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crescendo em graça e santidade diante de Deus e dos homens, como o Natal ia ficando mais belo!? Ele mocinho, já maduro, irradiando aquela perfeição, cada vez mais sensível aos homens e que deixava Nossa Senhora e São José cada vez mais encantados!

Como seria essa comemoração? Os Anjos não cantariam? Não se ouviriam coisas extraordinárias nessa Casa? Ao menos que fosse só para os três da Sagrada Família ouvirem? Todas as conjecturas são possíveis, cada uma delas mais bela do que a outra.

Até que veio o Natal onde o primeiro travo da dor estava presente: o primeiro Natal em que São José não estava mais presente. O padroeiro da boa morte, São José, fora levado pela morte e não estava no Céu, porque os justos que morriam naquele tempo iam para o Limbo, à espera do dia bendito em que o Salvador houvesse de morrer e houvesse de resgatar o gênero humano. E ali estava São José que provavelmente sabia que era noite de Natal. E eles conversavam com São José, em espírito. São José rezava para eles. Quem sabe se São José aparecia para preencher este vazio…

Por fim, por fim, outros Natais…

Quem sabe se Nosso Senhor passou longe dEla os três Natais de Sua vida pública? Então, Ela estava só, entregue às suas recordações e entregue às suas previsões de futuro. Ela sabia, Ela sabia o que vinha… Os senhores podem imaginar como é que era esse Natal? Entretanto, até aí, a força de alegria do Natal penetrava tudo e Ela tinha um Natal feliz. Quem sabe se com as santas mulheres… quem sabe se com alguém mais convertido por Nosso Senhor, quem sabe sozinha, num recolhimento único e cercada por todos os Anjos extasiados em vê-La rezar.

Os senhores podem imaginar o primeiro Natal depois da Ascensão? E na Igreja pequenina e nova ainda, que nascia como uma plantinha, cada ano que vinha o Natal se tornava mais belo, mais sagrado, mais recolhido, se introduzia mais uma cerimônia, mais um ritual, mais alguma coisa, firmava-se uma tradição… até o primeiro Natal alegre e pungente em que Ela também tinha subido ao Céu e não estava presente. Aí começava a série longa dos Natais em que, de modo visível, nenhum dos três estava mais presente.

Mas que vai caminhando de marcha em marcha, pelas vias ora sangrentas, ora dolorosas, ora esplendorosas da história até o último Natal.

Como será o último Natal da história?

Pode-se imaginar esse Natal, pouco antes do dia do fim do mundo; pode-se imaginar a humanidade inteira perdida; pode-se imaginar o pecado campeando no mundo; pode-se imaginar um grupo pequeno de fiéis, que são os únicos que ainda celebram o Natal. Talvez se faça um contra-Natal, feito de blasfêmias, de imundícies e de opróbrios de toda ordem. Talvez, se faça um contra-Natal, é isto perfeitamente possível.

Entretanto, entretanto, este contra-Natal não tirará a alegria de um punhadinho de fiéis que estarão ali assistindo a uma Missa celebrada por um Padre fiel também. Em que catacumba? Será embaixo da terra essa catacumba? Ou será que quando chegar o fim do mundo, os prédios vão ter duzentos andares e será no 200º andar de um prédio qualquer, num quartinho apertado, de um cortiço de cimento, ou de sei lá que outra matéria que os homens vão inventar até lá, que se vai celebrar a última Missa de Natal da história?

De qualquer forma, a mesma coisa se passará: algo abre um vácuo no curso da dor e uma alegria vem: “Jesus nasceu, nasceu em Belém!”

Pouco depois, uma voz brada – os homens todos morreram, as catástrofes se deram, só ficaram os últimos fiéis e uma voz …. conclama os homens para a Ressurreição. Começam todos a ressuscitar, as sepulturas se abrem, saem mortos enterrados nos lugares que a gente menos imagina, saem de dentro de uma parede, saem debaixo de um chão, de toda a parte saem mortos que ressuscitam e que vão se apresentando. Aí, mais uma vez Nosso Senhor Jesus Cristo virá sensivelmente à terra, na sua pompa e majestade, para julgar os vivos e os mortos.

E aí Ele sairá e levará para o Céu aqueles que tiverem sido fiéis, enquanto os outros terão sido escorraçados para o Inferno. A História estará terminada e o Céu vai ser um perpétuo Natal, uma perpétua Páscoa, uma perpétua felicidade!

Com isto, meus caros, fica feita uma pequena meditação de Natal.

Natal, visto dos 4 mil anos de espera até a casa da Virgem Maria em Éfeso – Plinio Corrêa de Oliveira

24-12-1980 SD

Áudio editado SEM GRITARIA JOANISTA, COMO TUDO NO CANAL.

Ver mais: https://cruciferos.wordpress.com/2019/12/06/et-vocabitur-princeps-pacis-cujus-regni-non-erit-finis/

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Significado das Siglas https://cruciferos.wordpress.com/significado-das-siglas-das-fontes/

Santa Bibiana, rogai por nós!

A Sabedoria do Menino Jesus na manjedoura – Plinio Corrêa de Oliveira (1971)

23-12-1971 SD

Ao final da reunião (não incluso no áudio) Dr. Plinio pede também pela alma aflita de Dr. Fábio Vidigal Xavier da Silveira, renomado autor de obra profética sobre a situação política do Chile de então. Dr. Fábio veio a falecer dias após esta reunião.

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Para palavras desconhecidas, como Bagarre e Reino de Maria, ver glossário https://cruciferos.wordpress.com/glossario/

Transcrição deste áudio https://cruciferos.wordpress.com/2019/12/20/a-sabedoria-do-menino-jesus-na-manjedoura-plinio-correa-de-oliveira-1971

Significado das Siglas https://cruciferos.wordpress.com/significado-das-siglas-das-fontes/

Santa Bibiana, rogai por nós!

 

A Sabedoria do Menino Jesus na manjedoura: embora criança, foi concebido sem o pecado original e portanto plenamente lúcido e dotado de vontade desde o primeiro instante do Seu ser; Sua humanidade santíssima estava inundada de altíssimas graças de sabedoria e de fortaleza * Quais eram suas cogitações? Sua comunicação com Nossa Senhora? Perspectiva do Calvário, os Natais que haveria, inclusive o ultimo que haverá * Intenção especial por Dr. Fábio

Eu quis fazer com os senhores essa reunião hoje à noite, para não passar uma semana sem que nós tivéssemos uma oportunidade de um ligeiro contato de alma. Tanto mais que se aproximam festas tão superlamente significativas para os católicos, como são essas que se vão desenrolar agora, como o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, como a festa da Circuncisão no dia 1º do ano.

Me parece que nós nos deveríamos perguntar como é que nós nos devemos preparar para o dia de Natal, e sobretudo para o momento culminante do dia de Natal que é a Missa; e sobretudo dentro da Missa, os dois momentos culminantes dentro dela: primeiro, o que diz respeito à própria Missa, em que o culminante é a hora da Consagração, em que se opera a transubstanciação, e ao mesmo tempo se faz o Sacrifício incruento da Cruz; e depois, o momento de nós recebemos o Santíssimo Sacramento dentro de nossas almas.

Como é que nós podemos nos preparar mais especialmente para essas festas?

Há uma dificuldade de preparação, que eu creio que existe psicologicamente em muitas pessoas, e que vem do fato de na adoração de Jesus Menino nós termos a idéia, — que nos é apresentada pela iconografia comum, pelas imagens comuns — de que nós estamos adorando uma criança, e uma criança que se apresenta a nós com a inteligência, com a falta de discernimento própria à infância. E é um pouco difícil a gente fazer a adoração de um ente em relação ao qual a gente não tem uma comunicação de pensamento, do qual a gente sabe que tem a natureza divina, mas que em sua natureza humana não tem a sabedoria, não tem a inteligência, não tem o alcance do homem adulto. De maneira tal que aquela fisionomia humana que nós temos diante de nós não nos convida para uma comunicação de alma como de uma pessoa que começa a pensar, que começa a refletir, etc.

Então, a meditação clássica que se faz, por exemplo, diante de um presépio, é ver o Menino Jesus tão criança, tão pequeno, tão frágil, e estabelecer o contraste entre a imensidade de Deus e aquela criatura tão pequena, na qual Nosso Senhor Jesus Cristo se encarnou, com a qual Ele assumiu uma união hipostática.

Então, nós fazemos uma meditação a respeito da humildade de Deus, de um lado, e de outro lado, do desejo extremo de nos salvar que levou Deus Nosso Senhor a ponto de Se reduzir àquela condição de uma criatura na manjedoura, unir-se hipostaticamente aquela criatura na manjedoura, e por essa forma tomar a carne do homem para salvar os homens.

Essa é uma ordem de idéias muito boa, uma ordem de idéias tão boa que se tornou comum, tão comum que se tornou, talvez, um pouco demasiado comum para nós. E talvez nós quiséssemos, para esse Natal, uma ordem de idéias mais perfeita, — mais perfeita para nós, uma ordem de idéias mais adaptada à nossa psicologia. E nós então deveríamos nos perguntar se a iconografia católica, se as imagens católicas comuns que nos apresentam Nosso Senhor Jesus Cristo como uma criança sem discernimento, olhando para as coisas sem ver bem o que é que são, sem entender o que está em torno de si, se essas imagens correspondem a algo de verdadeiro, e se é bem verdade que Nosso Senhor Jesus Cristo tinha essa ininteligência própria à infância.

A isso se deve responder o seguinte: Nosso Senhor Jesus Cristo de algum modo, realmente, teve na sua alma humana as várias idades pelas quais Ele passou e que Ele teve, portanto, uma verdadeira infância na sua alma humana. Ele teve uma verdadeira infância, como Ele depois teve os vários estágios da maturidade, até chegar à sua idade perfeita. E que Ele, portanto, teve uma verdadeira alma de criança, como Ele teve uma verdadeira alma de adolescente, como Ele teve uma verdadeira alma de moço, depois uma verdadeira alma de homem maduro. Mas isso não quer dizer, nem um pouco, que Ele na sua infância, tivesse a fraqueza e tivesse a falta de discernimento própria à infância.

O que os teólogos dizem, pelo contrário, é que desde o primeiro momento de Seu ser na Encarnação, quando Ele estava ainda no ventre de Nossa Senhora, Ele já tinha toda a inteligência e tinha toda a lucidez. De maneira tal, que era uma criança sapientíssima. Era uma criança no estado de vida ainda uterina, mas já sapientíssima e Ele teve essa sapiência ao longo de toda a Sua vida.

Porque essa espécie de imbecilidade da infância, essa imbecilidade Nosso Senhor Jesus Cristo não teve: ela decorre do pecado original e Nosso Senhor Jesus Cristo era concebido sem o pecado original. Ele tinha, portanto, toda a sabedoria, embora acomodada às circunstâncias de uma criança, mas sem os defeitos da inteligência de uma criança. Ele, portanto, era inteligentíssimo, era sapientíssimo, era perfeitíssimo, embora fosse uma criança.

E nesse sentido, eu creio que a iconografia católica não erra, mas mostra apenas um aspecto da verdade, e que há até imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo Menino que mostram também outro aspecto da verdade. Para aqueles que tratavam com Nosso Senhor, para aqueles que lidavam com Ele, Ele deveria parecer uma criança sujeita às condições comuns da criança, porque o milagre não podia aparecer, não podia estourar, não podia se mostrar escachoante nEle de um modo irrecusável. Na sua vida pública Ele praticou numerosos milagres, mas é certo que nenhum desses milagres era tal que tivesse o caráter de uma evidência de cegar, irrecusável; eram milagres como são os que se praticam em Lourdes, bastante claros para que uma pessoa de boa fé possa crer, mas não com uma evidência tal que tornem a fé inteiramente irrecusável.

Ora, isto se daria se Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda em menino — criancinha e posto numa manjedoura — começasse a falar e dissertar como se Ele fosse um homem dotado de uma sabedoria extraordinária. Isso não poderia ser. Ele tinha, portanto, as aparências de uma criança, e as aparências de uma criança que estava no estado de criança, mas isso era por uma humildade dEle e para conservar os tempos úteis e necessários para que Ele se fosse revelando gradualmente nos modos e nos graus em que Ele queria se revelar. Mas desde o presépio, desde o primeiro instante de Seu ser, Ele tinha uma alta sabedoria.

E quando nós consideramos Nosso Senhor Jesus Cristo, nós O devemos considerar nesse mistério, deitado na manjedoura, parecendo ser uma verdadeira criança, parecendo ter apenas o discernimento de uma criança, mas tendo em Si toda a sabedoria de que a natureza humana é capaz; de outro lado, da natureza humana sem pecado original, elevada ao mais alto grau da graça e unida em união hipostática com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

De maneira que, aquela criança na manjedoura tinha mais inteligência, mais conhecimento de todas as coisas, mais santidade do que tiveram todos os entes que houve antes e depois dEle sobre a terra, mas incomparavelmente mais. De maneira tal que era verdadeiramente um ápice de humanidade e, mais do que um ápice da humanidade, um ápice da obra da graça; e mais do que ápice da obra da graça, era o próprio Deus unido hipostaticamente e formando uma só pessoa com a natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo que ali estava naquela manjedoura.

De maneira que então nós temos que considerar que ali deitado na manjedoura, Nosso Senhor Jesus Cristo via tudo aquilo que deveria fazer na terra. E Ele tinha a certeza, tinha o conhecimento e tinha a vontade de tudo aquilo que em torno dEle estava se passando, que era pela vontade dEle que aquelas coisas eram daquele jeito, e que estavam se movendo daquela forma; era pela vontade dEle que Nossa Senhora era como era; era pela vontade dEle que Ela O estava adorando como estava. E Ele correspondia a essa adoração com uma generosidade, uma bondade perfeita, que super-inundava Nossa Senhora de gáudio.

Nossa Senhora, quando olhava para Ele, sabia disso: quando olhava para Ele conhecia qual era o grau de discernimento e santidade que havia nEle, e entrava com Ele num diálogo mudo, mas mil vezes mais eloqüente do que num diálogo falado — que deveria ser alguma coisa de maravilhoso e insondável — em que Ela se comunicava com Ele e Ele revelava a Ela os mistérios da sabedoria e da santidade dEle. E Ela se enlevava, e Ela crescia cada vez mais, Ela mesma, em santidade. Esse era o primeiro diálogo de Nosso Senhor com Nossa Senhora, uma vez Ele nascido.

Nós devemos considerar que era Ele que queria estar ali, naquele lugar pobre; que era Ele que queria que os pastores ali fossem; que Ele sabia tudo o que ia acontecer depois; sabia até Sua morte de Cruz; e que tudo quanto Ele ia fazer nesta terra Ele estava oferecendo ali, germinativamente, ao Padre Eterno, para a realização de sua missão. Nós devemos considerar que Ele não pensava apenas na Sua vida terrena, mas pensava depois na missão da Igreja por todos os séculos.

E que Ele já tinha a intenção, por exemplo, de que esse Natal dEle fosse o primeiro Natal, e conhecia todos os Natais que se deveriam dar depois até o fim do mundo. E sabia de todas as festas de Natal magníficas, por exemplo, nas catacumbas; esplêndidas nas catedrais da Idade Média; belas, nobres em tantas igrejas do Ancien Régime; comovedoras, veneráveis em tantas igrejas dos séculos passados e até em algumas igrejas do nosso século.

Ele tinha em vista também os tristes Natais modernos, os tristes Natais de uma liturgia deteriorada, em igrejas completamente profanadas, em que multidões intoxicadas de espírito revolucionário não compreenderiam mais a data que estavam celebrando e talvez a celebrassem num espírito oposto exatamente a essa data.

Ele via também os Natais que nós vamos ter que passar na Bagarre. Ele via os Natais duros, difíceis, cheios de trevas, cheios de incerteza. Ele via os Natais da Igreja Católica do silêncio, nos países de fora da Cortina de Ferro, da Igreja Católica do silêncio nos países do Ocidente.

{{ Dessa Igreja Católica que geme sob os escombros da Igreja Católica, dessa Igreja Católica que somos nós e que quase não temos onde ir, que quase não temos onde rezar, que quase não temos aonde satisfazer a nossa piedade nessa noite, mas que vamos de cá, de lá e de acolá, quase como trânsfugas, quase como clandestinos, procurar ainda onde se rezem Missas de acordo com o espírito da Igreja, de acordo com as leis da Igreja, para aí adorar a Nosso Senhor Jesus Cristo no Santo Natal. }}

Essa fidelidade encantou a Ele. Ele resolveu premiar essa fidelidade — que aliás é um dom gratuito dEle — Ele resolveu abençoar-nos nessa ocasião, e nós devemos então oferecer a Ele, nessa noite, o Natal dos trânsfugas, o Natal daqueles que são ignorados, são negados, são isolados, são perseguidos; o Natal daqueles que, apesar de tudo, são fiéis e querem ser cada vez mais fiéis, que percebem que na perspectiva de suas vidas haverá lutas e perseguições sempre maiores, mas que desejam enfrentar essas lutas e perseguições por amor dEle, e que esperam chegar, pela graça dEle, e pelas orações de Nossa Senhora, até o Reino de Maria.

Depois, Ele previu os Natais esplêndidos do Reino de Maria; e depois, Ele já tinha conhecimento dos Natais tristes em que o Reino de Maria começará a decair — de uma decadência então última e inexorável e que nada mais se salvará — mas Ele previu também, um Natal que talvez seja da seguinte maneira — o último Natal sobre a terra — três, quatro, cinco, oito, dez fiéis esparsos não se sabe por onde, festejando sozinhos o verdadeiro Natal, talvez até sem se conhecerem, sabendo que nada mais pode durar, porque a Igreja Católica está nos seus últimos haustos.

Quando a Igreja Católica ameaça de morrer, ou ressuscitará ou o mundo vai acabar, porque ela não poderá acabar antes que o mundo desapareça; enquanto o mundo for mundo haverá a Igreja Católica: serão os fiéis dos últimos tempos, tão provados, que por causa deles, diz Nosso Senhor, se abreviarão os últimos dias, senão eles mesmos não se salvarão.

E quem sabe lá se o último dia do mundo não vai ser no Natal? Quem sabe lá se na meia-noite de 24 para 25 do último dezembro da História, quem sabe se na meia noite de 24 para 25 do último Natal da História, quando tudo parecer completamente perdido, um raio percorrerá os céus do Oriente até o Ocidente, um terror se apoderará dos povos, os anjos aparecerão, a abóbada celeste, como diz Jó, se enrolará como um pergaminho e virá o Filho do Homem em toda a Sua majestade para julgar os vivos e os mortos. Quem sabe lá se não vai ser este o último Natal?

A vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo de novo à terra, a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo na glória e na alegria de um Natal em que os católicos, empolgados, cantarão o ‘Stille Nacht! Heilige Nacht!’ — Noite silenciosa, noite santa! — junto com os anjos e, ao mesmo tempo, começará a fazer aurora: os mortos começam a ressuscitar, os justos aclamam Nosso Senhor; Nossa Senhora aparece na frente do cortejo de todas as almas eleitas, o julgamento se dá e os precitos são encerrados no inferno.

É possível que isso seja numa Páscoa da Ressurreição; é possível que seja num Natal. E é conveniente que nós, admitindo essa hipótese, deitemos o olhar para esses últimos irmãos da última perseguição e que nós compreendamos qual é o sentido profundo do Natal para aqueles que são perseguidos: desde o Natal das catacumbas até o Natal do fim dos tempos.

Pois bem, de tudo isso nós nos devemos lembrar quando nós adorarmos Nosso Senhor por ocasião da Transubstanciação e quando nós recebermos o Santíssimo Sacramento.

Nós devemos, então, por meio de Nossa Senhora, e Maria, com Maria, e por Maria — porque Ela é a Medianeira de todas as graças, e só por meio dEla nós vamos a Nosso Senhor e só por meio dEla Nosso Senhor vem a nós – nós, com Maria, em Maria e por Maria, nós devemos pedir a Nosso Senhor que nos dê o amor ao nosso Natal de perseguidos, que nos dê o entusiasmo pela condição que nós temos, pela qualidade que Ele nos pôs de sermos imerecidamente os fiéis que, ao lado de outras almas esparsas pela terra, lhe dão glória no meio dessa desagregação geral de todas as coisas. Que Ele nos arme espiritualmente para as provações que vêm, que Ele nos prepare para as lutas nas quais Ele quer que nós sejamos heróis, porque toda a graça, toda a força, toda a sabedoria, toda a destreza, toda a energia nos vem dEle, e na Bagarre nós só estaremos à altura das circunstâncias pelas graças que nos virão dEle pelas mãos e pelas preces de Maria.

Nós devemos pedir a Nosso Senhor, nessa ocasião, que Ele nos perdoe tantas e tantas faltas que temos cometido; que Ele queira misericordiosamente fechar os olhos ao nosso passado — como ao nascer Ele fechou os olhos para o passado pecaminoso do povo eleito e do mundo antigo — e iniciar conosco uma nova era de graças, uma nova era de misericórdia e de bondade, uma nova era de paz, pela qual, inteiramente reconciliados com Ele, nós possamos afinal começar a ser aqueles cruzados que Ele quer que nós sejamos.

Essas são as orações que nós devemos oferecer a Ele. Ao mesmo tempo gemidos de arrependimento e manifestações de esperança e de confiança, de certeza que se Ele veio à terra para salvar os homens, veio à terra para nos salvar a nós; que se Ele esteve naquela manjedoura para o bem dos homens, esteve naquela manjedoura para meu bem, para o bem de cada um dos senhores individualmente. Ainda que não houvesse senão um homem, e esse homem fosse eu, ou fosse um dos senhores, Ele teria vindo àquela manjedoura por amor daquele homem.

De maneira que devemos imaginar legitimamente que Ele só está ali por causa de cada um de nós, e pedir a Ele que esse ato maravilhoso não seja estéril para nossas almas; e pela bondade dEle, que Ele passe por cima de nossos defeitos, passe por cima de nossos pecados, arrase os obstáculos que nós levantamos e nos converta finalmente para pertencermos completamente a Ele. É isso que nós devemos pedir, por meio de Nossa Senhora, na noite de Natal.

Ali, bem junto ao presépio, estava Nossa Senhora. O Evangelho diz expressamente, que os pastores O encontraram com Maria, indicando que é só com Nossa Senhora e junto a Nossa Senhora que Nosso Senhor se encontra. E naquele momento em que Nosso Senhor veio à terra, Ela teve a intenção de que Ele sofresse tudo quanto devia sofrer por nós, e Ela pediu a Ele todas as graças necessárias para cada um de nós e continua a pedi-las até agora, e continua a pedi-las no Céu.

Nós devemos nos unir a esse pedido; não apresentar a Nosso Senhor nosso pedido individual, tão pífio e tão desvalido, mas, usando a expressão de São Luís Grignion, pôr o pedido nas mãos de Nossa Senhora, como um camponês põe uma fruta comum na bandeja de ouro para oferecer ao rei. A salva de ouro são as mãos de Nossa Senhora, é o coração de Nossa Senhora. Vamos pedir que nosso pedido passe por Ele e seja apresentado dessa forma até Ele. E então com a certeza de sermos bem recebidos, com a certeza de sermos atendidos, porque tudo quanto passa por Nossa Senhora é bem recebido por Nosso Senhor, e porque Nossa Senhora nunca recusa coisa alguma do que nós pedimos a Ela, com essa certeza nós podemos tranqüilamente transpor o Natal.

A oração ideal para o momento da Transubstanciação — cada um rezará a sua — mas para mim é ou a Salve Rainha ou o Memorare, pedindo a Nossa Senhora, por exemplo no Memorare, que me torne bem consciente de que nunca se ouviu dizer que Ela tenha recusado um pedido, e portanto, naquela hora sacrossanta não recusaria o meu. Qual era o meu pedido? De ser inteiramente dEla. Apesar dos meus defeitos, apesar das minhas ingratidões, apesar de tudo, que Ela tomasse conta de mim e me fizesse inteiramente dEla para eu ser o herói, o santo e o cruzado que Ela quer que cada um de nós seja. Isto é a oração especial que nós devemos fazer no Natal.

A essa oração eu acrescento, naturalmente, a oração que cada um de nós deve fazer por todos os outros e especialmente pelas almas mais tentadas e mais provadas da TFP. Essas intenções pelas almas mais tentadas e mais provadas têm sido tantas vezes lembradas aqui, que eu não julgo necessário acrescentar coisa alguma a isso. Entretanto, eu queria acrescentar a essa lista de almas que merecem de preferência a nossa oração, uma alma aflita.

Nós sabemos que nosso brilhante, nosso caríssimo Dr. Fábio está numa aflição que talvez seja a suprema aflição da vida dele. Exatamente intitulavam-se antigamente os aflitos aqueles que tinham sido condenados à morte e que estavam se preparando para receber a execução da sentença. E, por extensão, os moribundos. E as capelas de Nossa Senhora dos Aflitos eram as capelas de Nossa Senhora dos moribundos. Ele não está moribundo, mas ele tem a morte diante de si. E, gradualmente, no curso desse tempo, se não houver alguma intervenção surpreendente de Nossa Senhora a morte vai se tornar cada vez mais próxima dele. E nós devemos pedir que ela se aproxime dele como se aproxima uma luz, como se aproxima uma salvação, como se aproxima a saída desse mundo cheio de lágrimas.

Que Nossa Senhora o ajude nesses momentos supremos em que a graça dá o último polimento a uma alma para que ela apareça diante de Deus. Que Nossa Senhora o ajude nesse momento supremo, de maneira que a sua alma progrida tanto quanto Nossa Senhora deseja, isto é, imensamente. De sorte que, quando Ela colher o último suspiro dele, que talvez seja realmente por ocasião dessa doença — tudo leva a crer que sim — que Ela receba esse suspiro com o pleno agrado dEla e com o pleno brilho para a alma dele, com a santificação inteira da alma dele. Isso é o que nós devemos pedir nessa noite de Natal.

Talvez seja bom acrescentar a isso um pedido: que nós, no exemplo dele nos miremos e compreendamos como a vida humana é frágil. Há pouco tempo atrás ele aparecia aos nossos olhos estuante de saúde, a própria vivificação da personalidade, vivo, alegre, eu quase diria lampeiro, brincalhão, eu quase diria saltitante, difundindo vivacidade em torno de si, como a vida inteira ele se apresentou. Entretanto, em certo momento Nossa Senhora bateu na porta da alma dele ‘meu filho, chegou sua hora de deixar essas coisas e de vir a mim’; amanhã não poderá bater à porta da alma de qualquer um de nós?
Já não temos dois sepultados no cemitério do Araçá? Já não temos o nosso Dr. Ablas, para os que conheceram o Grupo mais remotamente, já não temos o José Gustavo de Sousa Queirós? E assim outras almas não poderiam ser lembradas? Quem sabe se nesse ano chegará a vez de um de nós?

Alguém dirá: ‘Que absurdo!’ Ele o poderia dizer no começo de 1971 e se nós disséssemos que ao cabo de 1971 nós estaríamos temendo pela vida dele e rezando pela alma dele, ele diria que não, que é uma alucinação, que não podia ser. E se dissesse: ‘vai ser alguém’, nós não nos lembraríamos que era ele. Entretanto, prouve a Nossa Senhora que fosse ele.
Nós podemos saber se será algum de nós? E não é o caso de pedirmos a Nossa Senhora que prepare também as nossas almas, já que a breve ou longo prazo todo homem é um moribundo? A nossa vida é um morrer continuamente; todo minuto que passa nos aproxima da morte, aos jovens como aos velhos. Alguém dirá: ‘Mas o velho está mais perto’. Eu digo: É bem verdade. O jovem, na melhor das hipóteses, chegará lá. Quem pode negar isso?

D. Duarte Leopoldo era já um homem bem velho e uma vez ou outra uma pessoa, para fazer graça etc. etc., dizia a ele: ‘Senhor Arcebispo, que bela idade Vossa Excelência atingiu!’ Ele dizia: ‘Eu cheguei até lá. Vosmecê chegará?’ É uma pergunta, é uma pergunta… quão fundada em realidade essa pergunta!… E quão bom é que nós tenhamos essa pergunta diante de nós. Esse ano de 72 não será o último de alguém que está dentro dessa sala? Meu? De algum dos senhores? Não conviria pedir a Nossa Senhora que nos preparasse para isso amorosamente, com antecedência, dando-nos todas as disposições de alma necessárias para tanto?

Aqui estão as idéias que eu acho que nós devemos considerar nesse Natal.

 

Nossa Senhora de Coromoto, Mãe de Misericórdia, Rainha da compaixão

(*) Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 5 de janeiro de 1975. Sem revisão do autor.

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O trono e a base da imagem de Nossa Senhora de Coromoto combinam-se de modo muito feliz. O trono, com o espaldar alto e a curva em cima, faz sentir muito a elevação de Nossa Senhora, dando a idéia de que Ela tem a inteira noção da própria majestade. A base, bem calculada para dar idéia de proximidade, tem uma proporção muito amena, numa altura acessível a todos.

A imagem é de mármore branco, mas de uma alvura tal que se diria que é feita de uma matéria nívea que não é da Terra. Essa brancura significa uma transparência da essência divina e extraterrena. Embora Nossa Senhora não tenha essência divina, está penetrada da graça de Deus.

À luz do dia, tem-se a impressão de que o mármore reflete a alvura; à luz da noite, de que a alvura habita como uma luz interna dentro da matéria, com eflúvios de luz em seu interior.

A própria representação psicológica de Nossa Senhora é imaculadíssima, toda feita desse níveo habitando nEla e Ela morando num Céu níveo, onde todas as coisas seriam níveas.

A primeira nota de majestade e grandeza que dEla emana é a participação num outro mundo, e que A coloca fora de comparação com qualquer coisa. A atitude é de muita calma, de quem está se sentindo perfeitamente bem onde está; e não conta o tempo, disposta a passar séculos sentada aí. É o que se poderia chamar de felicidade de situação.

O olhar e uma pequena propensão da cabeça dão a entender que Ela é toda atenção. Ela dá a impressão de que tem uma dupla atenção: uma para os valores internos e celestes d´Ela; e outra atenção para quem está à sua frente, e para quem Ela é solícita: “Eu tenho misericórdia. O que você quer?”

A primeira nota de majestade e grandeza que dEla emana é a participação num outro mundo, e que A coloca fora de comparação com qualquer coisa. A atitude é de muita calma, de quem está se sentindo perfeitamente bem onde está; e não conta o tempo, disposta a passar séculos sentada aí. É o que se poderia chamar de felicidade de situação.

O olhar e uma pequena propensão da cabeça dão a entender que Ela é toda atenção. Ela dá a impressão de que tem uma dupla atenção: uma para os valores internos e celestes d´Ela; e outra atenção para quem está à sua frente, e para quem Ela é solícita: “Eu tenho misericórdia. O que você quer?”

A majestade da imagem representa a consciência de governo e o senso de ver as coisas no seu conjunto. Ela tem a visão superior das coisas, sabe como elas se compaginam e sabe como mandar, para que andem direito. Esse direito de mandar se exprime na relação d´Ela com o Menino Jesus. Ela o segura como quem manda, mas por outro lado Ela o aponta, como quem diz: “Se vocês querem me agradar, olhem para Ele, porque eu vivo para Ele”.

De maneira que, ao mesmo tempo, Ela manda nEle, que é o primeiro dos súditos dEla, e Ele é o cetro dEla; mas Ela é o trono dEle, no qual Ele se senta como num trono digno dEle. Assim, Ela realça a majestade dEle.

ET VOCABITUR PRINCEPS PACIS, CUJUS REGNI NON ERIT FINIS

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Plinio Corrêa de Oliveira, “Catolicismo” Nº 24, Dezembro de 1952

Considerando os fatos numa vasta perspectiva histórica, o Santo Natal foi o primeiro dia de vida da civilização cristã. Vida ainda germinativa e incipiente, como os primeiros clarões do sol que nasce; mas vida que já continha em si todos os elementos incomparavelmente ricos, da esplêndida maturidade a que se destinava.

Com efeito, se é bem verdade que a civilização é um fato social, que para existir como tal nem sequer pode contentar-se de influenciar um pequeno punhado de pessoas, mas deve irradiar sobre uma coletividade inteira, não se pode dizer que a atmosfera sobrenatural que emana do presépio de Belém sobre os circunstantes já estava formando uma civilização. Mas se, de outro do, consideramos que todas as riquezas da civilização cristã se contém em Nosso Senhor Jesus Cristo como em sua fonte única, infinitamente perfeita, e que a luz que começou a brilhar sobre os homens em Belém havia de alongar cada vez mais seus clarões, até se estender sobre o mundo inteiro, transformando mentalidades, abolindo e instituindo costumes, infundindo espírito novo em todas as culturas, unindo e elevando a um nível superior todas as civilizações, pode-se dizer que o primeiro dia de Cristo na terra foi desde logo o primeiro dia de uma era histórica.

Quem o haveria de dizer? Não há ser humano mais débil do que uma criança. Não há habitação mais pobre do que uma gruta. Não há berço mais rudimentar do que uma manjedoura. Entretanto, esta Criança, naquela gruta, naquela manjedoura, haveria de transformar o curso da História.

E que transformação! A mais difícil de todas, pois que se tratava, não de acelerar o curso das coisas no rumo em que seguiam, mas de orientar os homens no caminho mais avesso a suas inclinações: a via da austeridade, do sacrifício, da Cruz. Tratava-se de convidar à Fé um mundo apodrecido pelas superstições, pelo sincretismo religioso e pelo ceticismo completo. Tratava-se de convidar para a justiça uma humanidade afeita a todas as iniquidades: o domínio despótico do forte sobre os fracos, das massas sobre as elites, e da plutocracia – que reúne em si todos defeitos de umas e outras – sobre a própria massa. Tratava-se de convidar ao desapego um mundo que adorava o prazer sob todas as suas formas. Tratava-se de atrair para a pureza um mundo em que todas as depravações eram conhecidas, praticadas, aprovadas. Tarefa evidentemente inviável, mas que a Divina Criança começou a realizar desde o seu primeiro momento nesta terra, e que nem a força do ódio judaico, nem a força do domínio romano, nem a força das paixões humanas poderia conter.

* * *

Dois mil anos depois do Nascimento de Cristo, parecemos ter voltado ao ponto inicial. A adoração do dinheiro, a divinização das massas, a exasperação do gosto dos prazeres mais vãos, o domínio despótico da força bruta, as superstições, o sincretismo religioso, o ceticismo, enfim o neo-paganismo em todos os seus aspectos invadiram novamente a terra.

Blasfemaria contra Nosso Senhor Jesus Cristo quem afirmasse que este inferno de confusão, de corrupção, de revolta, de violência que temos diante de nós é a civilização cristã, é o Reino de Cristo na Terra. Apenas um ou outro grande lineamento da antiga cristandade sobrevive, abalado, no mundo de hoje. Mas, em sua realidade plena e global a civilização cristã deixou de existir, e da grande luz sobrenatural que começou a fulgir em Belém muito poucos raios brilham ainda sobre as leis, os costumes, as instituições e a cultura do século XX.

Porque isto? Teria a ação de Jesus Cristo – tão presente em nossos tabernáculos como na gruta de Belém – perdido algo de sua eficácia? Evidentemente não.

E, se a causa não está nem pode estar nele, por certo está nos homens. Vindo a um mundo profundamente corrompido, Nosso Senhor e depois dele a Igreja nascente encontraram almas que se abriram à pregação evangélica. Hoje, a pregação evangélica se dissemina por toda a terra. Mas cresce assustadoramente o número dos que se recusam com obstinação a ouvir a palavra de Deus, dos que pelas idéias que professam, pelos costumes que praticam, estão precisamente no pólo oposto à Igreja. “Lux in tenebris lucet, et tenebrae eam non comprehenderunt”.

Nisto, só nisto, está a causa de ruína da civilização cristã no mundo. Pois se o homem não é, não quer ser católico, como pode ser cristã a civilização que nasce de suas mãos?

* * *

Espanta que tantos homens perguntem qual a causa da crise titânica em que o mundo se debate. Basta imaginar que a humanidade cumprisse a Lei de Deus, para que se entenda que ipso facto a crise deixaria de existir. O problema, pois, está em nós. Está em nosso livre arbítrio. Está em nossa inteligência que se fecha à verdade, em nossa vontade que, solicitada pelas paixões se recusa ao bem. A reforma do homem é a reforma essencial e indispensável. Com ela, tudo estará feito. Sem ela, tudo quanto se fizer será nada.

Esta é a grande verdade que se deve meditar no Natal. Não basta que nos inclinemos ante Jesus Menino, ao som dos hinos litúrgicos, em uníssono com a alegria do povo fiel. É necessário que cuidemos cada qual de nossa reforma, e da reforma do próximo, para que a crise contemporânea tenha solução, para que a luz que brilha do presépio recobre campo livre para sua irradiação em todo o mundo.

* * *

Mas como conseguir isto? Onde estão nossos cinemas, nossos rádios, nossos diários, nossas organizações? Onde estão nossas bombas atômicas, nossos toques, nossos exércitos? Onde estão nossos bancos, nossos tesouros, nossas riquezas? Como lutar contra o mundo inteiro?

A pergunta é ingênua. Nossa vitória decorre essencialmente e antes de tudo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Bancos, rádios, cinemas, organizações, tudo isto é excelente, e temos obrigação de o utilizar para a dilatação do Reino de Deus. Mas nada disto é indispensável. Ou, em outros termos, se a causa católica não contar com estes recursos, não por negligencia e falta de generosidade nossa, mas sem nossa culpa, o Divino Salvador fará o necessário para que vençamos sem isto. O exemplo, deram-no os primeiros séculos da igreja: não venceu esta, a despeito de se terem coligado contra ela todas as forças da terra?

Confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo, confiança no sobrenatural, eis outra lição preciosa que nos dá o Santo Natal.

* * *

E não terminemos sem colher mais um ensinamento, suave como um favo de mel. Sim, pecamos. Sim, imensas são as dificuldades que se nos deparam para voltar atrás, para subir. Sim, nossos crimes e nossas infidelidades atrairão sobre nós a cólera de Deus. Mas, junto ao presépio, temos a Medianeira clementíssima, que não é juiz mas advogada, que tem em relação a nós toda a compaixão, toda a ternura, toda a indulgência da mais perfeita das mães.

Olhos postos em Maria, unidos a Ela, por meio dela, peçamos neste Natal a graça única, que realmente importa: o Reino de Deus em nós e em torno de nós.

Todo o resto nos será dado por acréscimo.

As três profundidades da Revolução Francesa: nas tendências, nas ideias e nos fatos

Por Plinio Corrêa de Olivera

3-01-1976 SD

(Sr.: O senhor podia comentar o trecho da RCR sobre as três profundidades da Revolução: nas tendências, nas idéias e nos fatos? – Parte I, (Nota: Capítulo V, N°s. 1, 2 e 3) – Aí vem afirmado que as profundidades da Revolução não se identificam com etapas cronológicas. Essas profundidades são de algum modo escalonadas. Mas uma análise atenta evidencia que as operações que a Revolução nela realiza de tal modo se interpenetram no tempo que essas diversas profundidades não podem ser vistas como outras tantas unidades cronológicas distintas)

Os senhores querem que eu exemplifique com a Revolução Protestante, Revolução Francesa ou Revolução Comunista?

(Revolução Francesa.)

Acho que escolheram bem, porque o espírito revolucionário não é propriamente mais forte na Revolução Francesa, mas porque todo fato passado na França é mais claro do que em outros lugares. Onde entra o gênio luminoso do francês, o mal e o bem tomam uma clareza incomparável. E por causa disso o fenômeno Revolução, como aliás também o da Contra-Revolução, toma uma clareza extraordinária nos fatos da Revolução Francesa. Então, vejamos como nela se põe as três profundidades.

Quais foram as tendências que antecederam a Revolução Francesa?

Para não fazermos uma história muito remota, pois seria longo narrar – dado que as tendências da Revolução Francesa derivam da Protestante – vamos dar as tendências mais ou menos próximas que precederam a Revolução Francesa.

Os senhores têm visto objetos que datam do “Ancien Régime” (Antigo Regime) francês: fachadas de prédios, interiores de salas, carruagens, quadros, esculturas, gravuras representando personagens, etc. Todas essas coisas nos dão uma mesma impressão: de um lado, de grande gosto, de grande finura, de grande esplendor. Mas ao mesmo tempo, de outro lado, de um otimismo invariável.

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Os senhores tomem, por exemplo, o quadro de Luis XVI existente na Sede do Reino de Maria. Não sei quanto dos senhores prestaram atenção nele. Os senhores vêem que se trata de uma gravura feita quando a Revolução Francesa já tinha começado. Luis XVI é apresentado com uma capa magnífica, do tempo antigo ainda, medieval, com uma espada que pertenceu a Carlos Magno, que era um rei triunfador. Ele está de pé, com a perna direita para frente em atitude de dominação, de quem anda e com um ar solene.

O corpo é de herói, a cara de um bonachão, que não entende grande coisa do que vê, completamente despreocupada, completamente desanuviada.

A atitude é de um monarca que está reinando sobre um reino pacífico e que não tem nada no que pensar, otimista, mostrando sua grandeza e mais nada.

Os senhores tomem, por exemplo, aquelas carruagens todas douradas, com cristais, com plumas: é a idéia otimista da vida, toda orientada no sentido de que ela foi feita para o prazer. O defeito preponderante do Ancien Régime em matéria de tendências é isto. É uma tendência para a vida fácil, despreocupada, uma diversão contínua, para a qual o Ancien Régime tinha, aliás, uma montagem magnífica.

A tendência para o prazer no “Ancien Régime” gerava uma aversão ao sacrifício e oposição à lei e à autoridade, produzindo as idéias liberais da Revolução Francesa

Acontece que esta tendência contínua para o prazer tem que trazer necessariamente uma aversão ao sacrifício, porque quem está só querendo divertir-se não pode fazer uma coisa séria que custe esforço. É impossível. Porque não é divertido. Algo que exija previsão, trabalho, reação e luta, uma pessoa que quer viver em meio a diversões não pode absolutamente gostar de fazer isto.

Ora, uma pessoa que não gosta de fazer aquilo que é difícil não pode gostar de cumprir a lei, porque toda lei manda fazer o que é difícil. Não há lei que mande fazer coisas fáceis. A lei, de si, só manda o que é difícil.

Resultado: o sujeito que só vive em meio ao prazer fica com birra da lei que manda coisas difíceis, bem como da autoridade que cumpre a lei e impõe – por meio de castigos – que a pessoa faça coisas difíceis que não quer fazer. Essa tendência produz, portanto, uma oposição à lei.

Os senhores vão analisar as idéias da Revolução Francesa, elas são liberais. O que os agentes da Revolução Francesa queriam era reduzir o poder público e o número de leis o mais possível, permitindo todo mundo fazer absolutamente o que quisesse. Isso está na essência da Revolução Francesa. Suas reformas se inspiram nesta idéia: a lei é um mal necessário e, portanto, é preciso reduzi-la ao máximo. E de tal maneira que para muitas coisas que deveria haver lei, eles as eliminaram. O resultado é que prejudicaram enormemente todo o corpo social.

Um exemplo: antes da Revolução Francesa havia, proveniente da Idade Média, as corporações, que eram organizações que tinham uma legislação do trabalho muito bem feita, protegendo os trabalhadores em relação aos patrões e estes em relação aos trabalhadores. Era uma lei de harmonia social. Hoje os sociólogos em geral estão de acordo em reconhecer que essas corporações eram excelentes.

Vem a Revolução Francesa. Para estabelecer a liberdade, ela elimina as corporações e todas as leis de trabalho. Qual é o resultado? De um lado – nós vamos ver isso no século XIX, nascido da Revolução Francesa –, um número enorme de greves. De outro, um número enorme de look out, que é a greve do patrão, quando ele fecha a fábrica e manda os operários irem “plantar batatas”, porque não querem fazer o que deseja. Conseqüência: caem na fome. Então, o século XIX é, em grande parte, prejudicado por isso, até que se fez a legislação do trabalho.

Houve, portanto, um hiato enorme sem leis do trabalho. Qual é a razão disto? Como eram contra qualquer lei, eles tomaram um campo importante de atividade humana – o trabalho – e dele eliminaram as leis.

Não sei se os senhores estão notando que da tendência vem uma idéia, que é o princípio: leis, o menos possível. Daí vem um fato: abolição das leis do trabalho, como a abolição de um número enorme de outras leis na França. Leis, por exemplo, de alfândega interna de uma parte para outra da França, que para aquele tempo, com o modo de organizar aquela economia, eram necessárias e hoje não o são mais. Eles suprimiram, deu em ruínas econômicas! O que causou também a abolição da nobreza, porque os nobres tinham uma certa autoridade sobre os plebeus em suas terras. Elimina-se a nobreza e o rei fica reduzido quase a uma figura de proa, como é a Rainha da Inglaterra.

Então a tendência é fazer o que é gostoso. A idéia nascida da tendência é acabar com a autoridade. O fato: uma série de reformas que debilitam enormemente a autoridade na França.